Sobre_ ALI_SE
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a árvore ao jardim

A inteligência e a "indústria cultural"

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«Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente.
(...) Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente.
Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos.
São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras
: "Afinal de contas, disso eu entendo", são os statement conclusivos e sólidos que são falsos.
Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há um espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada.
(...) A transformação da inteligência em estupidez é um aspecto tendencial da evolução histórica.
(...) O facto então de que, de repente, os inteligentes são os estúpidos prova para a razão que ela é a irrazão.

(...) a quantidade da diversão organizada converte-se na qualidade da crueldade organizada.
(...) A diversão favorece a resignação, que nela quer se esquecer.
(...) A indústria cultural está corrompida, mas não como uma Babilónia do pecado, e sim como catedral do divertimento de alto nível. (…) A fusão actual da cultura e do entretenimento não se realiza apenas como depravação da cultura, mas igualmente como espiritualização forçada da diversão. (…) Ela se compõe dos valores com os quais, em perfeito paralelismo com a vida, novamente se investem, no espectáculo, o rapaz maravilhoso, o engenheiro, a jovem dinâmica, a falta de escrúpulos disfarçada de carácter, o interesse desportivo e, finalmente, os automóveis e cigarros, mesmo quando o entretenimento não é posto na conta da publicidade de seu produtor imediato, mas na conta do sistema como um todo. (…) A inferioridade, forma subjectivamente limitada da verdade, foi sempre mais submissa aos senhores externos do que ela desconfiava. A indústria cultural transforma-a numa mentira patente. A única impressão que ela ainda produz é a de uma lenga-lenga que as pessoas toleram nos
best-sellers religiosos, nos filmes psicológicos e nos women’s serials, como um ingrediente ao mesmo tempo penoso e agradável, para que possam dominar com maior segurança na vida real seus próprios impulsos humanos.
(…) Se a necessidade de diversão foi feita em larga medida produzida pela indústria, que às massas recomendava à obra por seu tema, a oleogravura pela sua iguaria representada e, inversamente, o pudim em pó pela imagem do pudim, foi sempre possível notar na diversão a tentativa de impingir mercadorias, a sales talk, o pregão do charlatão da feira. (…) Divertir-se significa estar de acordo.
(…) Divertir significa sempre: não ter de pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. (…) Mesmo quando o público se rebela contra a indústria cultural, essa rebelião é o resultado lógico do desamparo para o qual ela própria o educou.
(…) A indústria cultural realizou maldosamente o homem como ser genérico. Cada um é tão-somente aquilo mediante o que pode substituir todos os outros: ele é fungível, um mero exemplar. Ele próprio, enquanto indivíduo, é o absolutamente substituível, o puro nada, e é isso mesmo que ele vem a perceber quando perde com o tempo a semelhança. É assim que se modifica a estrutura interna da religião do sucesso, à qual, aliás, as pessoas permanecem tão rigidamente agarradas.
(…) A indústria só se interessa pelos homens como clientes e empregados e, de facto, reduziu a humanidade inteira, bem como cada um de seus elementos, a essa fórmula exaustiva.
(…) Quanto menos promessas a indústria cultural tem a fazer, quanto menos ela consegue dar uma explicação da vida como algo dotado de sentido, mais vazia torna-se necessariamente a ideologia que ela difunde.
(
…) A ideologia fica cindida entre a fotografia de uma vida estupidamente monótona e a mentira nua e crua sobre o seu sentido, que não chega a ser proferida, é verdade, mas apenas sugerida, e inculcada nas pessoas. (…) Quem ainda duvida do poderio da monotonia não passa de um tolo.
(…) Ao serem reproduzidas, as situações desesperadas que estão sempre a desgastar os espectadores em seu dia-a-dia tornam-se, não se sabe como, a promessa de que é possível continuar a viver. Basta se dar conta de sua própria nulidade, subscrever a derrota – e já estamos integrados. A sociedade é uma sociedade de desesperados e, por isso mesmo a presa dos bandidos.»
THEODOR W. ADORNO / MAX HORKHEIMER
Dialéctica do esclarecimento
, JORGE ZAHAR EDITOR

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Situamo-nos assim, numa colectivizante aceitação de uma vã consciência, nesta que será a curto-prazo, se assim nos continuarmos a pensar, a pior das ameaças da decadência humana, por tomarmos como objectivo primeiro o existirmos numa auto-consumação a «matar o tempo» através do lazer, do entretenimento e da diversão, em suma estamo-nos a abandonar ao «gozo», de tudo se construir pelo divertimento de um mal a olhar o outro e os outros como o espectáculo e com a gritante risada ou gargalhada da eminente e sempre apelativa desgraça, e até posto em prática pelas indústrias culturais como a única e possível ideologia neste que é o «estilo» actual de nos esquecermos quem somos, a ignorar o outro e os outros e para deles se fazer uso como divertimento ou gozo, pelo que se quer e se nos exige do automaticamente imediato no repetitivamente contemporâneo.
No meu ensaio com o título: A CONSCIENTE NEGLIGÊNCIA DO CORPO, na pág.7 sobre a inteligência exprimo que:
É assustador, como a noção de inteligência tem sido abusiva, maquiavélica e sub-repticiamente usada e ensinada a fazer da vida e de todas as vidas, como se fossem “coisas” confeccionáveis, ou como se tratasse de um fabrico em série, numa extensão dos objectos que se compram, se vendem, se gastam e se trocam por outros, numa compulsiva, repetitiva, uniforme e vil monotonia, a deixarmos assim de viver com arte e na arte em toda a sua inerente e espontânea autenticidade e integridade no saber fazer, saber estar e saber ensinar a cuidar de tudo e de todos que nos rodeiam.

