08 Novembro 2007

A Educação Artística e o * espartilho cientista


Sobre este excerto:
(…)

Como as manifestações artísticas, em geral, escapam a este espartilho cientista…

(…)


De Carlos Araújo Alves do texto do seu blogue IDEIAS SOLTAS com o título:

da luxúria do Cientismo ao desnorte da Educação Artística

e que inspirado, por sua vez, no texto do blogue DRAGOSCÓPIO, com o título:
A Cama que nos andam a fazer

Levou-me novamente a este preocupante tema nesta enorme problemática do ensino da Educação Artística em Portugal.
É que daqui para a frente, o que teimosamente se pretende ensinar nas Escolas relativamente às artes por imposição, tanto do Ministério da Educação como do Ministério da Cultura e porque somente associados (ou casados) à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, estes que nada entendem e nada têm abonado e precisamente por nada saberem e nada terem a acrescentar às artes e ao que é artístico, o que pretendem é pois, desacreditar as artes veementemente perante os alunos, e até perante eles mesmos, e porque de tão inconscientemente gananciosos, jamais se darão conta desta gravosa situação. Fica então aqui, o alerta!

Veja-se nas escolas o que se está já a passar relativamente a essas (como o Carlos Araújo Alves designa de) mezinhas: recebe-se em casa muito usualmente nesta altura do ano, naqueles papelitos para nós assinarmos, as tais actividadezinhas para os nossos filhos se inscreverem e que são elas já muito na moda: Musicoterapia, Dança Movimento e Terapia; Atelier de Fotografia, Espaço de Arte e Clube do Ambiente, etc. e por aí fora… e quem é dá estes cursinhos e em que mezinhas? - Os psicólogos ou o professorado psicanalítico, claro está, só podia, então! Pois é, é que só podia mesmo, e todos pomposos querem-nos fazer crer que até são especialistas formados no usarem estas matérias das artes. Ora, ora, estão mas é a sacrificá-las e a dar-lhes um sentido sem qualquer sentido, que nada as favorecerá, muito pelo contrário.

As artes não podem ser apresentadas nas Escolas, assim levianamente, por esta gente que tira cursos em faculdades para se verem nesta remediável agência de ministeriais empregos. Estes tipos de cursinhos e em que mezinhas, têm de ser proibidos enquanto antes! É que as crianças, só pelo nome nem se inscrevem, e se são obrigadas pelos seus pais para estarem ocupadinhas com qualquer coisinha que as entretenha e até de bonitinho, depois basta-lhes ir a uma primeira aula, que ficam logo vacinadas, para nunca mais repetirem a dose, é que aquilo é de arrepiar, é que é demasiadamente medíocre. E se aos encarregados de educação ligados às artes, lhes fosse permitido assistirem aquelas aulinhas e, até tivessem a possibilidade de as avaliar, dariam com certeza: nota zero!

E como é que a arte pode ser tida de terapia, é que se a arte é levada por estes caminhos remediados nas escolas, deixa imediatamente de cumprir os seus objectivos enquanto ARTE. Ninguém está para aturar estas invençõezinhas em doentias e psicanalistas lamechices, e muito menos as crianças, que topam isso muito bem e mais depressa do que se pensa. Pois, mas isto é permitido nas escolas porque o Ministério da Educação tem dado demasiada autoridade aos psicólogos e agora aos formados, formadores e formatados das Ciências da Educação e porque todos muito cumplicitados e interligados nestes mercantilismos ardis primários, pensam-se os donos das escolas para assim poderem ensinar «coisas», e é isto que irão continuar a professorar relativamente às artes, e que é promíscui-la completamente. Isto só leva a uma desacreditação total das Artes e ao que é Artístico, a começar logo na Escola assim, a ser ensinado como uma mezinha e remédio. E depois como é querem arranjar público para concertos, exposições e dinamizar o nosso país culturalmente, como ambas as ministras e seus secretários de estado têm andado para aí a apregoar que o irão conseguir agora com o Ensino da Educação Artística? Assim jamais! Pois é, o que ensinam nas Escolas sobre a arte e o que é artístico, assim sem rigor absolutamente nenhum, é mesmo de se achar que aquilo não interessa para nada!

E desde quando a Arte e a Vida são remédios para o que quer que seja?

Não esqueçamos e não confundamos que a Arte e a Vida são a potência e a força vital de se Ser humano.

Mas parece que querem, é que se acredite em seu contrário: «que viver é um remédio e é a arte que remedeia a vida ou a vida que se remedeia na arte». Que conceito patológico este, e em que curriculares ou extras vias, e que é precisamente, o que já está a ser pressionado e a ser adestrado aos alunos nas salas de aulas das nossas escolas.

