A OBRA DO COLECTIVO SEM AUTORES no que o POVO sempre fez pelo SER.Folclore e Artesanato - Obras sem autores, sem nomes, sem titulares, unicamente vividas e postas em prática de pais para filhos, de geração em geração, pela palavra não-escrita, com toda a beleza em suas manifestas formas e forças do que é a criatividade humana.
O Homem tanto na tradição do movimento da acção de um corpo que comunica melodiosamente como na tradição da construção de peças para o seu uso utilitário, precisa de se FAZER nesta estruturante forma de se completar pelo artístico. O Folclore e o Artesanato foram indispensáveis enquanto ARTES do movimento e da Acção de se FAZER sem autores e em anonimato, longe das elites, num colectivo por autorizado e adoptado conjuntamente para os singulares que se reafirmam fazendo-se pelo movimento sábio do nascer até morrer. E é nessa espontaneidade da necessária comunicação do que é conhecido de uma forma igual com seus próprios valores éticos e estéticos que se vai recriando de pais para filhos a se firmar no que é a Arte na tradição de um Povo, numa precisa aprendizagem que se vai ensinando a ocupar-se do que é cuidar e preservar e a ser transmitida de geração em geração no que lhes concerne em espaço, de se estar por se pensar, numa poética da vida posta em prática através de movimentos dançados, sem registos escritos e unicamente com a palavra dita, falada e cantada e depois pela prática de se Fazer objectos zelosamente utilitários para a harmonia desse mesmo dia a dia.
Neste contínuo processo de crescimento da vida e onde a Arte se insere, a estar-saber-fazer, o outro não é lhe hostil, é que o outro é fundamental para esse valorização em apreciação, portanto a avaliação e o mérito existem numa recíproca e natural mutualidade.
Aqui não é o Entretenimento que lhe dá forma de ser, mas sim o recriar do que precisa para Ser numa colectivizante sociabilidade. Não era com o Folclore e com o Artesanato que o povo se entretinha. Folclore e Artesanato faziam parte da cultura e dos valores de um povo nesse estar-saber-fazer como a sua a mais-valia e riqueza, que com todo o cuidado foi sendo transmitida de pais para filhos e de geração em geração, servia pois e sobretudo para enriquecer a mente no estar-se ocupado enquanto Ser valorativo num Todo colectivo e social.
A Feira tem sido o museu do Povo, para apresentarem e exporem seus novos trabalhos, suas vivências e nessas feiras tinham entretenimentos ou espectáculos, e eram eles, rodeios, touradas, depois os espectáculos desportivos (o desporto quando não praticado e só assistido é um espectáculo de quem ganha ou perde) como a corrida, a luta, o futebol, no gozo ou na distracção de ver quem ganha e de que lado se deverão de pôr no ser-se o melhor, em que contendas, a tomar partido do ganhar ou do perder, em suma o entretenimento possibilita conflituosidades porque diverte-se a gozar, a hostilizar e a lucrar com o perdedor para favorecer e enaltecer o ganhador. E estes desportivos entreténs postos em prática, com a ajuda da Indústria, foram-se racionalizando eficazmente e tomando a forma actual de Lazer, como a maior das preguiças de se estar na vida, «matando o ser», ora um ora outro, há que ir para a arena, tourear, em toda a sua extensão do que é matar para se viver consumidamente…
Práticas e actividades culturais onde se insere a Arte e o Artístico, não são Lazer e portanto, também não são espectáculo. E tanto o folclore como o Artesanato são práticas culturais, por se ocuparem de uma actividade prazerosa tanto a ser assistida como participada, proveniente de um colectivo dirigido aos singulares desse mesmo colectivo social, neste caso, do povo para o povo.
Embora ocupem o tempo de uma forma descontraída, Folclore e Artesanato não são entretenimento, porque o tempo não é um passar de tempo a matá-lo ou a jogá-lo fora, mas sim no ocupar o tempo a recriar e a valorizar esse saber-fazer a estar ou a viver com ética e estética e que por inerente ao pensar e à vida, lhes era o inevitável e possível.
Assim como o ler um bom livro ou dar um passeio à beira-mar não é entretém, mas um ocupar do tempo pensativa ou reflexivamente, criando ou recriando. E porque num passeio à beira-mar não se vai para assistir ao gozo de ver o outro ou os outros ganharem ou perderem e isso é o que eu designo de entretenimento ou entretém a «matar» o tempo, danificando-o.
