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a árvore ao jardim

ANTI-ÉDIPO ... [02] - o desejo e a vontade

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Este post é em resposta aos pertinentes e valiosíssimos comentários que tiveram a amabilidade de deixar em >>> ANTI-ÉDIPO... [01].
Bem gostaria eu, de ter uma outra palavra, que pudesse ter a definição do que é DESEJO.
E porque não o faço em vão, continuarei a afirmar o que escrevi no comentário em ANTI-ÉDIPO... [01] sobre o que é para mim o DESEJO, da forma o mais simples possível. Exactamente para que haja um entendimento dessa mesma comunicação escrita nos vários tipos de vocabulário das diversas formações académicas, profissionais e sociais e, que nos assistem beneficamente nestas novas formas de procurarmos uma qualquer VERDADE única. E porque dela necessitamos para melhor vivermos uns com os outros, a igualmente tendermos para ela através do natural processo da evolução e até porque é da VERDADE que provimos (em devir). Embora a maior parte das vezes, nem sequer nos apercebermos dessa tal ordem-natural e até a negligenciamos conscientemente. E é neste estatuto de tantos pronunciados que o Desejo é constantemente acometido e sempre num qualquer outro uso de significados que não o seu. E como é esta a única palavra que temos, dentro dessas designações do que é o seu significado, irei assim com todo o cuidado dar-lhe o seu devido valor naquela que é para mim a crucial imagem do Desejo no lugar adentro desse mesmo sentido.


É habitual dizer-se: - Tens de ter força de vontade! E desde muito criança que eu perguntava a mim mesma, mas como é que se tem força de vontade, se há pessoas que não gostam do que estão a fazer em suas vivências? E observava as pessoas que não conseguiam ter essa tal de dita força de vontade e, não a tinham, precisamente porque não conseguiam ser elas mesmas, por tão hostilizadas ou porque com personalidades não combativas ou não agressivas e por sensíveis, a serem tidas de fracas, tinham sempre de se artificializar a serem obrigadas a imitar um qualquer modelo já existente e até a seguirem rumos de vida de contra-natura em suas formas de ser e estar.
E todas estas dúvidas resultaram no seguinte, sim até poderemos ter essa tal, de dita força de vontade, mas a valorizar para primeiro plano, o DESEJO e o DESEJAR . E o DESEJO o que é? Muito cedo comecei por entender que o Desejo era o Melhor ou a excelência do nosso interior (Pensar) e só conseguiríamos ter força de vontade se estivéssemos bem com essa tal interioridade ou esse TODO interior presente no DESEJO. Ao passo que tudo aquilo que nos era imposto pelos outros como obrigatório, a todos a níveis, para se viver em subsistência, social ou hierarquicamente, seria a tal de dita VONTADE. E essa Vontade, que os outros nos impunham poderia ser terrífica e poderia ser prejudicialmente perigosa, em que as pessoas tornavam-se tendencialmente más dependendo dos interesses e proveitos e muito raramente se tornariam boas, somente se houvesse uma contradição dessa Vontade a enaltecer o Desejo como prioridade. Os desejos ou o DESEJO são pois, tudo aquilo que de melhor existe dentro de nós ou seja, tudo aquilo de que somos feitos em VERDADE e se bem “alimentados” será então possível existir essa tal de dita Força de Vontade. E quando eu digo bem alimentados refiro-me ao ter-se a possibilidade de imaginar (sonhar), criar e cuidar, só presente no que é artístico e que por sua vez, se manifesta quer pela contemplação, concepção ou realização artísticas.

E a generalidade das pessoas (o povo) sempre utilizaram formas de compensar esta austeridade da Vontade que lhe era imposta pela sociedade, pelos outros em qualquer tipo de poder. Há poucas décadas atrás, os tempos livres eram ocupados com trabalhos manuais, com o tricot, com o crochet, bordavam, costuravam, cantavam e eles até faziam arranjos na casa e bricolage. Com a divisão ou não de tarefas em comunidade ou em família, sempre houve uma forma de compensação da hostilidade laboral presente na Vontade, através de trabalhos caseiros e (ou) artesanais, com alguma criatividade. Cuidava-se assim de quase tudo o que nos rodeava e das crianças principalmente, ensinando-lhes esta evolutiva e saudável forma de estar. Os tempos actuais levam-nos para o tempo perdido de nada se fazer e de nada se transmitir, o tempo da distracção e do passatempo, o tempo do lazer pelo gozo, o tempo de viajar e de tudo conhecer similar e rapidamente da forma mais homogénea possível a nada se aprender de novo. Mas e a mente? A mente tem de se ocupar criando, fazendo e aperfeiçoando. E o que se está a passar com a mente neste momento? Tudo está e é feito maquinalmente e têm de existir muitos, muitos produtos em muitos consumidores. E até surgiu a Psicanálise que ajudou ainda mais à afirmação desta consumação, somos assim, as tais máquinas desejantes que se refere Deleuze em ANTI-ÉDIPO. Em que o desejo em criatividade alterou-se com a ajuda da psicanálise para ser de tido numa maquinização do desejo por gozo em Poder da Vontade.
E o desejo relativamente à sexualidade e não só, para quem pensa a vida psicanaliticamente poderá estar a cometer um gravíssimo erro quando se declara que «o desejo é falta».
E nestes dois excertos do ANTI-ÉDIPO que se seguem (respectivamente da pg. 33 e da pag. 375) dá para exemplificar em como a psicanálise recorre ao Desejo tentando confundi-lo, a torná-lo exteriorizante e até a promiscuí-lo. É que o DESEJO (no singular) nunca é desejo de algo que falta, somente se lhe alterarmos o significado e o associarmos à Vontade (no colectivo) exteriorizante e objectiva, por poder em obstinada posse de objectos e coisas, tão usado no consumismo esquizofrénico e deprimente das actuais sociedades:

(…) Nunca Reich mostrou ser um tão grande pensador como quando se recusa a invocar o desconhecimento ou a ilusão das massas ao explicar o fascismo, e exige uma explicação pelo desejo, em termos de desejo: não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias, e isto é necessário explicar, essa perversão do desejo gregário (26)Todavia, Reich não chega a dar uma resposta capaz, porque restaura o que pretendia demolir, ao distinguir a racionalidade tal como existe, ou deveria existir no processo da produção social, do irracional do desejo, sendo apenas este que está sujeito à psicanálise.
(26) Reich, Psicologia de Massas do Fascismo
(…) A psicanálise tornou-se uma droga embrutecedora, em que a mais estranha dependência pessoal faz que os clientes esqueçam, durante o tempo das sessões no divã, as dependências económicas que os levaram lá (um pouco como a descodificação dos fluxos, que tem por consequência um reforço da servidão). Saberão eles o que fazem, esses psicanalistas que edipianizam mulheres, crianças, negros, animais? (…)
Em ANTI-ÉDIPO o que DELEUZE E GUATTARI nos propõem é pensar-se uma ontologia para além da Psicanálise e para além das categorias do sujeito e objecto. E porque o Desejo não é o que resulta de nossa interioridade reprimida pela sociedade.
Concordo assim com DELEUZE quando diz que o desejo pode sim ser fuga e não falta e, que é possível pensar um Desejo, não carecendo de nada.
E exactamente porque o DESEJO nem sempre necessita da Vontade, mas a Vontade essa sim, é que necessita de Desejo, para que exista a Vontade (em Boa-Vontade) para um Bem-Comum a todos.
A Escola, o Ensino e a Educação terão de se reger de outros moldes e é por isso que eu sou uma grande crítica da Psicologia e da forma como ela segue o seu caminho, e sobretudo critico a psicanálise, apoiando-me assim naqueles que a reprovam e que têm obra nesse sentido. Porque quando leio Melanie Klein, Lacan ou Freud são leituras pouco edificantes do ser. É como que tenhamos de ser obrigados a ter de nos sentirmos a mais à face da Terra. E se eu não penso o Desejo maquinal pelo papá-mamã dessa forma tão escabrosamente esquizofrénica de todos nos estarmos para aí sempre a olharmo-nos uns aos outros como deficientes e a ver onde estão os tais defeitozinhos a nos superiorizarmos uns aos outros pela falta, ou as insuficiências e carências lamechas, para ora virem dar pancadinhas nas costas ora virarem costas e entrar-se numa outra retórica, então quererá dizer que nada tenho a ver com as teorias de Freud e sinto-as absurdas e perigosas por tão indesejáveis. O que a Psicanálise faz é a desqualificação das potenciais capacidades de se pensar livremente. É uma dependência ou submissão a ideias ou conceitos opressivos de se SER.


E ainda sobre o DESEJO deixo-vos com a Proposição LX, de
BENTO ESPINOSA do seu Livro ÉTICA :
O DESEJO que nasce da alegria ou da tristeza que se refere a uma só ou algumas partes do Corpo e não a todas, não tem em conta a utilidade do Homem Todo.
E relativamente ao ANTI-ÉDIPO de GILLES DELEUZE e FÉLIX GUATTARI, refiro tal como fez Michel Foucalt, considerando-o como um Livro de ÉTICA.

Muito há para fazer nestas áreas das Humanidades e que considero essenciais para que não acertem passo com o que com elas próprias já não se acertam e com o que até sabem que está comprovadamente errado!
É uma questão de tempo! E aqui estamos todos nós para que essa comunicação exista, e quem sabe, até possa surgir uma outra palavra em antónimo à psicanálise e que possa dignificar o Ser, sem as tão habituais e assomadas fabricações de se pensar a não-Ser.



ANTI-ÉDIPO ... [01] - o desejo doente

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(…)
Freud fez a descoberta mais profunda: a da essência subjectiva do desejo, a Líbido. (…) – só podia pensar que a essência da vida era uma forma voltada contra si própria, que a essência da vida tinha a forma da própria morte. (…) É o Édipo, terra pantanosa que exala um profundo cheiro a podridão e morte, e é a castração a piedosa ferida ascética, o significante, que faz desta morte um conservatório da vida edipiana. O desejo em si mesmo é, não desejo de amar, mas força de amar, virtude que dá e que produz, que maquina (como é que aquele que vive podia ainda desejar a vida? como é que se pode chamar DESEJO a isso?). (…) A espera de melhores dias? É preciso – mas quem é que fala assim? que abjecção? – que se torne desejo de ser amado e, pior ainda, desejo choramingas de ser amado, desejo que renasce da sua própria frustração: não, o papá-mamã não me amou que chegasse… O desejo doente deita-se em cima do divã, pântano artificial, terrazinha, mãezinha.
«Repare: você não pode andar, vacila, já não se sabe servir das pernas… e a única causa disso é o desejo de ser amado, um desejo sentimental e choramingas que tira toda a firmeza aos seus joelhos»(48). (…)
«Estenda-se no divã, em cima do confortável sofá que o analista lhe oferece, e tente mas é pensar noutra coisa… Se perceber que o analista é um ser humano como você, com as mesmas chatices, os mesmos defeitos, as mesmas ambições, os mesmos fracos e tudo, que não é depositário de uma sabedoria universal (=código) mas um vagabundo como você (desterritorializado), talvez deixe de vomitar essa água de esgoto, por muito bem que lhe soe aos ouvidos: talvez então você se consiga endireitar nas duas patas e se ponha a cantar com a voz de Deus (numen) lhe deu. Sai-lhe sempre caro confessar-se, esconder-se, lamuriar-se, lamentar-se. Cantar é grátis. E não apenas grátis – enriquecem-se os outros (em vez de os infectar). O mundo dos fantasmas é aquele que nunca acabamos de conquistar. É um mundo do passado, não do futuro. Caminhar agarrado ao passado é arrastar as grilhetas de forçado… Não há ninguém entre nós que não seja culpado pelo menos de um crime: o crime enorme de não viver plenamente a vida»
(49).
Você não nasceu Édipo, fez mas foi crescer o Édipo em si; e pensa que se há-de livrar dele com o fantasma, com a castração, que também são coisas que você fez crescer no Édipo, ou seja em si – horrível círculo. Merda para todo esse teatro mortífero, no imaginário ou simbólico. (…) E exigimos o direito de uma ligeireza e de uma incompetência radicais, o direito de entrar no consultório do analista e dizer que lá cheira mal. Cheira a morte e a euzinho.
(…)

(48) D.H.Lawrence, La Verge D’Aaron, p.99
(49) Henry Miller, Sexus (o que está entre parêntesis é dos autores). Remetemos para os exercícios de psicanálise cómica no Sexus