É que é impensável esta relação mórbida de se educar para a vida, que os psicólogos e ademais cientificidades e em que faculdades, professores e ministérios, pretendem encaminhar as artes e em seu ensino, logrando-as pois e assim, ao total abandono e consequente morte.


* Espartilho - … Colete com lâminas de aço… usado pelas mulheres para comprimir a cintura e dar elegância ao tronco: um espartilho demasiadamente apertado deforma o tronco e prejudica a respiração.


6 TRAÇO(S):

José Oliveira disse...

Olá Alice!

A "psicologização" da educação não é -- infelizmente! -- um facto novo. Quando estava no curso de educação já me questionava bastas vezes sobre essa situação; e se a expunha a algum professor -- salvo raras excepções -- ou não obtia resposta, ou me diziam que assim é que tinha de ser porque a educação era uma ciência... (Foi uma das razões que me fez interessar pela Filosofia da Educação.)

Parece-me acima de tudo que:

a) A educação não se reduz, de forma absolutamente alguma, à psicologia -- esta é uma ideia que tenho defendido desde há algum tempo

b) A educação é demasiado importante para ser deixada a um só grupo de especialistas -- sejam lá quem forem;

c) Se queremos ensinar bem alguma coisa temos acima de tudo de querer aprender e de ouvir os especialistas -- seja de que área forem e independentemente do que se considere importante promover com o ensino.

Embora considere que todas as críticas apontadas são válidas, não podemos desistir! Há que lutar, cada qual dentro da sua área para que quem ensina saiba realmente o que está a ensinar. Só desta forma haverá uma verdadeira valorização de todas as qualidades humanas... Para tal torna-se indispensável um verdadeiro diálogo

Cumprimentos,

José Manuel Oliveira.

ali_se disse...

Olá JOSÉ MANUEL OLIVEIRA!

É mesmo muito preocupante esta «psicologização» do Ensino, aliás é mesmo assustador, começou a proliferar nos anos 80 (clique aqui >>> para ver link), tem sido uma moda muito gira e tem tido um esfuziante sucesso estas ideias freudianas dos psicólogos se infiltraram e dominaram a Educação! É que ninguém está a querer perceber os riscos que decorrem desta obrigatória forma da psicologia impor uma qualquer vulgaridade a incutirem uma forçosa fatalidade em todas as áreas com suas arrogantes mediocridades. São monstruosas essas teorias que obrigam a que se entre numa lamechice generalizada que provoca cada vez mais danos às sociedades.
É que parece que temos é que ser todos «burros» e aldrabados por estes incipientes teóricos em vez de desenvolvermos as capacidades com toda a lucidez e autonomia e sem estas «amarras» de doenças dali, doenças de acolá, e coitadinhos e têm problemas e vá de dar pancadinhas nas costas, e tal e tal e que chulice tamanha esta de taxarem tudo muito por baixo, para depois obrigarem a que se entre numa normalidade que é completamente anormal…
Mesmo os psicanalistas ou psicólogos que são considerados de muitos bons nesta nossa praça, são eles próprios que se sentem o quanto errados estão, mas como se lhes dá muita importância, e até parece que são uns padrecos salvadores, e tem-lhes sido permitido serem os bem sucedidos a vingarem (mas vamos ver até quando) olha estão bem e deixam-se andar por aí à solta a fazerem o que bem lhes apetece, até ver, não é?

Também dá para os conhecer e perceber melhor, quando se assiste a uma conferência em que se misturam oradores das áreas da Filosofia, Antropologia e mais… e que também se apresentam os tais formados em psicologia e os formatados das ciências da Educação, e são sempre este grupinho último, os mais fraquinhos, nada dizem em seus palavreados, são miseráveis os seus dizeres, é um bla-blá-blá, que mete dó, tudo copiado do que já foi dito e redito nos livros dos grandes que eles até abusivamente deturpam à sua maneira… não interessa nada o que dizem, nem leva a lado nenhum, só para conspurcarem tudo, depois misturam tudo e metem tudo no mesmo saco, é um círculo muito mesquinho e vicioso…!

Concordo consigo quando diz que não podemos desistir, apesar de considerar que não se tratará propriamente de uma luta, porque luta pressupõe sempre a ocupação do espaço do outro, no ganhar ou perder, e aqui não se trata disso, mas sim e, como muito bem frisa que:
(…) cada qual dentro da sua área para que quem ensina saiba realmente o que está a ensinar. Só desta forma haverá uma verdadeira valorização de todas as qualidades humanas... Para tal torna-se indispensável um verdadeiro diálogo.

