Há 1 dia
Imagina-se o INCONSCIENTE
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O conhecimento constrói-se através dos elementos constituintes das figurações mentais, inscritos em forma de IMAGENS, que se vão manifestando activa e adequadamente numa metódica desconstrução para dar origem a outras novas IMAGENS que por sua vez, vão-se reproduzindo autónoma e criativamente pela «comunicação» escrita, verbal, gestual, musical e (ou) plástica e em interacção num contínuo e ímpar processo de reconstrução com as respectivas representações.
A existência de figurações mentais flúem saudavelmente com a realidade. E é na falta ou na impossibilidade de se transmitirem todos os significados dessas figurações que a prostração e o padecimento se instalarão.Todo este processo natural e automático da mente se insere no trabalho do desenvolvimento do inconsciente, que sempre fez parte do ser humano e que não carece de mediadores ou vãs intromissões para frutificar-se.
A existência de figurações mentais flúem saudavelmente com a realidade. E é na falta ou na impossibilidade de se transmitirem todos os significados dessas figurações que a prostração e o padecimento se instalarão.Todo este processo natural e automático da mente se insere no trabalho do desenvolvimento do inconsciente, que sempre fez parte do ser humano e que não carece de mediadores ou vãs intromissões para frutificar-se.
Tendo a psicanálise como objectivo a cura do inconsciente, pergunto até que ponto ela não estará a interferir demasiado e até tão negativamente ao ponto de «castrar» a «matar» por completo todo este processo tão natural do desenvolvimento das capacidades criativas inscritas no inconsciente.
Estas áreas da mente em que a lucidez, a criatividade, o pensamento, a ética e a estética são as decisivas virtudes para que a investigação se dê numa procura a permitir que aconteçam as alterações sócio-culturais que tendem inevitável e naturalmente para um Bem-comum a toda a Humanidade.
É que métodos ou modelos deixados instituir e tidos como científicos e que se instalam para impor uma qualquer ordem-social através de devotas terapias caprichosas é algo de perverso e desumano. Deixemo-nos então ficar pela ordem-natural das «coisas» em que precisamente tudo aquilo que é destrutivo em si mesmo, inevitável e NATURALMENTE acabará por se auto-aniquilar.
Estas áreas da mente em que a lucidez, a criatividade, o pensamento, a ética e a estética são as decisivas virtudes para que a investigação se dê numa procura a permitir que aconteçam as alterações sócio-culturais que tendem inevitável e naturalmente para um Bem-comum a toda a Humanidade.
É que métodos ou modelos deixados instituir e tidos como científicos e que se instalam para impor uma qualquer ordem-social através de devotas terapias caprichosas é algo de perverso e desumano. Deixemo-nos então ficar pela ordem-natural das «coisas» em que precisamente tudo aquilo que é destrutivo em si mesmo, inevitável e NATURALMENTE acabará por se auto-aniquilar.
Interiormente
Por não presos dentro lá fora
Horas de um tempo presente futuramente
Abraçamos os sons gritantes do alívio das palavras que nos fogem
Apanhados na hora que nos desliga do preciso momento percebemos
Se não nos fizermos do nada que somos feitos nada se faz
Horas de um tempo presente futuramente
Abraçamos os sons gritantes do alívio das palavras que nos fogem
Apanhados na hora que nos desliga do preciso momento percebemos
Se não nos fizermos do nada que somos feitos nada se faz
Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE
a razão intuitiva
(…) a respeito, de “emoção afirmativa”, de “sentimento do sim”, que faria aquiescer à realidade em seu todo. Há, na vida algo a que nos agarramos e que, apesar das vicissitudes, a torna preferível ao “néant”, ao nada, do qual o sentimento do não seria a expressão. Pode-se, aqui fazer referência a um belíssimo texto de JULIEN CRACG: «Por que a literatura respira mal», no qual ele faz uma distinção entre aqueles que, como Claudel, escrevem a partir de um “sim absoluto, eufórico, frente a tudo que advém, aqueles que têm uma formidável apetite por aquiescência”, para os quais escolher está fora de questão, para os quais tudo é bom, eventualmente até o mal, e aqueles que, como SARTRE, a partir de um “não inscrito na afectividade profunda”, a partir de um “não em parte visceral”. (...)... para observar que foi, antes, uma literatura e um pensamento do «não» que triunfou durante a modernidade.
