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a árvore ao jardim
Alice Valente Alves

Decrescimento económico «previsível»

Crise por transformação - Decrescimento económico «previsível»
 
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o PIB não valoriza o que não se encontra no mercado, como o trabalho doméstico não pago e o trabalho voluntário. Uma sociedade rica em «bens e serviços relacionais» teria um PIB mais baixo do que uma (impossível) sociedade na qual as relações pessoais fossem exclusivamente mediadas pelo mercado.
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Os aumentos de produtividade não são correctamente medidos. Se há substituição de energia humana por máquinas, o preço da energia toma ou não em conta o esgotamento de recursos e as externalidades negativas? Sabemos que não.
 
Mais ainda, deveríamos separar o direito a receber uma remuneração do facto de ter um emprego. Essa separação já existe em muitos casos (crianças e jovens, pensionistas, pessoas que recebem subsídio de desemprego), mas deveria ser ampliada. Temos que redefinir o que significa «emprego», tendo em conta os serviços domésticos não pagos e o sector voluntário, e temos que introduzir ou ampliar a cobertura de um Rendimento Base ou Rendimento do Cidadão universal.
Outra objecção surge. Quem pagará a montanha de dívidas, hipotecas e outras dívidas se a economia não crescer? A resposta tem que ser: ninguém vai pagar. Não podemos forçar a economia a crescer à taxa do juro composto segundo a qual as dívidas se acumulam. O sistema financeiro tem que ter regras diferentes das actuais. Nos Estados Unidos e na Europa o que é novo não é, pois, o keynesianismo ou mesmo o keynesianismo verde. O que é novo é um crescente movimento social a favor do decrescimento sustentável. A crise abre oportunidades a novas instituições e hábitos sociais.

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Os banqueiros parecem ter pensado que o crescimento económico continuaria e aumentaria o valor das casas que estavam hipotecadas. Fizeram «pacotes» com as hipotecas e venderam-nos a outros bancos que os venderam ou tentaram vender a investidores inocentes. A explosão na construção de casas terminou em 2008. A indústria privada da construção quase parou em alguns países.
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No entanto, os apóstolos do crescimento não estão dispostos a utilizar a crise actual de modo a deslocar a economia para um padrão tecnológico e de consumo diferente. Pelo contrário, arranjam razões para pensar que as vendas de carros continuarão fortes porque, se bem que os Estados Unidos tenham cerca de um carro por cada pessoa em idade de dirigir, a China tem menos de três carros por cada 100 pessoas e a Índia menos ainda. 

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... Ao longo de vinte anos, a palavra de ordem ortodoxa foi Desenvolvimento Sustentável (Relatório Brundtland, 1987), que significava crescimento económico que fosse ecologicamente sustentável. Sabemos contudo que o crescimento económico não era ambientalmente sustentável.

A discussão sobre o decrescimento (francês: décroissance), iniciada por Nicholas Georgescu-Roegen há trinta anos, é agora assunto de debate nos países ricos porque «la décroissance est arrivée» (o decrescimento chegou). É agora o momento de substituir o PIB por indicadores sociais e ambientais a nível macroeconómico e de gizar projectos rumo a uma transição socioecológica segundo o comportamento desses indicadores. A transição exige uma reforma das instituições sociais (para enfrentar o desemprego) e também uma reforma das instituições financeiras para impedir que o nível financeiro da economia cresça sem referência às realidades físicas subjacentes. A venda imaginativa de derivados («produtos» financeiros) e a existência de actividade bancária offshore não regulada produziram um grande choque na opinião pública.
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Os movimentos internacionais a favor da justiça anbiental têm por objectivo uma economia que satisfaça de modo sustentável as necessidades de alimentos, saúde, educação e habitação para todos, proporcionando a máxima "joie de vivre" (alegria de viver) possível.
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Traduzido por JOSÉ CARLOS MARQUES

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«previsível»

Díptico nº 68 – «previsível» | acrílico sobre tela | 81x130cm | 2010 | (cor) Traço:Verde
«CORPOtraçoCORPO – a poesia e a pintura» de ALICE VALENTE

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