E muitos artistas foram pesquisar a procurar inspiração nessas raízes da tradição que não podem ser desvalorizadas, muito pelo contrário, porque são elas ou pelas crenças na tradição de poderes vigentes, povo que tentou resistir com arte e sem armas às essas mesmas crenças que lhe eram impostas como verdades que tentavam rejeitar, reunindo todos os esforços no estar-saber-fazer para conseguir continuar a viver condignamente.
Um concerto musical não é um espectáculo, é simplesmente um concerto, por isso nada ter a ver com o entreter, o Lazer e o Entretenimento, e porque após se sair do concerto ou de uma manifestação artístico-cultural, ter-se a sensação de se estar alimentado de uma forma espiritual e a dar possibilidade de recriar a melhor desenvolver as nossas capacidades criativas e humanas de se Ser. E porque o mesmo já não sucede com um espectáculo, porque esse exacerba uma astuta euforia na pior parte de nós a lidar e a comunicar com os outros.
Assim como não é espectáculo uma exposição, uma coreografia, um recital, uma peça de teatro, uma ópera, uma apresentação ou lançamento de um Livro… É que um espectáculo diz sempre respeito ao entretenimento no ver quando é que a fera mata o outro na arena, com os respectivos espectadores a se porem do lado do ganhador para assim se vingarem do mal que lhes tem caído em cima, a poderem gozar, escarnecer, achincalhar e humilhar com toda a legal ferocidade o outro em seus falhados perdedores. Esta repugnante forma de estar, está-se a banalizar de tal forma que até se ensina sub-repticiamente e com toda a obrigatória, vil e ordeira naturalidade nas instituições, nas empresas, nas famílias e nas escolas.
E após esta globalidade, com a ajuda das novas tecnologias e a fazermos delas um bom uso, talvez possamos em breve, participar intensamente e com todo o respeito, num regresso às origens e às raízes a tentar encontrar o que ainda nos resta do que ficou para ser preservado, isto se ainda os que souberem como foi essa prática, vivenciada ou não e porque no terreno, outros pelos registos documentais e outros nas imensas ciências a que tal se atentem ou entendam à descoberta, como a via de ainda se SER, cuidando e protegendo do que ainda nos rodeia e não com esta forma hostil e em que competitividades e medos, sempre à espreita a olhar o outro ou os outros como meros bandidos que se têm de abater a todo o custo, antes que sejam eles a terem essa ideia.
ALICE VALENTE
8 TRAÇO(S):
Muitos ajuizados juízos à boleia de palavras e seus significados e significantes, Alice. Não me ocupa o assunto, de todo, o de definir de se a arte e o artístico podem ou não sero lazer ou espectáculo.
Ocupa-me e preocupa-me outrossim, o aprender, o saber, o dispender tempo na fruição das artes, que só com o acercar-se do que é tradição se almeja (educação artística).
Lembro o que Stravinsky escreveu e deixei num post para trás, sob o título "O que é que a Cultura tem a ver com a Educação?", que me parece muito próximo do valor que atribuis (atribuímos) à criação, à tradição e à arte:
É a cultura que traz à luz o valor completo do gosto e lhe dá a oportunidade de provar o seu valor simplesmente pela sua aplicação. O artista impõe uma cultura sobre si próprio e termina por impô-la aos outros. É desta maneira que se estabelece a tradição.
A tradição é completamente diferente do hábito, mesmo dum hábito excelente, porquanto o hábito é, por definição, uma aquisição inconsciente e tende a tornar-se mecânico, ao passo que a tradição resulta duma aceitação consciente e deliberada. Uma tradição verdadeira não é a relíquia dum passado irremediavelmente desaparecido; é uma força viva que anima e nos informa do presente.
(…)
Longe de implicar a repetição daquilo que foi, a tradição pressupõe a realidade daquilo que tolera. Surge-nos como uma herança, um legado que se recebe com a condição de o fazer frutificar, antes de o passar para os nossos filhos.