(…)
… e agora que a Filosofia da História, naquilo que ela tem de linear e seguro, está saturada, pode-se imaginar que a “regressão” seja a expressão de uma energia que não tem mais futuro. Ela é semelhante a um refluxo que empurra as águas de volta para a desembocadura.
Num pequeno texto de grande finura, FERNANDO PESSOA imagina ou recria um diálogo fictício entre duas pessoas em um salão de chá. Ele conclui dizendo que mais que o “de um romancista, meu trabalho é o de um historiador. Eu reconstruo contemplando”. Pode ser que tal atenção não convenha ao cientista. Nem por isso ela deixa de traduzir a força da vida imaginativa, que não cria a partir de nada mas contenta-se em fazer sobressair a lógica interna de um fenómeno. Continuando com Fernando Pessoa em O LIVRO DO DESASSOSSEGO: “Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher”.
Por mais paradoxal que isso possa parecer há um poder da palavra que corresponde à potência das imagens. Num momento em que domina a sensibilidade estética, um e outro entram em sinergia; é precisamente o que funda a metáfora. (…)
(…)
… e agora que a Filosofia da História, naquilo que ela tem de linear e seguro, está saturada, pode-se imaginar que a “regressão” seja a expressão de uma energia que não tem mais futuro. Ela é semelhante a um refluxo que empurra as águas de volta para a desembocadura.
Num pequeno texto de grande finura, FERNANDO PESSOA imagina ou recria um diálogo fictício entre duas pessoas em um salão de chá. Ele conclui dizendo que mais que o “de um romancista, meu trabalho é o de um historiador. Eu reconstruo contemplando”. Pode ser que tal atenção não convenha ao cientista. Nem por isso ela deixa de traduzir a força da vida imaginativa, que não cria a partir de nada mas contenta-se em fazer sobressair a lógica interna de um fenómeno. Continuando com Fernando Pessoa em O LIVRO DO DESASSOSSEGO: “Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher”.
Por mais paradoxal que isso possa parecer há um poder da palavra que corresponde à potência das imagens. Num momento em que domina a sensibilidade estética, um e outro entram em sinergia; é precisamente o que funda a metáfora. (…)
SER-SE empacotado
O que é e o que se entende por «SUSTENTABILIDADE» turisticamente falando?
- Em primeiro lugar e como prioridades, estão sempre as dimensões do Económico e do Social.
- Em segundo e porque o mercado é exigente, há então que fabricar produtos turísticos de alta qualidade para se GANHAR competitividade.
- E só depois em terceiro lugar é que vem o Ambiente e a Conservação da Natureza e a terem de ser compatíveis com o tal desenvolvimento do Económico e do Social.
- E por último, até poderia constar mas NÃO, NUNCA se FALA ou se aborda as dimensões do Cultural e do Científico-Humanitário.
Mas que insustentável este caminho de uma «sustentabilidade» turisticamente imposta. O TURISMO em sua dita de sustentabilidade entrou numa selvática competição com a Natureza e o Humano… numa desumanização sem precedentes.