GILLES DELEUZE e FÉLIX GUATTARI
ANTI-ÉDIPO – CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA
Assírio & Alvim, 2004
pgs. 348, 349 e 350

solar tower 1000

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QUE HÁ

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Nada de novo!
Procura-se, clica-se e nada de novo por aí! Tudo é gasto, consumido ou consumível!
Mas mesmo assim procura-se! Procura-se o «outro», os «outros», as «coisas» e o «novo» numa qualquer procura favorável da novidade feita do produto de um culminar cúmplice em bisbilhotices.
Mas para que é que procuramos, se sabemos que já nada nos é permitido fazer pelo outro, pelos outros, para além do que já está feito, que é o de vê-los numa graça de desgraças!
Pois, procura-se! Procura-se chamar a atenção, procura-se algo, sempre algo de novo, procura-se coisas, objectos e até no manipulável daquele que nada disse, diz ou tem a dizer, isto é, procura-se tudo aquilo que dá gozo e essencialmente procura-se o ser-objecto do gozo!
E se os que procuram ter muito pouco para além do que é o muito para todos os que nada têm, procura-se ainda consumir o «novo» de uma moda psicologicamente doentia de nada se ter, a ter ainda de tirar daqueles outros todos, mas também e até o pouco daqueles muitos outros que nada têm, a quedarem-se posterior e rapidamente no inevitavel vazio em «tudo ter» do «nada se TER».
E a viagem prossegue freneticamente, continuando-se a procurar e a clicar por aí, a pensar e a engendrar, respectivamente no pensar-pensar e (ou) no não-se-pensar!
Em suma, procura-se mostrar que se é, para lucrar e ganhar um pouco mais, mais e mais e, a ficar-se no exteriorizante e falsificado aspecto do que é a originalidade.
O Ser Humano, sem mais falsas aparências e que por não visto no inconscientemente escondido, afinal o que de melhor poderá existir para ser dado como exemplo na OBRA e em sua obreira continuidade é o NOVO, o que fica é sempre o NOVO, novo que será o resultado de uma dolorosa e sofrida consciência, porque nos faz FAZER em AFECTO pelo Pensar e Sentir e que é, por sua vez, a RAZÃO ou a potência que impulsiona essa mesma inconsciência de se SER.
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expõe-se

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Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE
Estou com alento ][ E todos se habituaram ][ Estou sem forças ][ E todos se adversam ][ Estou com fome ][ E todos hostilizam ][
Vou morrer ][ E o silêncio expõe-se...
Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE

Crenças e poder - do dever em não devir

RESUMO:
A vontade humana rege-se pelo dever obrigado a ser cumprido através do poder ajuizado em crenças racionais e sociais normativas, instituídas pelos construtores dos autoritários e utilitaristas poderes, numa forma tão coerciva quanto adversa à natural existência de se ser. Dever que é feito de um território que não pára de falhar consigo mesmo, alimentando-se assim de um insuportável, maldito e indesejável ser. Ser esse, que ao continuar a existir com medo de ser condenado e na fé expectante de ser recompensado, prosseguirá social e ordeiramente num desígnio de não-ser.
E é sempre no devir do desejo e não no dever da vontade que nos situamos enquanto seres com pensar e afectos. Sempre esquecido, é ainda no devir, único trajecto não omisso, por assumir uma inegável conduta e acção não institucional e a não carecer de códigos, leis ou regras impostas, para que os homens em sua Natureza e interioridade, consigam continuar a Criar e a antecipar em toda a sua extensão o que na margem ou na excepção se lhes tem afirmado antagónico.

Palavras-chave: Arte; Filosofia; Valores.
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logo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTOAnfiteatro Nobre
22 Março 2007 – quinta-feira – 9h00 às 20h30
23 Março 2007 – sexta-feira – 9h00 às 20h00
capa do livro da 11ª MESA-REDONDA Fotografia de Joaquim Hierro (Grand Place, Bruxelas,2004)

CRENÇAS E PODER - DO DEVER EM NÃO DEVIR (doc_pdf_comunicação)

Jean Baudrillard

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JEAN BAUDRILLARD (1929 —2007) faleceu no passado dia 6, com 77 anos de idade.
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De seguida, deixo-vos com alguns excertos de um outro livro seu, «AS ESTRATÉGIAS FATAIS»:
(…) A sedução é completamente diferente dessa mãe devoradora de que Freud tinha razão em ter medo. Se a Psicanálise (a Lei, o Pai, etc.) é aquilo que nos arranca ao desejo fusional da Mãe para nos devolver à soberania do nosso próprio desejo, a sedução é aquilo que nos arranca ao nosso próprio desejo, para nos devolver ao poder da soberania do mundo. É ela que arranca os seres à esfera psicológica do fantasma, do recalcamento, da outra cena, para os devolver ao jogo vertiginoso e superficial das aparências. É ela que arranca os seres ao reino da metáfora para os devolver aos das metamorfoses.
(…) Os sonhos foram, apesar de tudo, mais do que um “material”. Tiveram encanto e um encanto profético, antes de desaparecerem na interpretação, onde, é certo, ganharam o sentido que faltava: deixaram de ser sedutores (ou fatais, tornaram-se significativos. Os sonhos tinham um segredo) e Freud deu-lhes um sentido. Os sonhos estavam mais próximos do destino, com Freud aproximaram-se do desejo.
(…) Penso que há uma forma da aparência, uma figura ideal da aparência cujo poder de ilusão nos foi tirado pela psicanálise.
A Psicanálise é a consciência infeliz do signo, ela transforma todo o sinal em sintoma, todo o acto em lapso, todo o discurso em significação escondida, toda a representação em alucinação do desejo. Inacreditável estrabismo…

(…) Deus, o nosso Deus racional e racionalista, é, evidentemente, impotente para regularizar o curso das coisas. Sendo a sua razão de ser, caucionar e abençoar alguns encadeamentos causais que lhe permitirão formular sobre o mundo um juízo final, dissipar em alguns pontos o nevoeiro que impede a sua percepção luminosa do caos, para que possa surgir uma distinção mínima entre o Bem e o Mal – vindo do Diabo, a todo o momento perturbar estas combinações laboriosas, e vindo a sedução perturbar continuamente esta distinção do Bem e do Mal – não é de espantar que esse Deus esteja morto, deixando atrás de si um mundo perfeitamente livre e aleatório e a uma divindade cega, chamado Acaso, o cuidado de regular as coisas.