Beijinho
CARLOS, são para mim, muito importantes as palavras, em seus significados e significantes, para assim melhor conseguirmos criar e comunicar, a nos entendermos verdadeiramente. Por isso esta minha enorme preocupação e insistência nestas matérias. Se não te apraz (de outra forma, mas creio que sim) ocupares-te do assunto e em que definições, outros o farão e espero bem que sim, senão mal estaremos, e no meu caso, é sempre numa tentativa de dar relevância ao Saber-Fazer. E porque para se Saber-Ensinar a dar sentido à VIDA é preciso Saber-FAZER, para assim os que queiram Aprender o façam com todo o prazer e sentido no Fruir a ARTE do saber VIVER-SE com ARTE. Por isso não nos deixemos enganar pelos que tentam ultrajar e burlar para interesses mesquinhos no incentivar a baralhar tudo e todos numa oportunista forma de gozar e achincalhar a vida e vidas, a prejudicar e a maltratar o ser humano. Às vezes parece-me que neste forma estúpida de estar não sabemos utilizar o melhor que temos que é o SENTIR e o PENSAR.
E cada qual à sua maneira, o que interessa é FAZERmo-nos com toda a atenção e cuidado a SABER preservar de tudo o que nos rodeia. E precisamente porque considero que isso só é possível com a Arte e nas manifestações do que é artístico. Manifestações essas que se não se compactuam com jogos e em que gozos de passatempos e na concorrência de que competitividades.
E insisto para que ninguém tente fazer uso da Arte e do Artístico no Ensino Artístico e em que Educação Artística, como se de um divertimento, jogo ou passatempo se tratasse, a direccionar para interesses e em que competições que a ela (à Arte) não dizem respeito, por isso irei continuar com estes temas e até deixei para um melhor esclarecimento e entendimento a dar aqui continuidade, numa escolha das minhas palavras e que coloquei no post com o título:
>>> APREÇAR A VIDA
Muito obrigada pelas tuas palavras e beijinhos.
Parece que não consegui transmitir o que pretendia, Alice.
Estou de acordo com tudo, mas tudo, o que escreveste em resposta ao meu comentário, em especial, transcrevo - para se Saber-Ensinar a dar sentido à VIDA é preciso Saber-FAZER, para assim os que queiram Aprender o façam com todo o prazer e sentido no Fruir a ARTE do saber VIVER-SE com ARTE.
Mas é por isso mesmo que para mim (repara, para mim e só para mim), diante da gigantesca feira de fantástica e espectacular mediocridade que nos cerca, não faz sentido, no Tempo, na sua gestão, gastar energia, ou perder tempo, a distinguir as manifestações artísticas do que agora se chama de entretenimento.
É que todos sabem muito bem, no seu íntimo distinguir, mesmo os menos letrados; só os mal intencionados é que pretendem baralhar.
Cada um segue o seu caminho, é certo, mas contribuir para o baralhar, para o jogo de conceitos, não me parece ser a melhor via. Bom mesmo é jogar, é mostrar, é viver, é mostar que se É, o SER, porque os bem intencionados compreendem.
Resta-nos, assim, o problema de mais difícil solução: como impor (não se trata de convencer, repito, porque não se consegue convencer pessoas mal intencionadas) uma educação em cultura ou, utilizando as tuas palavras, uma educação para se SER e não só para se TER.
Beijinho
Curiosamente, ou talvez não, aborda a temática de outra forma. Deixei por isso, um link para cá.
Bom dia, Alice.
CARLOS, claro que conseguiste transmitir o que pretendias e deste-me a grande oportunidade de reforçar os conceitos, mas é que sabes, por vezes a lucidez deixa de brilhar quando nos deixamos apagar, quando com toda a franqueza ainda precisamos de acreditar nas instituições e nas pessoas que nos regem e já não é mais possível, porque a fraude está instalada como que uma teia que apanha e afecta a todos.
E estas matérias, sempre ficaram para últimas a serem ultrajadas, e quase sem se dar por isso, aí estão elas a serem mal tratadas e pior do que pensamos e nós impávidos e serenos a assistir.