E porque estamos em altura de férias e do turisticamente falando. Viaja-se para
terras e terras de países não desejáveis para ficar, só mesmo para passar um tempo, de um «passa tempo», por uma semana talvez, depende do capital que se tenha e aí ficar-se-á num tempo de poupança a experimentar um qualquer luxo arrebatador, a ajudar assim os fabricantes das obras baratas em seus grandiosos complexos, com pena de mais e mais não se ter, a ter pena dos que não têm este tipo de poder... E de malas aviadas, bem aviadas, vai-se e vem-se numa igualdade que mete dó, de nada se aprender, basta só o chegar e dizer que se foi e se repetiu igualmente o que já se repetiu numa qualquer outra viagem de anos anteriores… num dito que todos tão bem sabemos que não irá vencer a tal competitividade, assim neste jeito de consumir uma Terra em terras das raízes que não se regam…
E porque estamos em altura de férias e do turisticamente falando. Viaja-se para
terras e terras de países não desejáveis para ficar, só mesmo para passar um tempo, de um «passa tempo», por uma semana talvez, depende do capital que se tenha e aí ficar-se-á num tempo de poupança a experimentar um qualquer luxo arrebatador, a ajudar assim os fabricantes das obras baratas em seus grandiosos complexos, com pena de mais e mais não se ter, a ter pena dos que não têm este tipo de poder... E de malas aviadas, bem aviadas, vai-se e vem-se numa igualdade que mete dó, de nada se aprender, basta só o chegar e dizer que se foi e se repetiu igualmente o que já se repetiu numa qualquer outra viagem de anos anteriores… num dito que todos tão bem sabemos que não irá vencer a tal competitividade, assim neste jeito de consumir uma Terra em terras das raízes que não se regam…
E já todos tão «mal alimentados» quando se cansarão destes pacotes pré-concebidos de um amontoado de fabricações para um qualquer vazio que não os felicitará ao FUTURO por tão insustentável?... No «planear o território» a se riscarem todas as terras numa feroz «nova era das descobertas» neste global turismo de formatados similares pacotes das sempre e mesmas receitas gastronómicas nas mesmas decorativas ambiências arquitectónicas, construídos assim para mutilar tudo o que é crescer.
«mal alimentados» pressupõe somente o comer, o dormir e a satisfação das necessidades do homem enquanto ser primário: O SOCIAL.
E existem depois os outros «alimentos» tornados igualmente necessários por nos darem a vital e verdadeira elevação ao enriquecimento e engrandecimento do Ser, precisamente por seres que somos dotados de pensamento, sentimento e afectos, «alimentos» esses que estão intrinsecamente associados às variadíssimas manifestações da arte e do artístico em suas manifestas obras e que são: Literatura (poesia, prosa…); Música; Artes Plásticas (Pintura, Fotografia, Desenho, Escultura, Gravura…), Dramaturgia, Cinema; Artes Cénicas (Teatro, Dança, Ópera, Circo); Arquitectura; Artes Visuais (Ilustração, Design, Decoração, Arte Digital…); Banda Desenhada; Artes Performativas; etc…
E «bem alimentados» pressupõe sempre múltiplos e benéficos contributos com a CULTURA e o CIENTÍFICO-HUMANITÁRIO na autenticidade da verdadeira sustentabilidade e preservação tão natural como inerente do SER em sua NATUREZA.
ALICE VALENTE ALVES
nuvem em MOVIMENTO TOTAL de José Gil
(…) Sob o nosso olhar os seus contornos actuais dão lugar a outros sem que nos apercebamos disso, ou sem que possamos seguir o processo de transformação. O mesmo se passa com os movimentos interiores: a nuvem incha, novos volumes nascem no interior dos já visíveis, depois outros surgem ainda no meio dos recém-chegados. A extraordinária potência da nuvem liga-se ao facto de mostrar o movimento das formas sem revelar o seu processo; o facto de apresentar mutações discretas num desenvolvimento contínuo inapreensível. É o que acontece aos gestos do bailarino que recortam segmentos quase-discretos numa sucessão
ininterrupta de movimento subterrâneo.
Como é isto possível? O movimento de transformação das nuvens constitui uma alteração que implica um deslocamento, de tal modo que percebemos as modificações e o deslocamento numa continuidade paradoxal que não deixa ver o seu dinamismo interno. É que a alteração irrompe a partir de um fundo invisível. A alteração é nascimento: cada forma prolonga e substitui a que a precede. Engendra-se um movimento contínuo do qual captamos apenas a sucessão abstracta e a diferença das formas.
O movimento das nuvens altera-as por surgimento e aparição, como se uma figura, um contorno, uma linha, uma crista viessem completar o que resta do desaparecimento dos traços anteriores – como se uma figura invisível virtual se actualizasse no prolongamento das que olhávamos e já lá não estão. Estranho devir das formas cujo movimento se apreende sem se apreender a sua lógica – como se cada forma surgisse do caos e viesse todavia enquadrar-se no nexo próprio da nuvem.