(…) À utopia do Juízo Final, complementar da do baptismo original, opõe-se a vertigem da simulação, a exaltação luciferina da excentricidade da origem e do fim.
É por isso que os deuses só podem viver e esconder-se no inumano, nos objectos e nos animais, na esfera do silêncio e do embrutecimento objectivo, e não na esfera do homem, que é a da linguagem e do embrutecimento subjectivo. O Deus-Homem é um absurdo. Um Deus que rejeita a máscara irónica do inumano, que deixa a metáfora animal, a metamorfose objectiva onde encarnava, em silêncio, o princípio do Mal, para oferecer a si mesmo uma alma e um rosto, reveste-se ao mesmo tempo, da psicologia hipócrita do inumano.
É preciso ser respeitoso para com o inumano. Assim fazem certas culturas, a que se chamou fatalistas, para as condenar, sem outras formalidades: porque elas encontraram os seus guias do lado do inumano, do lado do astro ou do deus animal, das constelações ou da divindade sem imagem. Partido grandioso este, o da divindade sem imagem. Nada de mais grandioso oposto à nossa iconolatria moderna e técnica.

(…) Quando falo do objecto e das suas estratégias fatais, falo dos homens e das suas estratégias inumanas. O ser humano pode, por exemplo, buscar nas férias um aborrecimento mais profundo do que o de todos os dias – um aborrecimento redobrado, porque feito de todos os elementos da felicidade e da distracção. O ponto importante é o da predestinação das férias para o aborrecimento, o pressentimento amargo e triunfal de não lhe podermos escapar. Como poderemos pensar que as pessoas vão renegar a sua vida quotidiana, procurando-lhe uma alternativa? Vão, pelo contrário, fazer dela um destino: redobrá-la nas aparências do contrário, fechar-se nela até ao êxtase, confirmar-lhe a monotonia com uma monotonia maior. A sobrebanalidade é o equivalente da fatalidade.
Se não compreendemos isto, não compreendemos nada do embrutecimento colectivo, uma vez que ele é um acto grandioso de ultrapassagem. Não estou a brincar: as pessoas não procuram divertir-se: procuram uma distracção fatal.

(…) Se a moralidade das coisas está no sacrossanto valor de uso, então viva a imoralidade do átomo e das armas que faz com que, mesmo sem eles, sejam submetidos ao prazo último e cínico do espectáculo! Viva a secreta regra do jogo que faz com que todas as coisas obedeçam à sua lei simbólica! O que nos há-de salvar, não é nem o princípio imoral do espectáculo, mas o princípio irónico do Mal.

(…) Nada nos pode assegurar uma fatalidade, e ainda menos uma estratégia. Aliás, a conjunção dos dois termos é paradoxal: como poderia haver fatalidade, se há estratégia? Mas justamente: o enigma é aquilo que há de fatalidade no âmago de toda a estratégia, é aquilo que transparece de estratégia fatal no âmago das estratégias mais banais, é o objecto cuja fatalidade seria a estratégia – alguma coisa como a regra de um outro jogo. No fundo o objecto ri-se das leis com as quais os mascaramos; ele quer figurar nos cálculos como variável sarcástica e deixar que as equações se verifiquem, mas a regra do jogo, as condições com as quais ele aceita jogar, ninguém as conhece, e elas podem mudar de uma só vez.
Ninguém sabe o que é uma estratégia. Não há suficientes meios no mundo para podermos dispor dos fins. E, portanto, ninguém é capaz de articular um processo final. O próprio Deus é obrigado a falsificar. O que é interessante, é que aquilo que transparece de um processo lógico inexorável através do qual o objecto se prende ao próprio jogo que queremos que ele jogue, e dobra, de alguma forma, a parada, vai mais longe do que os constrangimentos estratégicos que lhe impomos, instaurando assim uma estratégia que não tem finalidades próprias – uma estratégia “brincalhona” que faz fracassar a do sujeito, uma estratégia fatal no sentido de que o sujeito sucumbe aí à ultrapassagem dos seus próprios objectivos.
Somos cúmplices deste excesso de finalidade que há no objecto.
(…)

APREÇAR a vida

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PREÇO do DINHEIRO: ______________________ARTE não tem PREÇO:

Competir ____________________________ Humanizar
Concorrência ________________________ Valorização
Lixo ou luxo ________________________
Preservar
Abandonar ___________________________
Cuidar
Amor ou ódio ________________________ Felicidade
Indiferença _________________________ Sensibilidade
Guerra ou paz _______________________ Harmonia
Destruir ____________________________ Criar
Ignorar _____________________________ Pensar
Jogar _______________________________
Compor
Cumplicidade ________________________ Ajudar

Vontade _____________________________ Desejo
Querer ______________________________ Gostar
Poder ou gozo _______________________ Prazer
Dever _______________________________ Devir

Voluptuosidade ______________________ Virtude
Sofrimento __________________________ Dor
Depressão ___________________________ Tristeza
Stress ______________________________ Empenho e esforço

Disciplinar _________________________ Educar
Instruir ____________________________ Ensinar a aprender
Doutrinar ___________________________ Descobrir
Estéril _____________________________ Fecundo
Efémero _____________________________ Etéreo

Separação ___________________________ União
Negligência _________________________ Atenção e cuidado
Impotência __________________________ Crescer
Razão cínica e arbítrios ________________ Razão/Verdade
Proibição, limitação e opressão
____________ Salvação/Libertação
Inteligência:cordial,emocional e mais
________ Entendimento
Conhecimentos
_______________________ Conhecimento
Sustentável(turismo,economias e políticas)
____ Ética e Estética
Mortal ______________________________ Eterno

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Formulei e preparei cuidadosamente esta minha lista das palavras em dualidades e duplicidades de equilíbrios contraditos ao que nos apraz nestes dois diferentes lados do apreçar vidas e em cujos títulos, aqui irei continuar a desenvolver. E como reflexão, olhados de um e de outro lado da mesma linha, são estas as questões do meu desassossego pela enorme e crescente desproporção que nos têm assistido. Assim e de igual modo são estas mesmas temáticas que estão presentes no meu trabalho no âmbito da CRIAÇÃO ARTÍSTICA, nos projectos da IMAGEM (Poesia e Pintura, Poesia e Desenho, Poesia e Fotografia) e que se encontram on-line no E-Cultura (portal de divulgação cultural do Centro Nacional de Cultura).
Muito em breve irei também utilizar este meu blogue para a complementação dessas mesmas informações.
E porque, a ARTE assim como a VIDA, não têm preço!