E sem mais contrários e já por tão doentiamente deformados, a ter sempre de cumprir-se deveres em que dever e até quando, aqui estamos nós, prontos para as tais de ditas «lutas» no «salve-se quem puder», só, obstinada e unicamente pelas vias de uma vontade cega de se esganarmos uns aos outros, já sem desejos, sem valores e sem aspirações futuras, por cada vez mais caoticamente apartados do que é a verdadeira Cultura.


Excertos de PENSAMENTOS em ali_se relativos a este post:

“A DISTRACÇÃO MATA” (…) na sala de aulas é precisamente onde se aprende a ser-se o que é para mim, o verdadeiro distraído, (…) pensa-se a pensar que se pensa, mas no fundo, no fundo só se pensa em se progredir para um futuro em que o Pensamento deixa de ser o primeiro dos privilégios do Homem enquanto Ser.
(…) E é o que temos como professores, como personalidades e como responsáveis à frente das nossas maiores instituições! Estão todos distraídos, têm mais com que se divertir, existem muitas distracções, (…)
(…) esta diversão a matar talentos e capacidades (…)
Competir ou HUMANIZAR (…) Daí se tornar tão importante, para o artista ou para qualquer pessoa sensível, saber do trabalho e do fazer dos outros pela criatividade em afectividade, não no sentido de uma hostil e antagónica competitividade, mas no sentido de um crescimento e enriquecimento interior. Porque só nos conseguimos realizar com a realização dos outros, quando todo e qualquer ser se apresentar liberto e desprovido dessas mesmas rivalidades em agressivas e competitivas conflituosidades. (…)
CAMINHA-SE (…) Caminha-se assim a bem da mentira, de muitas mentiras, da mentira maior, a de se saber que a mentira é imposta numa verdadezinha verdadeira, ou seja, há que viver em verdadeira mentira. (…)
Prossigamos então com toda esta doença!
Ah, a doença, mas a doença é o maior bem da sociedade!... Quanto mais doenças houver, tanto melhor, há pois que pesquisar de forma freudiana, frenética e esquizofrenicamente até se inventar malefícios em tudo, tudo… em tudo e em todos, sem excepção! Para que assim possam ocorrer mais e mais profissões, profissões piedosas, psicologicamente úteis e interessantes, de bons, fáceis e serenos empregos, em seus grandes e benditos salvadores, na sempre tão cómoda, hábil e astuta forma de imputar responsabilidades aos outros por existirem e nascerem tão doentinhos e ainda lhes virem bater à porta!... (…)
SER-SE empacotado (…) E já todos tão «mal alimentados» quando se cansarão destes pacotes pré-concebidos de um amontoado de fabricações para um qualquer vazio que não os felicitará ao FUTURO por tão insustentável?... No «planear o território» a se riscarem todas as terras numa feroz «nova era das descobertas» neste global turismo de formatados similares pacotes das sempre e mesmas receitas gastronómicas nas mesmas decorativas ambiências arquitectónicas, construídos assim para mutilar tudo o que é crescer. (…)

o óbvio e a ARTE

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A Arte não se apresenta pelo que é óbvio. Arte vai para além das fronteiras de tudo o que é óbvio. Por sua vez, tudo o que é óbvio jamais está inserido no que é Arte e por isso, esta só conseguir assomar-se nas margens das impositivas regras e amarras do que lhe é óbvio.
Ao se apresentar o resultado duma obra, ela porque precisa na sua forma de se exprimir e dar continuidade a outros actos ou processos de criação, propõe-se sempre à reflexão na inerência da sua inesgotável auto-reflexão.
O que é óbvio não exorta à reflexão ou ao acto de pensar. O óbvio ou o que é óbvio em si mesmo automatiza-se sem esclarecimentos, e que por conhecer-se de antemão em todo o seu percurso de um antes num depois que lhe é requerido, confina-se a uma condição de não-comunicação.
E uma obra de arte estima-se enquanto arte se o óbvio não se verificar. A partir do momento em que o óbvio transpareça numa obra de arte, imediatamente a peça que tida de obra deixará de o ser e reduz-se assim a uma qualquer situação de não-comunicação.

Embora exista uma consequente relação do óbvio com o visível do que é dizível nos resultados das afirmativas cientificidades, a arte essa comunga antes de mais, não com a aparência do que é óbvio, mas sim na consequente relação de uma objectividade que por intuitiva tornar-se sempre subjectiva e que jamais se deixará condicionar pelo que lhe é aparentemente óbvio.