Temos pois o dever de nos respeitarmos mutuamente e não fazer das áreas do Saber e do Saber-Fazer como se fossem negócios de compra ou venda e a qual dá mais, numa competitividade absurda e sem limites a passar por cima de todas as regras e de toda a ética! Mas note-se que agora o que diz respeito à Educação está só e unicamente nas mãos das Ciências da Educação, são os do político-psicologicamente correcto e mais ninguém sabe nada e lá estão eles psicólogos e psicanalistas e os tais de tidos de especialistas da Educação por todo lado e até para o Ensino das Artes (música, dança, poesia, pintura, escultura)! Dá vontade de rir… Estão em todo lado… E têm todos um discurso muito infantilizado para o Ensinar não só nestas matérias, mas em todas do Saber… e até se dizem de investigadores, é ridículo!… Investigam o quê??? Mas atenção os tais doutos das Ciências da Educação não têm nenhuma especialidade no que é relativo às artes e ao artístico e até aos demais saberes, simplesmente posicionam-se nesta perigosa e soberba altivez e claro, isto está a acontecer porque se lhes está a dar todo o poder! Vamos ver até quando e no que é que isto vai dar! Lá pior estamos e a continuarem a dar-lhes toda a autoridade, pior ficaremos!… Por isso este meu alerta!

Quanto ao diálogo, ora isso nem pensar, eles quererão lá uma coisa dessas, são os novos ditadores! Eles sabem se se atreverem em entrar em diálogo com os que sabem, seria um dilúvio, eles ficavam logo em desvantagem e aí todas as suas panelinhas e tachos iam por água abaixo. E por isso estão nessa de fazerem tudo como entenderem, à porta fechada, a não darem cavaco a ninguém, e quando aparecem, dizem umas coisas bonitas assim para enganar, a ver se apanham toda a gente distraída e se vingam em suas espertalhonas estratégias de fazer coisinhas, ganhar muito dinheirinho a ser-se assim famoso e respeitado pela aparência e sem o mínimo de esforço, a mostrarem que são uns ricos sabichões…

Quando fala de Filosofia da Educação é uma matéria importantíssima e que considero de bastante aliciante e estimulante e porque de Pensamento se trata e só essa com certeza poderá vir a gerar bons frutos no Ensino, mas se fosse tida em consideração… Mas aí as leis do mercado, as mentalidades e tudo o mais ir-se-iam alterar e para estes que estão bem acomodados iria ser-lhes incomodativo abdicar destas mordomias.
É que as Artes, as Ciências e a Filosofia andaram sempre de mão dada e jamais nos podemos apartar desta Realidade e Verdade para conseguirmos Saber SER

Agora convém alertarmos o mais possível (e numa visão ou perspectiva cultural) para o que está mal e, porque cada um à sua maneira, todos o deveríamos de fazer, para que prossigamos rumos que valha a pena num futuro com sentido para todos, e não nesta selvajaria e ganância do salve-se quem puder a deixarmo-nos comandar por gente inculta e oportunista sem alma e sem coração que estão por todo o lado a multiplicarem-se no êxito de parecerem-se bem sucedidos, que mais parece uma praga!

Um abraço e muito obrigada pelo seu sentido comentário, que gostei muito!

José Oliveira disse...

Olá Alice!

Queria começar por lhe pedir que me trate por Zé, visto que já tinhamos discutido por E-mail alguns assuntos relacionados com a educação (Lembra-se do texto sobre o Nietzsche?).

A apropriação abusiva das ciências humanas, por parte das ciências da educação (definição algo confusa e polémica, visto que ninguém se entende verdadeiramente quanto ao seu significado!) tem vindo a ser denunciada por muitas pessoas, nomeadamente da Filosofia da Educação. É criticada principalmente esta ideia algo estapafúrdia de presumir que chamar alguma coisa de científico lhe dá --automaticamente -- uma aura de credibilidade e de infalibilidade... Situação que é mais flagrante ainda quando, nomeadamente na área da Filosofia, se apropriam de termos e de teorias mal digeridas (a expressão que o Desidério usa é "vão ao supermarcado filosófico buscar o que lhes interessa mais", deixando discretamente de parte as críticas que lhes são dirigidas).