À maneira do movimento cinematográfico a propósito do qual GILLES DELEUZE mostrou como a «imagem-movimento» primava sobre o movimento das imagens individuais (*), a alteração das nuvens na dança, impondo-lhes uma transformação que se dá no mesmo lugar ao mesmo tempo que arrasta o seu deslocamento de sentido, situa o devir no centro do próprio movimento dançado. Porque a nuvem de sentido é o movimento do sentido.
O gesto dançado não constrói nem uma significação nem uma força pura que transmitiria um sentido fora de toda a forma.
Mas a nuvem de sentido, irrompe dos gestos vindos do interior (…)
(…)
Num belo livro consagrado à história da nuvem, HUBERT DAMISCH observa que a nuvem desempenha na pintura funções muitas vezes de acordo com as suas propriedades físicas: entre a terra e o céu, não contradizendo a gravidade, mas gozando de uma espécie de ausência de peso, vocacionada para um movimento de elevação(…)
ininterrupta de movimento subterrâneo.Como é isto possível? O movimento de transformação das nuvens constitui uma alteração que implica um deslocamento, de tal modo que percebemos as modificações e o deslocamento numa continuidade paradoxal que não deixa ver o seu dinamismo interno. É que a alteração irrompe a partir de um fundo invisível. A alteração é nascimento: cada forma prolonga e substitui a que a precede. Engendra-se um movimento contínuo do qual captamos apenas a sucessão abstracta e a diferença das formas.
O movimento das nuvens altera-as por surgimento e aparição, como se uma figura, um contorno, uma linha, uma crista viessem completar o que resta do desaparecimento dos traços anteriores – como se uma figura invisível virtual se actualizasse no prolongamento das que olhávamos e já lá não estão. Estranho devir das formas cujo movimento se apreende sem se apreender a sua lógica – como se cada forma surgisse do caos e viesse todavia enquadrar-se no nexo próprio da nuvem.
À maneira do movimento cinematográfico a propósito do qual GILLES DELEUZE mostrou como a «imagem-movimento» primava sobre o movimento das imagens individuais (*), a alteração das nuvens na dança, impondo-lhes uma transformação que se dá no mesmo lugar ao mesmo tempo que arrasta o seu deslocamento de sentido, situa o devir no centro do próprio movimento dançado. Porque a nuvem de sentido é o movimento do sentido.
(*) Cf. GILLES DELEUZE, L’Image-mouvement, (…) «No entanto, os contemporâneos podiam ser sensíveis a uma evolução que transportava as artes, mudava o estatuto do movimento, até na própria pintura (…)»(…)
O gesto dançado não constrói nem uma significação nem uma força pura que transmitiria um sentido fora de toda a forma.
Mas a nuvem de sentido, irrompe dos gestos vindos do interior (…)
(…)
Num belo livro consagrado à história da nuvem, HUBERT DAMISCH observa que a nuvem desempenha na pintura funções muitas vezes de acordo com as suas propriedades físicas: entre a terra e o céu, não contradizendo a gravidade, mas gozando de uma espécie de ausência de peso, vocacionada para um movimento de elevação(…)
JOSÉ GIL MOVIMENTO TOTAL. O corpo e a dança - Relógio D’Água Editores, 2001
SENTIR a vida
(…)
O poético e o psicanalítico não se confundem. O modo simbólico não é o do trabalho do inconsciente. Interrogar o poético segundo Freud é interrogar a psicanálise de acordo com o simbólico – sempre a análise em retorno, a única que mediante tal reversão, permite escapar à teoria como puro e simples exercício de poder.
A análise do dito espirituoso em Freud pode servir de fio condutor, já que não há em toda a sua obra uma diferença teorizada entre o campo propriamente sintomático e o campo da obra, da «criação artística» (o conceito de «sublimação», como se sabe, implica pouco rigor e um idealismo hereditário). Eis um ponto importante: se o poema não é o lapso nem sequer o dito espirituoso, alguma coisa falta na teoria do inconsciente para justamente tal se explicar.