É nesse mesmo visível de uma obra do que é dizível no indizível ou nessa mesma antecipada conexão objectiva que se torna sempre subjectiva, que o óbvio não tem lugar. Indizível esse que se regozija com o espaço de um novo por devir ou de tudo aquilo que vem ou virá, num benéfico presente da criação ou do que é criativo. E não ao que é relativo ao novo da novidade e do especulativo ou seja, da novidade pela novidade a aniquilar, a tropeçar e a tornar-se mortífero em si mesmo, isto é, pela quantia ou por um muito de uma quantidade num quantificável que se esgota, se consome ou se transforma em lixo do que é consentâneo por tão repetitivo em que disputas ou competitividades, tornando-se pois, uma atroz escassez para os demais em que demasia. A arte situa-se assim, num novo que é afecto ou relativo à criação ou ao movimento do acto criativo, processo esse, que é o da verdadeira comunicação do pensamento, a dar com toda a singularidade e qualitativamente, lugar e espaço a todos por igual.

O homem - ser animal - em ADORNO

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(…) A falta de razão não tem palavras. Eloquente é a sua posse, que estende seu domínio através de toda a história manifesta. A terra inteira dá testemunho da glória do homem, na guerra e na paz, na arena e no matadouro as criaturas irracionais sempre tiveram de fazer a experiência da razão. Esse processo visível esconde aos carrascos o processo invisível: a vida sem a luz da razão, a vida dos animais. Esta seria o tema genuíno da psicologia, pois só a vida dos animais decorre segundo impulsões psíquicas; quando a psicologia tem de explicar os homens, eles já regrediram e se destruíram. E quando os homens chamam a psicologia em seu socorro, o espaço reduzido de suas relações imediatas se vê ainda mais reduzido, mesmo aí eles são convertidos em coisas. O recurso à psicologia, para compreender o outro, é um gesto descarado; para a explicação dos próprios motivos, um gesto sentimental…

(…) O mundo do animal é um mundo sem conceito…
… O animal responde ao nome e não tem um eu…

(…) A transformação das pessoas em animais como castigo é um tema constante dos contos infantis de todas as nações. Estar encantado no corpo de um animal equivale a uma condenação… Todo o animal recorda uma desgraça infinita ocorrida em tempos primitivos. O conto infantil exprime o pressentimento das pessoas. Mas enquanto o príncipe conservou a razão, de tal modo que pôde exprimir na hora certa sua dor e ser assim resgatado pela fada, a falta de razão exila eternamente o animal em sua figura, a não ser que o homem que, pelo passado, se identifica com ele descubra a fórmula salvadora e com ela abrande no fim dos tempos o coração de pedra da eternidade.

Para o ser racional, porém, a solicitude pelo animal desprovido de razão é uma vã ocupação. A civilização ocidental deixou-a ao encargo das mulheres. Estas não tiveram nenhuma participação independente nas habilidades que produziram essa civilização. É o homem que deve sair para enfrentar a vida hostil, é ele que deve agir e lutar. A mulher não é sujeito. Ela não produz, mas cuida dos que produzem, monumento vivo dos tempos há muito passados da economia doméstica fechada. A divisão do trabalho imposta pelo homem foi-lhe pouco favorável. Ela passou a incarnar a função biológica e tornou-se o símbolo da natureza, cuja opressão é o título de glória dessa civilização
(…)

THEODOR W. ADORNO / MAX HORKHEIMER , Dialéctica do esclarecimento, JORGE ZAHAR EDITOR



ARTE e Ser

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Todos os modelos em regras instituídas a serem cumpridas com impostas e rígidas obrigatoriedades, falharam. E sempre falharam porque se excedem em si mesmo,  justamente por não se regerem prioritariamente na valorização do Ser.

E será sempre nessa margem, nesse erro, nesse limbo dos modelos fundados e fundamentados num sem-fim de regras e mais regras, que o inquietante artista irrompe e faz nascer a sua obra, numa urgente antecipação reflexiva a romper com essas mesmas regras que corrompem o Ser.

Competir ou HUMANIZAR

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Os processos da criatividade, da criação e de tudo aquilo que é manifestamente artístico são processos edificantes do ser no seu todo, compreendendo na personalidade e carácter do ser em si mesmo, para além do que é aparentemente inteligível, também todas as outras insignificantes formas diferenciadas e tidas como secundárias e até de limitativas, e que equitativa e equilibradamente se regem ou auto-regulam na procura do outro e dos outros sempre numa qualquer prioritária dádiva.
Criar é a mais perfeita das comunicações. Por isso a poesia, se relevar como uma das mais íntegras e ajustadas formas de revelação do que é o sensível no sensível, pelo carisma e vitalidade do que é a oferta em sua plena e primordial beleza, e isto por se ocasionar com toda a espontaneidade em si e por si mesma, sem mais delongas esperas.
Ao criar, cavamos e escavamos a alicerçar o que há de mais elevado do nosso existir e a termos a certeza que esse confronto será tão fértil quanto proveitoso em todas as suas predefinições.
Daí se tornar tão importante, para o artista ou para qualquer pessoa sensível, saber do trabalho e do fazer dos outros pela criatividade em afectividade, não no sentido de uma hostil e antagónica competitividade, mas no sentido de um crescimento e enriquecimento interior. Porque só nos conseguimos realizar com a realização dos outros, quando todo e qualquer ser se apresentar liberto e desprovido dessas mesmas rivalidades em agressivas e competitivas conflitualidades.
Há que ter em atenção a tomar nota, que preço igual a valor jamais poderá fazer parte dos valores humanos.
Querer substituir os valores humanos no âmbito de preços é a via mais atrozmente descabida do humanizar.
É que o valor da dignidade, do educar, do cuidar e do conhecimento pela maturidade não têm preço.
Esses valores do valor em preços viabilizam-se pela competição na invasão e ocupação do espaço do outro, dos outros através da mentira e do jogo em grandes manhas estratégicas, a copiar, a tirar, a roubar e por final a matar com todas as inerentes e expressas legalidades.
Os VALORES, os verdadeiros valores construídos com toda a consciência são em suma e inegavelmente, os que erigidos pela via do que é sensível e (ou) inerente à criatividade.
Por isso a CULTURA de um indivíduo, de uma família, de um povo, de um país ou do mundo, tornar-se a
exclusiva ou única verdadeira riqueza fundamentada, resultado ou fruto de uma realização em autenticidade por conseguir ser-se humano.