Vira-se a DANÇA

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Incessantemente confiantes / Ocultam-se as chamas / Haveremos de nos calar para sempre / Ainda vivos como mortos à nascença / Torturando por igual em demissão / Ou a submissão realça a tradição mortífera / De bem em todo o mal nascidos / De quando em quando vivos / A matar para todo o sempre…

Poesia e Desenho de ALICE VALENTE ALVES

sombra acesa

Numa longínqua estrada
Tão distante
Tão distante
Aproximas-te

Naquele espaço de águas
Próximas são as partidas

E aquela terra
Da música em sons
Esperando pelos dias
Pelos muitos dias distantes

Pianos rasgam crepúsculos

Azuis e verdes
Dentro e fora de casas
Tempos de agora antigamente
Procurados à estrada de terra
Daquela terra
A terra ida

Pensas no grito que te arranhou
E soam todas as tuas vozes
Esperando pela ida sem regresso

Comer
Comer ao sabor de um desejo
De não querer mais
E ao sair da gruta
Chega-te o alimento indisponível
De um aconchego

Da ave que poisa
E se eleva em céus livres
Sombras afiadas
De uma noite iluminada.

Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE

CAMINHA-SE

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Em piedade, compaixão e caridade…

Não está na moda dar-se uma esmola a um pedinte.

Mas está na moda ser-se piedoso para com os outros, mesmo que esses outros não careçam dessa compaixão de piedosas caridades.

E a moda maior, a actual, a moda contemporânea dos afortunados, é enriquecer à custa de todos os desgraçados, de todos os doentes, dos que nada têm e até de todos os pedintes… È ver as inúmeras instituições bancárias, hospitalares, o jogo e as misericórdias, as organizações sem fins lucrativos com os de ditos voluntariosos, por aí fora com tantas santas casas… Todos benditos e arregalados que se prostram ajoelhados à espera que mais pobretanas, ignorantes se tornam fiéis e compactuem com todas as suas interesseiras, cúmplices e seguras falsidades. Dá-se-lhes o «adubo» ou remédio, na dose ideal, para que progridam em necessária e adequada miséria…

Caminha-se assim a bem da mentira, de muitas mentiras, da mentira maior, a de se saber que a mentira é imposta numa verdadezinha verdadeira, ou seja, há que viver em verdadeira mentira. E assim, todos terão de continuar muito bem, ordeira e até orgulhamente mentirosos. Em suma há que aprender-se a viver numa cordial esperteza de «sacar» o máximo dos vencidos e dos prostrados, dos distraídos e também dos que trabalham, batalham e têm muita vontade de serem assim também «gente» nesse reino tão piedoso, do ter pena do outro, dos outros, de tudo e de todos...

Prossigamos então com toda esta doença!
Ah, a doença, mas a doença é o maior bem da sociedade!... Quanto mais doenças houver, tanto melhor, há pois que pesquisar de forma freudiana, frenética e esquizofrenicamente até se inventar malefícios em tudo, tudo… em tudo e em todos, sem excepção! Para que assim possam ocorrer mais e mais profissões, profissões piedosas, psicologicamente úteis e interessantes, de bons, fáceis e serenos empregos, em seus grandes e benditos salvadores, na sempre tão cómoda, hábil e astuta forma de imputar responsabilidades aos outros por existirem e nascerem tão doentinhos e ainda lhes virem bater à porta!...
Ah, e se a mulher for tontinha e continuar subjugada, tanto melhor, porque assim mais reinos e familiares reinados se instalam dentro deste mundo tão malignamente bendito.
Ah… e ainda há que dizer «sim» ou «não»!... Exacto!...
Basta simplesmente dizer «sim» ou «não» como se a vida de um jogo se tratasse.

Ordena-se A ESCOLHA!... E obedece-se à vontade de quem dita, é muito fácil! …
Diga-se unicamente «sim» ou «não» para que a mentira continue a imperar por aí fora, a tomar lugar e lugares em tantas verdadeiras vidas tornadas numa conveniente e doentia mentira, feita da passiva, permissiva e caridosa compaixão aos tão necessários e necessitados desafortunados de má fila.


ALICE VALENTE

SUPERar-se em retorno

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(...) «O homem é uma corda estendida entre o animal e o SUPER-humano – uma corda sobre um abismo.
É perigoso transpor o abismo – é perigoso ir por este caminho – é perigoso olhar para trás – é perigoso ter uma tontura e parar de repente!
A grandeza do Homem está em ele ser uma PONTE e não uma meta
… Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não lançará por sobre a humanidade a seta do seu desejo, em que a corda do seu arco terá desaprendido de vibrar…
… Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem se tornará incapaz de gerar uma estrela dançante. Ai! O que se aproxima, é a época do homem mais desprezível, do que nem se poderá desprezar a si mesmo…»
(…) Uma coisa é o ABANDONO, e outra a SOLIDÃO; eis o que aprendeste agora! E que entre os homens te sentirás sempre um estranho, um bárbaro,
_ estranho e bárbaro mesmo que te amem; porque, primeiro que tudo, querem ser tratados com
indulgência
!
Mas aqui estás no teu lar, na tua casa; aqui podes dizer tudo e espraiar-te à tua vontade; aqui ninguém se envergonha de sentimentos ocultos e tenazes.
Aqui todas as coisas se aproximam acariciadoramente do teu apelo, e amimam-te; porque querem subir para o teu ombro. Todos os símbolos são bons para te levar à conquista de todas as verdades.
Aqui podes falar a todas as coisas, com rectidão e franqueza; e na verdade falar-lhes com rectidão é uma lisonja para os seus ouvidos!
Mas outra coisa é o ABANDONO.
(...)
(…)
_ tu dizias então: “guiem-me os meus animais! Constatei que é mais perigoso viver entre os homens do que entre os animais.” – Isso, era o ABANDONO!
(…)
_ até ao dia em que acabaste por ser o único sequioso no meio de pessoas bêbedas, e te puseste a gemer de noite: ‘Não haverá mais felicidade em aceitar do que em dar? E mais felicidade em roubar do que em aceitar?’ E isso era ABANDONO!
_ essa hora que te desgostou da tua espera e do teu silêncio, e que se desencorajou o teu humilde silêncio – isso era ABANDONO!
Nós não nos interrogamos, não trocamos queixas, passamos muitas vezes lado a lado pelas portas abertas.
(…)
Entre eles tudo fala, tudo se esvai em palavras. E o que ainda ontem parecia demasiado coriáceo para o tempo e para o dente do tempo, pende hoje gasto e roído das maxilas dos homens de hoje.
Ó singular natureza humana! Estrondo das ruelas obscuras! Agora que vos deixei atrás de mim, o meu maior perigo já passou!
Poupar homens, ter piedade deles – tal foi sempre para mim o maior perigo; porque tudo o que é humano pede para ser poupado e tolerado.
Pleno de verdades dissimuladas, com mão dúplice e coração dúplice, rico em pequenas mentiras piedosas, como tal vivi sempre entre homens.