(…)
No poético (o simbólico), o significante desfaz-se absolutamente – ao passo que no psicanalítico não faz mais do que mexer-se sob o efeito dos processos primários e distorcer-se segundo as pregas dos valores recalcados; mas distorcido, transversal ou acolchoado, permanece uma superfície indexada na realidade encapelada do inconsciente; no poético difracta e irradia no processo anagramático, já não cai sob a acção da lei que o erige, nem sob a acção do recalcado que o liga, já não há mais nada a designar, nem sequer a ambivalência de um significado recalcado. Não é mais que disseminação, absolvição do valor – e tal é vivido sem sombra de angústia, no gozo total. A iluminação da obra, ou do acto simbólico, reside neste ponto de não-recalcado, de não-resíduo, de não-retorno, onde se eliminaram o recalcamento e a repetição incessante do sentido no fantasma ou no feitiço, a repetição incessante do interdito e do valor, onde se processam sem entraves a morte e a dissolução do sentido.
(…)
Mas o poético nada cala, e nada o torna a assediar. Pois o que sempre é recalcado e calado é a morte. Aqui ela é actualizada no sacrifício do sentido. O nada, a morte, a ausência, é abertamente dita e resolvida: finalmente a morte está manifesta, finalmente, está simbolizada, ao passo que é apenas sintomática em todas as outras formações de discurso. Indica isto, decerto, o fiasco de toda a linguística, que vive da barreira de equivalência entre o que é dito e o que isto quer dizer, mas também o fim da psicanálise, que vive da barreira do recalcamento entre o que é dito e o que é calado, recalcado, negado, fantasmado, indefinidamente repetido no modo da denegação: a morte. Quando, numa formação social ou numa formação de linguagem, a morte fala, se fala e se troca num dispositivo simbólico, então a psicanálise já nada mais tem a dizer.
(…)
Valor mercantil, valor significado, valor recalcado/inconsciente – tudo isto é feito do que resta, do precipitado residual da operação simbólica; é este resto que por toda a parte se acumula e alimenta as diversas economias que regem a nossa vida. Ir além da economia – e se mudar a vida tem um sentido que só pode ser este: exterminar este resto em todos os domínios cujo modelo por excelência é o poético, graças à sua operação sem equivalência, sem acumulação, sem resíduo.
(…)
Tratar as palavras «como coisas»… para exprimir A coisa: o Inconsciente, para materializar uma energia latente. Trata-se sempre da armadilha da expressão, só que aqui o que é positivizado, como referencial é talvez o recalcado, o não-dito, o indizível – mas que algures retoma força de instância, se é que não de substância.
O pensamento ocidental não suporta, nunca suportou, no fundo, o vazio da significação, o não-lugar e o não-valor. Faz-lhe falta uma tópica e uma económica. É necessário que a reabsorção radical do signo inaugurado no poético (e, sem dúvida, também no Witz) se torne de novo o signo decifrável de um não-dito, de uma coisa que jamais nos confiará a sua cifra, mas que assim só mais valor adquire.
(…)
A «Coisa» esconde-se, e esconde outra coisa. Procure-se a força, procure-se o significante.
(…)
Na operação simbólica, não há referencial materialista, embora «inconsciente», mas sim, uma operação «anti-matéria».
(…)
ALÉM DO INCONSCIENTE
A questão é esta: o inconsciente, a energia, o potencial de afecto que, no seu recalcamento e pelo seu trabalho, está na base do desregramento, da dissolução, do deslocamento «expressivo» da ordem do discurso e opõe o seu processo primário aos processos secundários – terá cabimento fazer dele uma hipótese no processo do poético? E tudo se mantém, evidentemente: se o inconsciente é esta instância irreversível, então a dualidade processo primário/processo secundário é igualmente irredutível e o trabalho do sentido só pode consistir no ressurgimento do recalcado, na sua «transpiração» na instância recalcante do discurso. Sob este aspecto, não há diferença entre o poético e o neurótico, entre o poema e o lapso.
(…)
… importa – interditar à psicanálise a intromissão onde nada tem a dizer: no poético (obra de arte), no simbólico, na antropologia (primitiva).
O poético e o psicanalítico não se confundem. O modo simbólico não é o do trabalho do inconsciente. Interrogar o poético segundo Freud é interrogar a psicanálise de acordo com o simbólico – sempre a análise em retorno, a única que mediante tal reversão, permite escapar à teoria como puro e simples exercício de poder.