Em continuidade do >>> APREÇAR a vida



JEAN-PIERRE DUPUY e a conformativa ECONOMIA

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(…)
Não é de moralização que o mundo dos negócios mais precisa; é da clara compreensão de que ao «pagar», o político assina a prazo, a sentença de morte. 
(…) Se, ao menos se pudesse manter a economia no devido lugar! Porém tem uma tendência irresistível para tudo invadir. Para fazerem compreender bem a lei da oferta e da procura, dois professores da Universidade da Virgínia, Gordon Tullock e Richard McKenzie, incitaram nos anos setenta, os alunos a praticar a prostituição. 

(…) … Que ninguém se apresse a gritar que isto é um escândalo. Em matéria de ética, a moral é má conselheira… Se uma troca recíproca satisfizer ambas as partes e se, por outro lado, ninguém sofrer com ela, quem pode criticá-la? A lei? Sabe-se que a lei pode ser injusta e que não é imutável. Engraxo-te as botas, prestas-me um serviço ao fazer com que obtenha um contrato. A justiça conformada aqui com a justiça das trocas, é automaticamente assegurada pelo consentimento das partes. 

(…) … O mercado cria laços em que a afectividade não tem lugar…

(…) … Para qualquer pensamento crítico. O mercado é a antitradição por excelência (…)


(…) Mais ainda do que nas obras precedentes, O Hayek de “The Fatal Conceit” está consciente da relação de ódio e de amor misturados que os homens têm pela ordem extensa do mercado – a que chama a maioria das vezes, a «civilização». O que pôs o homem na via da civilização, escreve, «não foi nem a sua razão nem uma “bondade natural” inata […], foi apenas a amarga necessidade de se submeter a regras de que não gosta, a fim de resistir a grupos rivais que já tinham começado a expandir-se por terem encontrado antes essas regras». Pela sua própria abstracção, o mercado quer uma disciplina exigente, uma moral compulsiva. A civilização é um «fardo» e os homens não vêem facilmente, os benefícios que ela dá. 

(…) … O indivíduo auto-suficiente e independente que a teoria económica postula não se pode sujeitar à influência dos semelhantes. E, contudo Hayek atribui à imitação um papel central. Não é o único evidentemente: Smith, tal como vimos, e Keynes, tal como iremos ver, fazem a mesma coisa. A companhia não é de desprezar: são os melhores economistas de todos os tempos que se encontram juntos neste ponto.

(…) … O problema, evidentemente, é que Hayek dificilmente pode afirmar que o mercado passou no teste com êxito, visto que toda a sua obra se apresenta como uma crítica radical, e temos a vontade de escrever, «racional» da civilização moderna, culpada de se ter deixado seduzir pelas sereias do construtivismo.


(…) … No estudo da especulação financeira, Keynes vê bem, tal como Hayek, o papel fundamental da imitação. Numa situação de incerteza radical, tal como a que prevalece num mercado financeiro em crise, a única conduta racional é imitar os outros.

(…) O erro «fatal» do racionalismo construtivista é pensar que a razão, consciente e voluntária, pode governar a vida mental e psíquica. Verdadeiro é o contrário: tal como tudo o que faz a vida do espírito, a razão é ela mesma governada pelos esquemas abstractos que a compõem. A razão, o mundo das nossas ideias em geral, apenas «se verifica» no mundo do espírito, para recordar a uma noção chave da filosofia do espírito (“supervenience”). Que presunção imaginar que poderia “reconstruí-lo” à vontade ou mesmo substituir-se-lhe! O espírito é irremediavelmente opaco a si mesmo, não pode pôr-se no exterior de si mesmo para se contemplar no seu todo e fazer a teoria do seu próprio funcionamento.
(…)

JEAN-PIERRE DUPUY, «Ética e Filosofia da Acção», Pensamento e Filosofia, 2001

ar da cidade

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Estarei eu subindo a montanha declinável Estarei eu concordando que as ruas só descem Que os barcos à beira rio não se movem Que nesse teu espanto se assenta a única alegria Na nuvem que impermeabiliza Acima de todo o ar

Ouvem-se as gaivotas Muitas gaivotas por aí Muitas Vêm até à cidade E os pombos afastam-se delas As pombas põem ovos por todo o lado Já não fazem ninhos E as gaivotas comem-nos E porque não se comem pombos

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ÁGUA em que Futuro

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Excertos retirados de artigo do site da AMI com o título «A Água e o Futuro da Humanidade»:

ACÇÃO DA AMI
Para a intervenção humanitária em 59 países dos 5 continentes onde as equipas da AMI desenvolveram mais de 500 Missões Humanitárias a escassez e qualidade da água é de uma importância fundamental, em particular na ajuda de emergência.
(…)
Objectivos da AMI
Acesso de toda a população da área aos cuidados de saúde - acesso da população a medicamentos necessários ao seu tratamento - reabilitação de instalações hospitalares - acesso a infra-estruturas básicas, como a água e electricidade - melhoria dos conhecimentos técnicos e dos conhecimentos relacionados com uma vida saudável - esclarecimentos e educação da população.
(…)

Onde está a água...