(…) Em sonho, no meu último sonho da madrugada, encontrava-me hoje de pé num promontório, para além do mundo, e com uma balança na mão, pesava o mundo.
(…) Qual é a PONTE que leva do outrora para agora? Qual é a força que compele o que é alto a abaixar-se? E como se pode obrigar a subir ainda mais o que há de mais elevado?
Eis que a BALANÇA em equilíbrio se imobiliza. Lancei nela três pesados problemas; o outro prato sustém três pesadas respostas.
Voluptuosidade: aguilhão, farpa na carne de todos os detractores do corpo, sobre os seus cíclicos; amaldiçoada como «mundo» por todos os que acreditam no outro mundo, porque ri e moteja de todos os professores da desordem e do erro.
Voluptuosidade: veneno adocicado, mas apenas para o homem murcho; para as vontade leoninas o maior cordial, o vinho dos vinhos respeitosamente poupado.
Voluptuosidade: a grande felicidade que serve de símbolo a toda a felicidade superior, a toda a esperança superior. A tantas coisas, com efeito, é permitido o casamento, e mais do que o casamento,
_ a tantas coisas mais estranhas uma à outra do que o homem e a mulher –
e quem alguma vez compreendeu até que ponto o homem e a mulher são estranhos um ao outro?
(…) Paixão de domínio: tremor de terra que quebra e despedaça tudo o que é oco ou carcomido; avalancha destruidora que rola roncando e castiga os sepulcros caiados; relâmpago interrogador que surge ao lados das respostas prematuras.
Paixão de domínio: ante cujo olhar o homem rasteja e se torna mais humilde e mais servil e mais baixo do que a serpente ou o porco – até à hora em que nele acorda o grito do seu grande Desprezo.
Paixão de domínio: mas como chamar paixão a essa grandeza que condescende com o poder?
Que a grandeza solitária não queira ficar eternamente solitária a nutrir-se de si mesma, que a montanha se incline para o vale e que os ventos das alturas desçam para as planícies.
(…) E aconteceu também então – e na verdade foi pela primeira vez que sucedeu – que celebrou o egoísmo, o egoísmo intacto e são que tem a sua origem numa alma poderosa,
_ na alma poderosa à qual pertence um corpo realizado, belo, vitorioso, agradável aos olhos, do qual as coisas desejam ser o espelho,
_ um corpo flexível e sedutor, um dançarino que tem como símbolo e como expressão a alma que compraz consigo mesma.
(…) Despreza a sabedoria lamurienta – porque, na verdade, há também uma sabedoria que floresce na obscuridade, uma sabedoria de sombra nocturna que suspira continuamente: “Tudo é vão!”
(…) Ainda estima menos a servilidade solícita, os cães rastejantes que imediatamente se deitam humildemente de barriga para cima, porque existe também uma sabedoria humilde e servil, dócil e solícita.
(…) Quer a servilidade se destine aos deuses e às suas divinas cotoveladas, ou aos homens e às suas estúpidas opiniões humanas, este egoísmo bendito cospe com desprezo em qualquer servilismo, seja qual for.
(…) E seria essa virtude e chamar-se-ia virtude a tudo o que causa embaraço ao jogo do egoísmo!
(…) É preciso aprender a amar-se a si próprio… como um amor total e são, a fim de ficar preso a si mesmo em vez de vagabundear em todos os sentidos.
Esta vagabundagem intitula-se «amor ao próximo»; não há palavra que tenha servido para cobrir mais mentiras e hipocrisias, sobretudo por parte daqueles que se tornavam insuportáveis a toda a gente.
E na verdade,
APRENDER a amar-se, não é uma máxima aplicável a partir de hoje ou de amanhã. É, pelo contrário, de todas as artes, a mais subtil, … a arte suprema, e aquela que requere mais paciência.
O que possuímos está-nos sempre escondido; e de todos os tesouros é o seu próprio que todos desenterram em último lugar. Assim o quis o espírito da Gravidade.

É quase desde o berço que nos dotam com palavras pesadas, com valores pesados chamados «bem» e «mal», porque tal é o nome deste património. Pelo preço desses valores, desculpam-nos o facto de viver.
E se os homens deixam vir a si as criancinhas, é para as impedir a tempo que se amem a si próprias; tal é a obra do espírito da Gravidade.
Quanto a nós, arrastamos conscienciosamente aquilo com que nos carregaram, nos nossos duros ombros, para além de rudes montanhas. E quando estamos encharcados em suor, dizem-nos: “Sim, a vida é difícil de levar!”
Mas é apenas o homem que tem dificuldade em levar-se a si próprio. Porque arrasta às costas demasiadas coisas que lhe são estranhas. Como o camelo, ajoelha-se para se deixar carregar bem.

Sobretudo o homem vigoroso, resistente, cheio de respeito;
carrega às costas muitas palavras pesadas, pesados valores que lhe são estranhos – e a vida parece-lhe então um deserto.