A análise do dito espirituoso em Freud pode servir de fio condutor, já que não há em toda a sua obra uma diferença teorizada entre o campo propriamente sintomático e o campo da obra, da «criação artística» (o conceito de «sublimação», como se sabe, implica pouco rigor e um idealismo hereditário). Eis um ponto importante: se o poema não é o lapso nem sequer o dito espirituoso, alguma coisa falta na teoria do inconsciente para justamente tal se explicar.
(…)
No poético (o simbólico), o significante desfaz-se absolutamente – ao passo que no psicanalítico não faz mais do que mexer-se sob o efeito dos processos primários e distorcer-se segundo as pregas dos valores recalcados; mas distorcido, transversal ou acolchoado, permanece uma superfície indexada na realidade encapelada do inconsciente; no poético difracta e irradia no processo anagramático, já não cai sob a acção da lei que o erige, nem sob a acção do recalcado que o liga, já não há mais nada a designar, nem sequer a ambivalência de um significado recalcado. Não é mais que disseminação, absolvição do valor – e tal é vivido sem sombra de angústia, no gozo total. A iluminação da obra, ou do acto simbólico, reside neste ponto de não-recalcado, de não-resíduo, de não-retorno, onde se eliminaram o recalcamento e a repetição incessante do sentido no fantasma ou no feitiço, a repetição incessante do interdito e do valor, onde se processam sem entraves a morte e a dissolução do sentido.
(…)
Mas o poético nada cala, e nada o torna a assediar. Pois o que sempre é recalcado e calado é a morte. Aqui ela é actualizada no sacrifício do sentido. O nada, a morte, a ausência, é abertamente dita e resolvida: finalmente a morte está manifesta, finalmente, está simbolizada, ao passo que é apenas sintomática em todas as outras formações de discurso. Indica isto, decerto, o fiasco de toda a linguística, que vive da barreira de equivalência entre o que é dito e o que isto quer dizer, mas também o fim da psicanálise, que vive da barreira do recalcamento entre o que é dito e o que é calado, recalcado, negado, fantasmado, indefinidamente repetido no modo da denegação: a morte. Quando, numa formação social ou numa formação de linguagem, a morte fala, se fala e se troca num dispositivo simbólico, então a psicanálise já nada mais tem a dizer.
(…)
Valor mercantil, valor significado, valor recalcado/inconsciente – tudo isto é feito do que resta, do precipitado residual da operação simbólica; é este resto que por toda a parte se acumula e alimenta as diversas economias que regem a nossa vida. Ir além da economia – e se mudar a vida tem um sentido que só pode ser este: exterminar este resto em todos os domínios cujo modelo por excelência é o poético, graças à sua operação sem equivalência, sem acumulação, sem resíduo.
(…)
Tratar as palavras «como coisas»… para exprimir A coisa: o Inconsciente, para materializar uma energia latente. Trata-se sempre da armadilha da expressão, só que aqui o que é positivizado, como referencial é talvez o recalcado, o não-dito, o indizível – mas que algures retoma força de instância, se é que não de substância.
O pensamento ocidental não suporta, nunca suportou, no fundo, o vazio da significação, o não-lugar e o não-valor. Faz-lhe falta uma tópica e uma económica. É necessário que a reabsorção radical do signo inaugurado no poético (e, sem dúvida, também no Witz) se torne de novo o signo decifrável de um não-dito, de uma coisa que jamais nos confiará a sua cifra, mas que assim só mais valor adquire.
(…)
A «Coisa» esconde-se, e esconde outra coisa. Procure-se a força, procure-se o significante.
(…)
Na operação simbólica, não há referencial materialista, embora «inconsciente», mas sim, uma operação «anti-matéria».
(…)
ALÉM DO INCONSCIENTE
A questão é esta: o inconsciente, a energia, o potencial de afecto que, no seu recalcamento e pelo seu trabalho, está na base do desregramento, da dissolução, do deslocamento «expressivo» da ordem do discurso e opõe o seu processo primário aos processos secundários – terá cabimento fazer dele uma hipótese no processo do poético? E tudo se mantém, evidentemente: se o inconsciente é esta instância irreversível, então a dualidade processo primário/processo secundário é igualmente irredutível e o trabalho do sentido só pode consistir no ressurgimento do recalcado, na sua «transpiração» na instância recalcante do discurso. Sob este aspecto, não há diferença entre o poético e o neurótico, entre o poema e o lapso.