... 97,4% está nos oceanos e mares, e é salgada ... 1,98% está armazenada nos glaciares e em lugares quase inacessíveis ... 0,59% são águas subterrâneas ... 0,03% está nos rios e lagos ... 0,001% na atmosfera ... Apenas 1% de toda a água do planeta está disponível para uso.
e mais... 90% do corpo de um recém-nascido é formado por água ... em média uma pessoa bebe cerca de 60 mil litros de água durante toda a vida ... o ciclo da água já não é suficiente para purificar naturalmente a água que o homem polui ... para fazer 1 quilo de pão, gastam-se, da plantação de trigo à padaria 1000 litros de água ...
(…)
... Uma descarga de um autoclismo num país ocidental utiliza o mesmo volume de água que um habitante do mundo em desenvolvimento consome, em média, num dia inteiro para a sua higiene, para beber, para limpeza e para cozinhar.
... 87% do consumo mundial é feito por apenas 10% da população.
Em África há pessoas que têm de caminhar 8 quilómetros por dia para obter os cerca de 10 litros de água que irão servir uma família inteira.
No nosso mundo privilegiado 10 litros de água são consumidos em escassos segundos com o abrir de uma torneira. Será isto justo?

Se o consumo de água fosse equitativo em todo o mundo, cada pessoa poderia viver com apenas 50 litros de água por dia, sendo: 1 a 2 litros para beber, e 25 a 50 litros para preparar os alimentos e para a higiene.
No entanto, estes são os números do mundo em que vivemos:
• Estados Unidos da América ... cada Americano tem uma média de consumo pessoal de 400 litros de água por dia.
• Europa... o consumo varia entre 150 a 300 litros de água por dia, por pessoa. Ainda assim 120 milhões de europeus (um em cada sete) não têm acesso a água potável e a tratamento de esgotos.
• Portugal ... cada português gasta em média 100 litros de água por dia.
• Ásia... um em cada três asiáticos não tem acesso a água potável; os rios da Ásia têm três vezes mais bactérias provenientes dos resíduos humanos do que a média mundial.
• África... 14% dos países da África enfrentam "stress" hídrico. Até 2025, mais onze países deverão enfrentar as mesmas condições. A procura de água no norte de África deverá aumentar 3%, por ano, até 2020, paralelamente ao crescimento da população e ao desenvolvimento económico.

Ler o texto na íntegra >>> «A Água e o Futuro da Humanidade» <<<


Links sobre a ÁGUA – Portugal:

Museu da Água
Instituto da Água

Água & Ambiente

Associação Água Pública

Como reduzir a água que consumo?
Portal da Água


Links sobre a ÁGUA – Brasil:

Água e Cultura
Amigo da Água

Água Virtual

Universidade da Água


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Desejo em MOVIMENTO TOTAL de José Gil