(…) A satisfação fácil, que se acomoda com qualquer coisa, não é o melhor dos gostos! Louvo as línguas e os estômagos recalcitrantes e difíceis que sabem dizer «Eu» e «Sim» e «Não».
Mastigar e digerir tudo, porém – é bom para os porcos, na verdade. Berrar a torto e a direito sim e amen, é o que aprendem os burros e aqueles que se parecem com eles!
(…) Na verdade, também eu aprendi a esperar, mas a esperar-me a mim mesmo. E sobretudo aprendi a estar de pé, a caminhar, a correr, a saltar, a trepar, a dançar.
(…) Experimentar e interrogar é a minha maneira de avançar, e na verdade é também necessário APRENDER a responder a semelhantes perguntas. É esse o meu GOSTO,
_ esse gosto não é bem nem mau, é o meu gosto; não tenho vergonha dele e dele não faço mistério.
(…) Tal é a condição das almas nobres: não querem ter nada à custa de nada, e a vida menos do que qualquer outra coisa.
O homem vulgar quer viver sem nada em troca, mas nós a quem a vida se deu, pensamos sempre no que lhe podemos oferecer em troca.
E, na verdade, eis aqui uma nobre frase: “As promessas que a vida nos fez, cabe a nós – mantê-las!”
Não devemos procurar o prazer a não ser que tenhamos prazer a oferecer em troca. E não é necessário, regra geral, procurar o prazer!
O prazer e a inocência são tudo o que há de pudico no mundo, e devemos defender-nos de os procurar. É preciso possuí-los. Mais vale ainda procurar
a culpa e a dor!
(…) Foi na proximidade da má consciência que nasceu e se desenvolveu até agora toda a ciência. Quebrai, discípulos do Conhecimento, oh!, quebrai as antigas tábuas!
(…) “A sabedoria cansa – nada vale a pena – tu não cobiçarás” – encontrei esta nova tábua exposta até na praça pública.
Quebrai, eu vos conjuro, ó meus irmãos, quebrai também esta nova tábua! Os que a levantaram são pessoas que estão enfastiadas da vida, predicadores da morte, ou até carcereiros. Porque é uma predicação de servidão.
Eles não souberam aprender, não aprenderam bem, aprenderam muito cedo e muito depressa e por isso estragaram o estômago; não sabendo
comer; estragaram o estômago,
_ o seu espírito não passa de estômago doente, é ele que lhes
aconselha a morte! Porque na verdade meus irmãos, o espírito é efectivamente um estômago.
A vida é uma fonte de alegria; mas para o homem que deixa falar o estômago doente, pai de todas as aflições, todas as fontes parecem envenenadas.
Conhecer é uma
alegria para as vontades leoninas! Mas quando se está cansado, é-se apenas «desejado», é-se o brinquedo de todas as vagas.
E assim fazem todos os débeis, perdem-se no caminho, E o seu cansaço acaba por perguntar: “Porque é que nos pusemos alguma vez a caminho? Tudo é vão!”
Esses gostam de ouvir pregar: “Nada vale a pena! É preciso não querer nada!” Mas é uma prédica de servidão.
(…) Porque, a não ser que sejais doentes, desses seres gastos que a terra se cansa, não passais de arganazes cheios de astúcia ou de gatos gulosos e delicados, acaçapados nos cantos. E se não quereis tornar a correr alegremente, então ide para o diabo!
(…) Olhai este homem a morrer de sede! Falta-lhe apenas um passo para chegar ao fim, mas deitou-se desesperadamente na poeira, este valente!
Boceja de fadiga, boceja para o caminho, para a terra, para o seu objectivo e para ele próprio; não dará mais nenhum passo, este valente!
E o sol queima-o, e os cães aparecem para lhe lamber o suor; mas ali jaz obstinadamente e prefere deixar-se morrer,
_ morrer a um passo do fim! Na verdade, ser-vos-á necessário puxá-lo pelos cabelos para o elevar até ao seu céu, a esse herói!
Mais vale ainda deixá-lo onde se deitou, e que o sono venha reconfortá-lo, com um rumor de chuva refrescante.
Deixai-o jazer até que acorde por si mesmo, e por si mesmo renegue qualquer cansaço e tudo o que, nele, demonstrava cansaço.
Tende somente cuidado, ó meus irmãos, em afastar dele os cães, os animais dissimulados e rastejantes e toda essa canalha buliçosa,
_ esta canalha buliçosa das pessoas «ilustradas» que se regala com o suor dos heróis.

(…) Os bons indicaram-vos falsas margens e falsas seguranças; vós nascestes nas mentiras dos bons e nelas vos abrigastes. Tudo foi falsificado e distorcido pelos bons.
Mas o que descobriu esse país chamado «homem» descobriu também o país do «futuro humano». Quero que sejais de ora em diante navegadores ousados e pacientes.
Endireitai-vos a tempo, ó meus irmãos, aprendei a andar direito. O mar está agitado, mais de uma pessoa se tenta agarrar a vós.
O mar está agitado, tudo está no mar. Vamos, coragem, velhos lobos do mar!
Que importa o país dos nossos pais? Foi o país dos nossos filhos que fizemos rumo. É para ele que se lança o nosso impetuoso desejo, o nosso DESEJO imenso, mais tempestuoso do que o mar.

(…)
NIETZSCHE _ «Assim falava Zaratustra» _ GUIMARÃES EDITORES

a 2007

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Para que não se percam mais imagens
Das muitas imagens
As únicas
Que não nos deixam ficar no esquecimento
Dos estimados em presente…

rosa inicia-se no arco da rua em seu nome

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Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE

Alice Valente Alves

Com desejos de um FELIZ 2007

a dor da vontade humana

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Para além de dar continuidade ao tema do DESEJO e da VONTADE, igualmente este POST tem o propósito de responder às questões colocadas como comentário em >>> A VONTADE em Schopenhauer, e entre elas, realço aquela relativamente ao que penso da crítica que Schopenhauer fez sobre «O Fundamento da Moral» à forma imperativa da ética kantiana.