(…)
… importa – interditar à psicanálise a intromissão onde nada tem a dizer: no poético (obra de arte), no simbólico, na antropologia (primitiva).
Excertos do Capítulo : O WITZ, OU O FANTASMA DO ECONÓMICO DO FREUD
Do livro : A TROCA SIMBÓLICA E A MORTE II de Jean Baudrillard
Edições 70 – Arte e Comunicação
Do livro : A TROCA SIMBÓLICA E A MORTE II de Jean Baudrillard
Edições 70 – Arte e Comunicação
FAÇA-SE LIXO: empréstimo imprestável
E em mais um ano que passou, é naquela mesma casa que nada vivo restou de antigamente, que brinca mais uma criança nascida de agora. Criança substituindo ou substituída!?
E alegremente cresce para a fúria que satisfaz as vontades de pais. Pais de agora que não se pensam em futuramente. Pais acoitados feitos de um medo cúmplice que ainda assim os irá protegendo. Simples e comodamente vibram com tal satisfação pródiga de se saberem seguros, vivendo de um mesmo tecto, em regras aprendidas para a qual felicidade que os faz estar bem forçosamente. Sim estão bem aparente e convenientemente: têm carros, casas, vários empregos, férias grandes e outras tantas férias de fins-de-semana que se prolongam em descanso devido para toda a vida.
E por sinal também têm uma empregada que trabalha, que trabalha todos os dias úteis, e que limpa, e que cozinha, e que arruma toda a casa, e que sacode tapetes, e que muda as roupas da cama, e que lava, pendura e engoma toda a roupa que sujam e que ainda, trata e cuida da criança com todo a afeição e até levando-a a passear todos os dias.
E a vontade de um estar social deste tipo de acasalados tão bem formatado é na amostragem de saberem-se elogiados por celebridades. E assim rastejam à procura de mais alguém afamado que os vanglorie em suas proezas de se agastarem a sacudir capotes de tanto pó.
Que família é esta? Mais uma que gasta, que consome em excesso, e porque quer e pode, e porque com direitos salvaguardados, desliga-se com toda a cordial brutalidade do mundo da escassez dos afligidos da má sorte, desses que como se diz, não lhes reza a história.
E continuam por aí estes emparelhados em sua esganada forma de perfilar a perdurarem em empréstimos feitos de quantos bens em casas e carros bem estacionados, ora dentro ora fora de garagens trancadas em casas fechadas e sempre cheias de coisas e mais coisas, muradas de batalhas sempre ganhas. E em suas profissões de negócios profissionalizáveis, arrecadam bem tudo o que lhes vem à mão de proveito, mas só de muito proveito, não se deixando excluir de forma nenhuma, a ultrajarem a crescente demasia desfavorecida que tão bem os favoreceu e a não prestarem um único olhar aos que lhes prestaram ou ainda lhes prestam grandes préstimos.
E de tão empanturrados, ecoam-se por aí numa solene satisfação vitoriosa por bem vivos a poderem olhar para o outro mundo, o mundo frágil, aquele tal mundo sempre em tão crescente e subtil empobrecimento, e porque bem forçado a assim ser, e que tão bem aprenderam a ignorar, e que irão continuar a ensinar por aí fora, aos que quiserem aprender até quando, de como é temível esse tão conhecido território dos infortunados.
E porque vividos em que excelência, tudo o que têm, tentam continuar a sustentar numa utilidade transformada inevitavelmente em lixo por tão imprestável.
E de tão empanturrados, ecoam-se por aí numa solene satisfação vitoriosa por bem vivos a poderem olhar para o outro mundo, o mundo frágil, aquele tal mundo sempre em tão crescente e subtil empobrecimento, e porque bem forçado a assim ser, e que tão bem aprenderam a ignorar, e que irão continuar a ensinar por aí fora, aos que quiserem aprender até quando, de como é temível esse tão conhecido território dos infortunados.