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(…) O bailarino contempla as imagens virtuais do seu corpo a partir dos múltiplos pontos de vista do espaço do corpo. Paradoxalmente, a posição narcísica do bailarino não exige um «eu», mas um outro corpo (pelo menos) que se desprenda do corpo visível e dança com ele. Graças ao espaço do corpo, o bailarino, enquanto dança cria duplos ou múltiplos virtuais do seu corpo que garantem um ponto de vista estável sobre o movimento (para Mary Wigman, dançar é produzir um duplo com o qual o bailarino dialoga).
Conivência e distância do corpo actual em relação aos corpos virtuais são assim acompanhados por uma contemplação do movimento que ao mesmo tempo o desposa e se afasta dele para adquirir uma perspectiva consistente no interior do próprio movimento. (…)
É falso dizer que «transportamos o nosso corpo» como um peso que arrastamos sempre connosco. O peso do corpo constitui um outro paradoxo: se exige um esforço para o fazermos mexer-se, é também ele que transporta sem esforço através do espaço.
Como no-lo mostram essas Mulheres de Picasso correndo pela praia, com pernas e braços que se alongam como o próprio espaço que a corrida, o horizonte, o mar e o vento induzem, a textura do corpo é espacial; e reciprocamente, a textura do espaço é corporal. (…) 
A «abertura» do corpo não é nem uma metonímia nem uma metáfora. Trata-se realmente do espaço interior que se revela ao reverter-se para o exterior, transformando este último em espaço do corpo.
Mas porque se quer abrir o corpo e projectá-lo para fora?
Sabemo-lo: para construir o espaço do corpo e, no limite, para formar o plano de imanência da dança, enquanto última transformação desse espaço. Porquê querer a imanência? Para alcançar as intensidades mais altas, essas a que Cuningham chama de «fusão». Mas enfim porquê querer dançar?
Assim que tentamos responder, somos imediatamente remetidos para o desejo, para a própria natureza do desejo.
O que se prende com uma só palavra: agenciar.
Palavra de Deleuze e Guattari que nos parece ser a mais apta para exprimir o que do desejo se implica no desejo de dançar.
O desejo cria agenciamentos; mas o movimento de 
agenciar abre-se sempre em direcção de novos agenciamentos. Porque o desejo não se esgota no prazer mas aumenta agenciando-se.
(…) O desejo é portanto infinito, e nunca pararia de produzir novos agenciamentos se forças exteriores não viessem romper, quebrar, cortar o seu fluxo.
O desejo quer acima de tudo desejar, ou agenciar, o que é a mesma coisa. O agenciamento do desejo abre o desejo e prolonga-o.
Se o agenciamento abre o desejo e o aumenta, é porque se tornou 
matéria do desejo, não seu objecto, mas sua textura própria, participando da sua força, da sua intensidade, do seu «impulso vital» para falarmos como Bergson. Por outras palavras o desejo não é só desejo de agenciamento, é agenciamento, transforma aquilo que «produz» ou «constrói» em si próprio. Se o desejo de um pintor consiste em agenciar certas cores de certa maneira, a força do quadro que daí resulta é o desejo. As cores e os espaços agenciados desejam.
Seja qual for o tipo de agenciamento, o desejo procura fluir através dele. Nos movimentos do pensamento como no fazer do artista ou na elaboração da fala, desejar é agenciar para fluir, agenciar para que a potência de desejo aumente. Por isso o desejo reconduz a si próprio, transforma, metaboliza todos os elementos que toca, atravessa ou devora. Para o desejo tudo deve devir desejo.
(…) Digamos, simplesmente, que o corpo habitual, o corpo-organismo é formado de órgãos que impedem a livre circulação de energia. A energia é investida e fixada nos sistemas de órgãos do organismo (assim se constroem esses «modelos sensorio-motores interiorizados» de que Cuningham fala, que representam sempre um obstáculo à inovação). Desembaraçar-se deles, constituir um outro corpo onde as intensidades possam ser levadas ao seu mais alto grau, tal é a tarefa do artista e, em particular, do bailarino.
(…)
JOSÉ GIL , MOVIMENTO TOTAL. O corpo e a dança - Relógio D’Água Editores, 2001
BALLET GULBENKIAN - Fotografia/Arquivo de ALICE VALENTE ALVES

UM TANTO FAZ DO OUTRORA AGORA

Telemovem-se inscritos na mente de capturas datáveis
Companheiros em companhias mal paradas

Estacionados em bolsos, carteiras e afins espaços, todos eles lado a lado
Tocam e retocam-se em mensageiras ideias sem mais
Reconfortáveis ausências das chegadas que não se virão
Substitutos de um não expresso
Súplicas presenças gastronomicamente consumidas
Uso sem fruto ou fruto sem usos de um tanto faz
Basta não fazer por já feito ao que dita
Inúmeros são os repetitivos répteis gestos
E aceitam-se as de agora corruptíveis malfeitorias
Aprendizes das regaladas e numéricas vias
Ainda assim sugam as peles das acastanhadas rubricas
Tragam-se suspiros e venham eles doravante por experimentar
Ditos e proveitosos sussurros de participáveis e pré-combináveis apertos
E só assim se vêem por aí encostados ou semi-encostados por tantos costados
Membros de esotéricas distracções assumidas à proa destapada
E o vento cabe-lhes na procura de taças simuladas de um outrora escondido
Rédeas soltas aprisionam as ideias nas tomadas de fins à vista
Vidrados telhados de graníticas chuvas por cair
Dias e dias a mais sem achados de tronos comprimidos

Por quantos dias que não se acham

2 0 0 6 _ 0 1 J U L H O : WORK IN...

1 ano passado

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Os meus agradecimentos a todos que atenciosamente têm partilhado comigo este espaço e ao bloganiversário pelo aviso .
2 0 0 6 _ 3 0 J U N H O :
QUE AMOR = QUE ÓDIO

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1 Ano de Ali_Se

Deleuze e a VERGONHA por vir

...
(…) Impressionaram-me muito todas as páginas de Primo Levi em que ele explica que os campos nazis introduziram em nós “a VERGONHA de ser um homem”. Não, diz ele, que sejamos todos responsáveis pelo nazismo, como gostariam de nos fazer crer, mas porque fomos todos manchados por ele: os próprios sobreviventes dos campos tiveram de aceitar compromissos, que mais não fosse para sobreviver. VERGONHA de ter havido homens que foram nazis, VERGONHA de não se ter podido nem sabido impedi-lo, vergonha dos compromissos aceites, é a tudo isto que Primo Levi chama a “zona cinzenta”. E a VERGONHA de ser um homem, acontece que a experimentemos também em circunstâncias completamente ridículas: perante uma excessiva vulgaridade de pensamento, durante uma emissão de variedades, frente ao discurso de um ministro, ao ouvir as declarações do que gostam da “boa vida”. (…) Ora o mercado não é universalizante, homogeneizador, é um fantástico processo de riqueza e de miséria. Os direitos do homem não nos farão abençoar as “alegrias” do capitalismoNão há Estado democrático que não esteja comprometido a fundo com esse processo de fabrico da miséria humana. A VERGONHA é que não temos meio seguro algum de preservar os devires, ou por maioria da razão de fazer com que levantem, nem sequer em nós próprios…