«(…) Os esforços para banir a DOR de nossas vidas não conseguem outro resultado senão o de fazê-la mudar de forma. Em sua origem tomam o aspecto da necessidade, cuidado, para atender as coisas materiais da vida, e quando, após um trabalho incessante e penoso, conseguimos afastar a horrível máscara da DOR neste determinado aspecto, adquire outros mil disfarces, segundo a idade e as circunstâncias: o instinto sexual, o amor apaixonado, a inveja, o rancor, os ciúmes, a ambição, a avareza, o temor, a enfermidade, etc.
Toma o aspecto triste e desolado do tédio, da sociedade, quando não encontra outro modo de se apresentar. E se com novas armas conseguimos afastá-la, novamente recuperará sua antiga máscara, e a dança recomeça.
(…) Tudo que defendemos, resiste-nos, tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer.
(…) Em todas, as partes e ocasiões temos que travar combate com um adversário. (…)
Se o mundo é obra de um criador, as dores voltam-se contra ele dando lugar a cruéis sarcasmos; mas se é obra nossa, a acusação é contra o nosso ser e a nossa vontade. Isto nos faz pensar que viemos ao mundo já viciados, como os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e que se a nossa existência é tão miserável, e tem por desfecho a morte, é porque assim merecemos, para expiar nossa culpa. Generalizando, nada é mais certo: a culpa do mundo é que causa os sofrimentos, e entendemos esta relação no sentido metafórico, e não no físico e empírico. Por isso, a história do pecado original reconcilia-me com o Antigo Testamento; para mim é a única verdade metafísica que o livro contém expressa em forma alegórica. A nada se assemelha tanto nosso destino como à consequência de uma falta, de um DESEJO culpado. (…)
(…) Do mesmo modo que o rio corre manso e sereno, enquanto não encontra obstáculos que se oponham à sua marcha, assim corre a vida do homem quando nada se lhe opõe à vontade. Vivemos inconscientes e desatentos: nossa atenção desperta no mesmo instante em que nossa vontade encontra um obstáculo e choca-se contra ele. (…)
É um absurdo acreditar o contrário; que o mal é negativo. Ele é positivo, porque se faz sentir. Toda a felicidade, todo o bem é negativo, e toda a satisfação também o é, porque suprime um DESEJO ou termina um pesar. Acrescentamos a isto que, em geral, nunca sentimos uma alegria maior que a que sonhávamos, e que a dor sempre a excede. (…)
(…) A felicidade está no futuro, ou no passado; o presente é uma pequena nuvem escura que o vento impele sobre a planície cheia de sol. Diante e atrás dela, tudo é luminoso; só a nuvem é que projecta uma sombra.
(…) O homem ameaçado por todos os lados pelos perigos que o rodeiam, usa de sua prudência sempre vigilante para poder escapar. Com passo inquieto, lançando em volta olhares angustiosos, segue o seu caminho em luta constante com os casos e com seus inúmeros inimigos. O homem não se sente seguro entre os da sua raça e nem nos mais longínquos desertos.
(…) A necessidade imperiosa do homem é assegurar a existência, e feito isto, já sabe o que fazer. Portanto, depois disso, o homem se esforça para aliviar o peso da vida, torná-la agradável e menos sensível: "matar o tempo", isto é, fugir ao aborrecimento.
(…) A miséria é sofrimento pungente do povo; o desgosto é para os favorecidos. Na vida civil, o domingo significa o tédio, e os seis dias, o desgosto.
(…) O aborrecimento dá-nos a noção do tempo e a distracção nos faz esquecer.
Isto prova que a nossa EXISTÊNCIA é mais feliz quando menos a sentimos: de onde se deduz que seríamos mais felizes se nos livrássemos dela.
(…) Os optimistas quiseram adaptar o mundo ao seu sistema, e apresentá-lo à priori como o melhor dos mundos possíveis. O absurdo é evidente.(…) A sinceridade de certos homens não lhes permite a união ao coro dos optimistas, e com eles entoar a aleluia
ARTHUR SCHOPENHAUER , «A DOR»

*

Nestes dois últimos parágrafos, Schopenhauer refere a sua grande aversão aos que detém o poder optimista através da fé e da esperança religiosa e ao fundamento da moral de KANT que diz (no seu livro FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES): «a fórmula do imperativo categórico e o princípio da moralidade, assim, pois, vontade livre e vontade submetida a leis morais são uma e a mesma coisa».Para KANT dever antecede toda a experiência, e por ele a razão determina a vontade à priori. Então quer isto dizer que estamos perante uma máxima que é erigida não por gosto do homem, mas sim por dever estabelecida pela vontade.E o que é vontade para Kant? «A vontade é uma faculdade de não escolher nada a não ser o que a razão, independentemente da inclinação, conhece como praticamente necessária, isto é, bom».

Cria assim KANT uma autorização da razão e a sua fórmula é um imperativo.E o que é a moralidade para KANT? «A moralidade é, pois a relação das acções com a autonomia da vontade, isto é, com a possível legislação universal por meio das máximas da mesma. A acção que possa estar de acordo com a autonomia da vontade é permitida; a que não concorde com ela é proibida». A vontade subordina-se, então a uma legislação da qual ela própria é obreira e ainda está relacionada com a ideia da dignidade humana. O homem encontra-se assim dividido entre o mundo sensível e o mundo inteligível, em que Kant dá especial realce ao verbo obrigar, com o objectivo de se opor àqueles que querem colocar a felicidade como princípio fundamental da moral.E nesta rejeição de qualquer ética eudemonista situa-se a polémica da formalidade da moral kantiana.

SCHOPENHAUER ao criticar a moral kantiana (no seu livro O FUNDAMENTO DA MORAL) declara que KANT comete um gravíssimo erro, quando afirma que a filosofia prática não tem de apresentar as razões daquilo que acontece, mas sim as leis do que deveria de acontecer.Para SCHOPENHAUER o único modo de conhecer a vontade como coisa-em-si é pelo próprio corpo.
E ao apropriar-se a lei moral à obrigação ou ao dever, do querer e do poder, levará inevitavelmente a que ninguém obedeça, de boa vontade, ao seu cânone, por este ser contrário às inclinações (sentimentos, afectos, emoções, DESEJOS) naturais do homem.

Toda a acção da verdadeira vontade do sujeito é ao mesmo tempo, e necessariamente, um movimento de seu corpo com todos os seus elementos sensíveis. Assim, toda a acção repentina da vontade é ao mesmo tempo acto fenomenal do corpo e toda a influência exercida sobre o corpo (com desejos), por sua vez, irá sempre predominar sobre a vontade. O conhecimento racional é viciado pela vontade, ou seja a racionalidade é uma forma de conhecimento subserviente.





por tudo

Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE



POR TUDO

Enfim
Retirados à frente caminhando

Abrem-se as portas de par em par
Fechadas por ti o fizeram

POR nada acharem  

O quão difícil é descobrir
Vendo não por comprar
Vendo por já vendido

Ver de vender ou vender TUDO que visto
Não haverá mais vendas
Do que não se deseja ver

Igual sonho do dia que não dorme


Fechados
Fecharemos o templo glorioso
Ritmo compassado em ciclo do círculo
Que nos fechará
A ver de deixados
Findem-se as dores.




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