E porque vividos em que excelência, tudo o que têm, tentam continuar a sustentar numa utilidade transformada inevitavelmente em lixo por tão imprestável.
ALICE VALENTE
COMIDA
Quiseste ter na tua mão semeada
As sementes
As muitas sementes
Que não largaste na terra comida
E agora
Já num tempo passado
Nada crescerá a seu tempo
Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE
WORK IN...
(...) O projecto ( work in progress ) de Alice Valente Alves parte ele também da vivência da cor, mas dum modo não limitado a uma experiência social e humana no tempo. Não me parece sequer que haja uma técnica que se estende a todas as cores escolhidas e representadas; julgo que se pode dizer que cada uma delas resulta (resultou) de sensações e sentimentos que conduzem à cor, e esta à forma e à textura. Comum a todas elas é talvez o predomínio do orgânico, não exactamente como forma de um conteúdo (pois os conteúdos formalizados nunca serviram outra coisa senão as diversas técnicas), mas como padrão. E porque neste projecto a própria escolha das cores (vermelho, castanho-terra, cor de pele, agridoce do laranja-lima) assim está orientada. (…)
CORPOtraçoCORPO, apesar desta aparente simplicidade (que se calhar é só minha), tem múltiplos sentidos. É Cor,Corpo, Texto/Textura, e outras relações combinatórias e derivadas, que cada um é livre de realizar. Nas realizações que assim forem feitas encontrará o embate luz-sombra que, segundo Goethe, é a origem de todas as cores ("Os olhos não vêem formas, mas luz transporta em cor").
São nove as fases deste projecto, onde "nove", tal como na Vita Nuova de Dante, se associa ao "novo", por paronomásia. Ao fim de dois terços do projecto, creio que já estamos em condições de considerar que ele é uma forma magnífica de responder ao desiderato de Raoul Dufy: "Precisamos na pintura de algo mais do que apenas a satisfação de ver.
ALBERTO PIMENTA (Poeta, Ensaísta e Professor)
Na fotografia:
Obra nº 1 do projecto «CORPOtraçoCORPO - a poesia e a pintura» de ALICE VALENTE ALVES
título: «no tempo» - ano: 2003 - Díptico - 130x81 cm
Obra nº 1 do projecto «CORPOtraçoCORPO - a poesia e a pintura» de ALICE VALENTE ALVES
título: «no tempo» - ano: 2003 - Díptico - 130x81 cm
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...Quando fui pela primeira vez a Esposende, achei que sucedia alguma coisa de solene; como um rito. Era em Julho... (…)
O Verão é de todos. É uma festa fácil... Mas o Inverno desta vila – diga-se com digna beatitude – é um tempo de mais apego à natureza...... Um entendimento entre o Mar e a gente, entre o silêncio e a gente...
A vida é feita num qualquer lugar, porque na realidade,
o lugar da vida, é a vida enquanto arte, transportada num olhar das imagens do lugar, para o eterno e imaginário real.
QUE AMOR - QUE ÓDIO

QUE AMOR
Revolta contra o Amor
Que é terno, que é frágil, que é belo
Ou revolta contra o ódio que não ama
Que apaga, que destrói, que é feio.
E após a destruição
Ainda se espera por um pouco
Só por um pouco do que ainda resta
Da sensível beleza fragilizada
Ainda e sempre com o mesmo nome
Amor
Esperado do nada
Transformado
Em esperança do resto do nada
Esperado
Ainda assim...
Onde estão as luzes apagadas
Que brilhavam
Amor
Esperado do nada
Transformado
Em esperança do resto do nada
Esperado
Ainda assim...
Onde estão as luzes apagadas
Que brilhavam
Iluminando todo o teu espaço
Insurreições de uma volta cíclica
E de quando em quando
Senta-se à mesma mesa do consumado amor
O resto do início esperado
Confunde todos os prenunciadores
De agora e de outrora
Instalado em suas regaladas instâncias
Coopera
E atreve-se a antever o dia seguinte
Ódio cúmplice de que amor libertado
Amor fechado em portas das sete chaves
Reis e rainhas alegraram-se em tantos ganhos capitais
E agora igualmente se traduzem em verbais
Conceitos da maior das leis consumíveis
Ódio do Amor ou amor por ódio
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