(…) As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número. Uma minoria pode ser mais numerosa do que uma maioria. O que define a maioria é um modelo … Ao passo que uma minoria não tem modelo, é um devir, um processo. Pode-se dizer que a maioria não é ninguém. Toda a gente, sob um aspecto ou outro, se encontra tomada num devir minoritário que arrastaria cada um para vias desconhecidas, se nos decidíssemos a segui-las (…) O POVO é sempre uma minoria criadora, e que continua a sê-lo, até mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não se vivem no mesmo plano. Os maiores artistas fazem apelo a um POVO, e constatam que “o POVO falta”: Mallarmé, Rimbaud, Klee, Berg. No cinema, os Straub. O artista não pode deixar de fazer apelo a um POVO, necessita dele no mais fundo da sua acção, não lhe cabe criá-lo e não pode fazê-lo. A ARTE é o que resiste: resiste à morte, à servidão, à infâmia, à VERGONHA... Como se cria um POVO, em que sofrimentos abomináveis? Quando um POVO se cria, é pelos seus próprios meios, mas de maneira a reunir-se a qualquer coisa da ARTE ou de maneira a que a ARTE se reúna àquilo que lhe faltava.


(…) … é o cérebro que é exactamente esse limite de um movimento contínuo reversível entre um Dentro e um Fora, essa membrana entre os dois. Novos traçados cerebrais, novas maneiras de pensar não se explicam pela micro-cirurgia, mas É A CIÊNCIA, pelo contrário, que deve esforçar-se por descobrir o que pode ter havido no cérebro para que nos tenhamos posto a pensar desta ou daquela maneira. Acreditar no mundo é isso que mais nos falta; perderemos completamente o mundo, desapossaram-nos dele. Acreditar no mundo é também suscitar acontecimentos, ainda que pequenos, que escapem ao controlo, ou fazer nascer novos espaços-tempos.


(…) Informaram-nos de que as empresas têm uma alma, o que é de facto a notícia mais aterradora do mundo. O marketing é agora o instrumento do controlo social, e forma a raça impudente dos nossos senhores. O controlo é a curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, enquanto a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem já não é o homem encerrado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve por constante a extrema miséria de três quartas partes da humanidade, demasiado pobres para a dívida, demasiado numerosas para o encerramento: o controlo não terá somente de enfrentar as dissipações de fronteiras, mas as explosões dos bairros de lata e dos guetos.


Não há necessidade de ficção científica para concebermos um mecanismo de controlo que dê a cada instante a posição de um elemento em meio aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (pulseira electrónica). Félix Guattari imaginava uma cidade em que cada um poderia sair do seu apartamento, da sua rua, do seu bairro, graças ao cartão electrónico (dividual) que faria levantar-se esta ou aquela barreira; mas o cartão poderia igualmente ser recusado certo dia, ou entre certas horas; o que conta não é a barreira, mas o computador que referencia a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal.


(…) … estamos no início de alguma coisa. No regime das prisões: (…). No regime das escolas: (…). No regime dos hospitais: (…). No regime de empresas: os novos modos de tratar o dinheiro, os produtos e os homens que já não passam pela velha forma-fábrica. São exemplos bastante magros, mas que permitiriam compreender melhor o que se deve de entender por crise das instituições, quer dizer a instalação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação.
(…) Poderemos já discernir esboços dessas formas POR VIR, capazes de se oporem às alegrias do marketing? Há muitos jovens que estranhamente reclamam ser “motivados”, requerem estágios e formação permanente; é a eles que compete descobrir aquilo que os fazem servir, como os mais velhos descobriram não sem dificuldades a finalidade das disciplinas.
(…)
GILLES DELEUZE , Conversações 1972-1990, Fim de Século Edições, 2003

A EDUCAÇÃO em Nietzsche

...

Excertos retirados do texto de Elenilton Neukamp com o título AS CRÍTICAS DO PROFESSOR NIETZSCHE À EDUCAÇÃO DE SEU TEMPO no site de filosofia de Miguel Duclós: www.consciencia.org :