A Cultura, as Artes e a Vida estão pois a serem saqueadas e a serem usadas como «produtos» ou como se fossem uma qualquer carne do talho (e que até foi «fabricada» com más rações) e que vai para moer e, após ser picada, essa mesma carne é depois confeccionada num prato mais ou menos com a tal de aparência que engana satisfatoriamente, e ficas sem saber logo, logo no início de todo esse processo, que carne é essa, de onde veio, de que animal, mas não interessa, o que interessa é que comeste porque tinhas fome e que por isso mesmo continuas vivo e contentinho, pagando muito ou pouco, dependendo do tipo de restaurante a que tens possibilidade de frequentar… Pois é isso!... Estamos a ser enganados satisfatoriamente por todos os lados, económica, política, educativa e psicologicamente. Tornou-se com toda a invasiva legalidade ser-se enganado pelos que imperam… nas muitas formas que não irei aqui enunciar porque todos até sabemos e como tu dizes, os mal intencionados tentam misturar tudo, tudo no mesmo saco sujo, a termos que ingerir o que os mal intencionados nos querem impingir, para aqui continuarmos a viver nesta obrigatoriedade miseravelmente satisfatória.
Ora portanto se eu sentir que posso contribuir a esclarecer de alguma forma os que pretendem acreditar que Educar a Aprender ainda é possivel, terá de ser primeiro com as palavras com um sentido da Verdade e do que é verdadeiro. Para que assim os nossos filhos se sintam por cá bem em seu futuro, tenho pois que fazer o meu melhor a dizer-lhes que assim como nós caminhamos não é mais possível, e cabe-me a mim, dando-lhes o exemplo, a dizer que assim não, a tentarmos todos juntos conseguirmos alterar já e a partir de agora com toda a lucidez que me assiste no que eu melhor sei Fazer para Ser e não para ter.
E por aqui fica o registo e que vai por aí fora no muito que poderá FAZER no agora ou num brevemente que nos assiste já já, nesta nova possibilidade de sermos tão activos quanto interventivos e participativos nesta via que talvez muito possa fazer pelo Ser Humano a SER-SE.
Beijinhos e muito obrigada
Rendido, ao texto, claro, Alice!
Disseste tudo o que eu penso sobre o problema:
Estamos a ser enganados satisfatoriamente por todos os lados, económica, política, educativa e psicologicamente. Tornou-se com toda a invasiva legalidade ser-se enganado pelos que imperam… nas muitas formas que não irei aqui enunciar porque todos até sabemos e como tu dizes, os mal intencionados tentam misturar tudo, tudo no mesmo saco sujo, a termos que ingerir o que os mal intencionados nos querem impingir, para aqui continuarmos a viver nesta obrigatoriedade miseravelmente satisfatória.
O que nos afasta? Nada, afinal, porque ambos, cada um à sua maneira, tenta fazer para SER, mas é nesta empatia e solidariedade e amizade e proximidade que devemos (temos obrigação) de dizer: - olha, eu talvez não seguisse esse acminho! Mesmo sabendo que almejamos idêntico desaguar...
Beijinho
MANUELINHO, nesta sua abordagem do >>> >Democratizar pelo conhecimento trouxe para aqui estes excertos que se coadunam, como que modelarmente com toda esta temática:
A utilização da expressão “música antiga” para conceitos como “interpretação autêntica” ou “historicamente informada”, remonta a tempos recentes…
(…)
Cancioneiros Musicais …. Ao longo do último terço do séc. XV e da 1ª metade do séc. XVI Portugal foi um participante activo no desenvolvimento da canção polifónica profana…
Um Cancioneiro é uma colecção de canções populares polifónicas e profanas
(…)
Cultura e Desenvolvimento são indissociáveis, e se nenhum governo parece entender esta simples verdade, não sabe e/ou não quer exercer aquilo para que foi realmente eleito: democratizar pelo conhecimento, elevando os padrões de exigência dos cidadãos e dos próprios governantes. Agregar e estimular estudos vocacionados para a compreensão das complexas relações entre cultura, sociedade e desenvolvimento, incentivar a investigação nas múltiplas inter-relações entre desenvolvimento da sociedade e a cultura; determinar que a culturalidade surja como elemento essencial (e natural) para o desenvolvimento, acarinhando estudos sobre a formulação de valores, de políticas de preservação dos patrimónios e sub-patrimónios culturais, promovendo a disseminação, divulgação e consumo das artes nas suas variadíssimas vertentes, assegurando assim, de forma simples, o desenvolvimento necessário para uma vida com verdadeira qualidade.
Um abraço e muito obrigada pelo link.
Sou eu quem tem de agradecer a gentileza, o conhecimento da minha amiga, a enorme generosidade em partilhar esse conhecimento.
Abraço
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