Mas entenda-se que o que está em causa não é a existência de uma tal área (Ciências da Educação), até porque ela é necessária. O problema começa, como sempre, pela arrogância -- que a Alice tão bem denuncia! -- de algumas pessoas que, com fraca preparação científica, filosófica e pedagógica (e arriscaria já agora dizer artística) se põem a falar de assuntos que não dominam, pensando que basta repetir "ad nauseum" meia dúzia de slogans, que tudo se resolverá por si só!

Quando usei a palavra "luta" queria dizer exactamente isso. É uma luta, mas não no sentido de guerra! Estas pessoas têm de ser confrontadas com outras ideias e outras visões; só assim chegaremos às melhores soluções para os problemas que afligem toda a educação, nas suas diferentes áreas.

Quanto à Filosofia da Educação como área da Pedagogia tem-se assistido a um regresso da disciplina (e ainda bem, pois é indispensável!), principalmente por parte das pessoas que têm consciência das limitações e dos perigos do positivismo e do dogmatismo.

Já agora deixo-lhe uma sugestão de leitura que trata de muitos destes assuntos, escrito por um professor da FLUP: Adalberto Dias de Carvalho, A Epistemologia das Ciências da Educação, Porto, Afrontamento, 1996, 4ª Ed.

Vou continuar a ler o blog, sempre que possa e quando achar que posso contribuir para alguma discussão, continuarei a intervir.

Um abraço,

José Oliveira.

PostScriptum disse...

Alice, minha cara amiga, temo que nunca cheguemos a lado algum num país que maltrata os artistas - excepção feita aos da cor - e quem se interessa por "cousas das artes" e da educação. Alguém, e bem, mecionou aí um facto importante: os ministérios transformaram-se em agências de emprego para amigos que de "Educação artística" nada sabem; uma grande parte das Fundações - que por força de lei são obrigadas a terem representantes do governo nos conselhos de administração - que ainda tentam remar contra a maré, são policiadas por gentalha vendida a um emprego.
Admiro a sua coragem.
Um abraço

ali_se disse...

Olá ZÉ!

Sim, lembro-me perfeitamente e no anterior comentário, respondi-lhe sabendo quem era. E é para mim um enorme prazer analisar consigo estas matérias porque apercebi-me que está atento e preocupado com o que o rodeia e isso é fundamental para irmos ao encontro de novas soluções através de trocas de ideias… a alertar o mais possível!

O lado do psicológico nas Ciências Humanas tem muita para se estudar, pesquisar e investigar, só que surgiu Freud e esse começo da pedagogia que se avizinhava promissora ao lado da psicologia, acabou por morrer com os tais conceitos psico-freudianos. A Psicologia actual e porque só e unicamente baseada nos conceitos psicanalíticos está a «castrar» toda e qualquer possibilidade do desenvolvimento de um saudável PENSAR e ESTAR em CRIATIVIDADE. E neste momento o atrofio é de tal forma que os da Filosofia não podem ver os da Psicologia e os da Psicologia temem e até estremecem com a Verdade da Filosofia e por isso os PSIS agarram-se com unhas e dentes em tudo o que possam dominar e agora até nas ARTES, pensando que conseguirão atirar areia para os olhos de toda a gente. As pessoas já estão demasiadamente cansadas, por isso é preciso ALERTAR! É que arranjam mil e uma maneiras para enganar o ser humano e até nessa nova moda das CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO. E esta sua frase diz tudo sobre essa manhosice:

…esta ideia algo estapafúrdia de presumir que chamar alguma coisa de científico lhe dá --automaticamente -- uma aura de credibilidade e de infalibilidade...

É que eles pensam que podem se usurpar das falhas humanas e manipulá-las como um negócio controlável e isso é grave. Estão sempre à procura de novas doenças e limitações do ser humano, para eles tudo é doença, que tontice! Esquecendo-se e aí é que entra a Filosofia através do PENSAR, que são nessas limitações que eles «rotulam» como doença, restrição ou mal que desenvolvem a discriminação para com as pessoas e em seus espaços, nas escolas, no trabalho e por todo o lado. E como dizia são essas limitações o forte potencial do ser Humano e que se manifesta com toda a singularidade e por isso não podemos permitir que esses ideais psicanalíticos, saqueiem essa beleza que existe em cada um de nós pela diferença, para a construção de um TODO interior mais rico em PENSAR pelo SENTIR.

Irei ler ler e analisar com todo a atenção o autor que me aconselhou.
E volte sempre!

Um abraço e muito obrigada

ali_se disse...

Olá MANUELINHO!

Pois é isso mesmo: são policiadas por gentalha vendida a um emprego.
É sinistramente mortífero esse estar!

Um abraço e muito obrigada pelas suas palavras.