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a árvore ao jardim
Alice Valente Alves

A ARTE no tradicional do FOLCLORE e do ARTESANATO

A OBRA DO COLECTIVO SEM AUTORES no que o POVO sempre fez pelo SER.
Folclore e Artesanato - Obras sem autores, sem nomes, sem titulares, unicamente vividas e postas em prática de pais para filhos, de geração em geração, pela palavra não-escrita, com toda a beleza em suas manifestas formas e forças do que é a criatividade humana.
O Homem tanto na tradição do movimento da acção de um corpo que comunica melodiosamente como na tradição da construção de peças para o seu uso utilitário, precisa de se FAZER nesta estruturante forma de se completar pelo artístico. O Folclore e o Artesanato foram indispensáveis enquanto ARTES do movimento e da Acção de se FAZER sem autores e em anonimato, longe das elites, num colectivo por autorizado e adoptado conjuntamente para os singulares que se reafirmam fazendo-se pelo movimento sábio do nascer até morrer. E é nessa espontaneidade da necessária comunicação do que é conhecido de uma forma igual com seus próprios valores éticos e estéticos que se vai recriando de pais para filhos a se firmar no que é a Arte na tradição de um Povo, numa precisa aprendizagem que se vai ensinando a ocupar-se do que é cuidar e preservar e a ser transmitida de geração em geração no que lhes concerne em espaço, de se estar por se pensar, numa poética da vida posta em prática através de movimentos dançados, sem registos escritos e unicamente com a palavra dita, falada e cantada e depois pela prática de se Fazer objectos zelosamente utilitários para a harmonia desse mesmo dia a dia.
Neste contínuo processo de crescimento da vida e onde a Arte se insere, a estar-saber-fazer, o outro não é lhe hostil, é que o outro é fundamental para esse valorização em apreciação, portanto a avaliação e o mérito existem numa recíproca e natural mutualidade.

Aqui não é o Entretenimento que lhe dá forma de ser, mas sim o recriar do que precisa para Ser numa colectivizante sociabilidade. Não era com o Folclore e com o Artesanato que o povo se entretinha. Folclore e Artesanato faziam parte da cultura e dos valores de um povo nesse estar-saber-fazer como a sua a mais-valia e riqueza, que com todo o cuidado foi sendo transmitida de pais para filhos e de geração em geração, servia pois e sobretudo para enriquecer a mente no estar-se ocupado enquanto Ser valorativo num Todo colectivo e social.

A Feira tem sido o museu do Povo, para apresentarem e exporem seus novos trabalhos, suas vivências e nessas feiras tinham entretenimentos ou espectáculos, e eram eles, rodeios, touradas, depois os espectáculos desportivos (o desporto quando não praticado e só assistido é um espectáculo de quem ganha ou perde) como a corrida, a luta, o futebol, no gozo ou na distracção de ver quem ganha e de que lado se deverão de pôr no ser-se o melhor, em que contendas, a tomar partido do ganhar ou do perder, em suma o entretenimento possibilita conflituosidades porque diverte-se a gozar, a hostilizar e a lucrar com o perdedor para favorecer e enaltecer o ganhador. E estes desportivos entreténs postos em prática, com a ajuda da Indústria, foram-se racionalizando eficazmente e tomando a forma actual de Lazer, como a maior das preguiças de se estar na vida, «matando o ser», ora um ora outro, há que ir para a arena, tourear, em toda a sua extensão do que é matar para se viver consumidamente…

Práticas e actividades culturais onde se insere a Arte e o Artístico, não são Lazer e portanto, também não são espectáculo. E tanto o folclore como o Artesanato são práticas culturais, por se ocuparem de uma actividade prazerosa tanto a ser assistida como participada, proveniente de um colectivo dirigido aos singulares desse mesmo colectivo social, neste caso, do povo para o povo.

Embora ocupem o tempo de uma forma descontraída, Folclore e Artesanato não são entretenimento, porque o tempo não é um passar de tempo a matá-lo ou a jogá-lo fora, mas sim no ocupar o tempo a recriar e a valorizar esse saber-fazer a estar ou a viver com ética e estética e que por inerente ao pensar e à vida, lhes era o inevitável e possível.

Assim como o ler um bom livro ou dar um passeio à beira-mar não são entretém, mas sim um ocupar de tempo pensativa ou reflexivamente, criando ou recriando. E porque num passeio à beira-mar não se vai para assistir ao gozo de ver o outro ou os outros ganharem ou perderem e isso é o que eu designo de entretenimento ou entretém a «matar» o tempo, danificando-o.

E muitos artistas foram pesquisar a procurar inspiração nessas raízes da tradição que não podem ser desvalorizadas, muito pelo contrário, porque são elas ou pelas crenças na tradição de poderes vigentes, povo que tentou resistir com arte e sem armas às essas mesmas crenças que lhe eram impostas como verdades que tentavam rejeitar, reunindo todos os esforços no estar-saber-fazer para conseguir continuar a viver condignamente.

Um concerto musical não é um espectáculo, é simplesmente um concerto, por isso nada ter a ver com o entreter, o Lazer e o Entretenimento, e porque após se sair do concerto ou de uma manifestação artístico-cultural, ter-se a sensação de se estar alimentado de uma forma espiritual e a dar possibilidade de recriar a melhor desenvolver as nossas capacidades criativas e humanas de se Ser. E porque o mesmo já não sucede com um espectáculo, porque esse exacerba uma astuta euforia na pior parte de nós a lidar e a comunicar com os outros.

Assim como não é espectáculo uma exposição, uma coreografia, um recital, uma peça de teatro, uma ópera, uma apresentação ou lançamento de um Livro… É que um espectáculo diz sempre respeito ao entretenimento no ver quando é que a fera mata o outro na arena, com os respectivos espectadores a se porem do lado do ganhador para assim se vingarem do mal que lhes tem caído em cima, a poderem gozar, escarnecer, achincalhar e humilhar com toda a legal ferocidade o outro em seus falhados perdedores. Esta repugnante forma de estar, banalizou-se de tal forma que até se ensina sub-repticiamente e com toda a obrigatória, vil e ordeira naturalidade nas instituições, nas empresas, nas famílias e nas escolas.

E após esta globalidade, com a ajuda das novas tecnologias e a fazermos delas bom uso, talvez possamos em breve, participar intensamente e com todo o respeito, num regresso às origens e às raízes a tentar encontrar o que ainda nos resta do que ficou para ser preservado, isto se ainda os que souberem como foi essa prática, vivenciada ou não e porque no terreno, outros pelos registos documentais e outros nas imensas ciências a que tal se atentem ou entendam à descoberta, como a via de ainda se SER, cuidando e protegendo do que ainda nos rodeia e não com esta forma hostil e em que competitividades e medos, sempre à espreita a olhar o outro ou os outros como meros bandidos que se têm de abater a todo o custo, antes que sejam eles a terem essa ideia.

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