(...)
Nietzsche …, que foi professor (entre 1869 e 1879) e teve contacto directo com a realidade educacional de sua época, o que permitiu que fizesse críticas agudas ao ensino dos estabelecimentos alemães. Suas “Considerações Intempestivas” ou “Extemporâneas” [São elas: David Strauss, o devoto e o escritor (1873), Da utilidade e desvantagem da história para a vida (1874), Schopenhauer como educador (1874) e Richard Wagner em Bayreuth (1876)] desferem um ataque profundo à educação de seu tempo e indirectamente ao projecto pedagógico da modernidade como um todo. Estas obras fazem parte do que os comentadores costumam chamar de “primeiro Nietzsche” ou “o primeiro período” de três que corresponderiam a toda sua produção. Nelas o filósofo critica a educação ministrada nas instituições de ensino de seu tempo, acusando-as de apequenarem o homem ao formá-lo apenas para servir aos interesses do Estado, da ciência e do mercado. Nietzsche aponta uma tendência para a potencialização de elementos comuns (e medíocres) dos indivíduos, nivelando-os para sua melhor utilidade ao invés de despertá-los em suas singularidades como seres humanos. Esta tendência de uniformização exacerba a importância da memorização como a forma mais importante para se educar, em detrimento da acção e da criação.
(…)
A Alemanha, do século XVI ao XVIII era dividida em centenas de Estados independentes e autónomos, que não davam a liberdade necessária para o crescimento de uma intelectualidade. Seus pensadores, então, foram para outros lugares, fora das fronteiras destes Estados em disputa, onde forjaram um pensamento cosmopolita, preocupado sobretudo com os rumos da cultura e alheios aos acontecimentos políticos. A derrota militar sofrida pela Prússia em 1806 para as tropas de Napoleão, ajuda a criar a consciência de que é necessário unir a nação. A forma que o Estado encontra para unificar a nação é através do processo educativo, tornando a escolarização compulsória; educar todo povo torna-se o ideal. Por isso, era obrigatória a formação inicial de três anos nas escolas preparatórias, ou “escolas populares”, que depois davam acesso ao ginásio que durava nove anos.
Na conferência
“Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino” (1872) Nietzsche aborda as instituições de ensino e a educação de seu tempo, (…) . Em sua análise, duas tendências mostravam-se nefastas para os rumos das instituições pedagógias: a tendência de ampliação cada vez maior da cultura, e a tendência à redução da cultura através da especialização. Tanto uma quanto a outra tendência eram completamente equivocadas e carregavam pressupostos e “métodos antinaturais de educação”.
A tendência à ampliação é a tentativa de universalização da cultura, de sua extensão a grupos cada vez maiores. Para Nietzsche, esta é uma visão utilitária da cultura pois está dominada por critérios quantitativos:
procura-se estender a educação à maior quantidade de pessoas possível, pois o mercado necessita delas.
Além desta necessidade de formar produtores para o mundo do trabalho, baseada numa lógica económica e não com o intuito de elevação cultural, Nietzsche ainda vislumbra outros interesses nesta tendência à extensão máxima da cultura. Um deles seria o medo da opressão religiosa do passado, fazendo aumentar uma busca de elementos culturais contrários à religião por parte de toda a sociedade. Outro elemento importante é o interesse do Estado que, consciente de seu poder, investe na formação de seus funcionários e de seus exércitos para melhor capacitar-se na luta contra outros Estados.
A outra tendência, de redução da cultura, não tem a mesma força que a anterior mas é tão nefasta quanto aquela. Esta tendência prega a divisão do trabalho nas ciências e a especialização do erudito em determinada área;
especialização que “conduz à superficialização do espírito, ao entorpecimento do impulso crítico, emancipatório e criador”
(GIACÓIA, 2005, p. 68).

(...) Tanto uma quanto outra tendência vão formando um determinado público medíocre, distante da verdadeira cultura, que terá no jornal seu ponto de confluência. O jornalista, “o senhor do momento”, acaba substituindo os verdadeiros mestres da cultura e é no jornal que os chamados eruditos (especialistas) irão divulgar seus pretensos saberes para o público. Estão colocados todos os ingredientes para a formação de uma “pseudocultura”, que Nietzsche irá chamar de “barbárie cultivada”.

(…) Mas como poderiam os professores realizar esta grandiosa tarefa, se eles próprios não haviam sido “iniciados” em uma cultura nobre e superior?

(…) O Estado moderno percebe que se financiar a produção e a difusão da cultura, pode utilizá-la para seus fins. A cultura passa a ser considerada útil apenas se serve aos interesses do Estado, diferentemente do que se passava na Grécia antiga quando o Estado era o “companheiro de viagem” da cultura. (…) Muitos anos depois, no período derradeiro de seus escritos, Nietzsche dirá em seu Crepúsculo dos Idolos:
“O que as “escolas superiores” alemãs sabem fazer de fato é um adestramento brutal para tornar utilizável, explorável ao serviço do Estado uma legião de jovens com uma perda de tempo tão mínima quanto possível. “Educação superior” e legião – aí está uma contradição primordial” (NIETZSCHE, 2005, p. 61).
O adestramento realizado pelas instituições de seu tempo, para Nietzsche, nada tem a ver com a verdadeira cultura. O que cada indivíduo necessita aprender para sua própria sobrevivência é importante, e as experiências que levam-no a tais aprendizados são realmente necessárias. Nietzsche não nega a necessidade de uma educação para a sobrevivência, representada nas escolas técnicas. O que enfatiza é que não há cultura sem o desligamento do “mundo das necessidades”, e que um homem que está ligado à esta luta individual pela vida não pode simplesmente dispor de tempo para alcançar a verdadeira cultura. Uma educação que se propõe como finalidade formar alguém para ocupar um cargo de funcionário ou ganhar dinheiro não pode ser chamada de educação para a cultura, mas apenas uma indicação do caminho que o indivíduo deverá percorrer para manter-se vivo (NIETZSCHE, 2004, p. 104). Trata-se de uma educação que visa a domesticação, a criação de pessoas medíocres e úteis aos ditames de seu tempo. Nietzsche contrapõe a esta domesticação um “adestramento seletivo” que leve o jovem a tornar-se senhor de seus instintos: "o produto deste adestramento não é um indivíduo fabricado em série, adaptado às condições de seu meio... mas um ser autônomo, forte, capaz de crescer a partir do acúmulo de forças deixadas pelas gerações passadas, capaz de mandar em si mesmo...alguém que se atreve a ser ele mesmo” (DIAS, 2003, p. 86).

(…)
Os grandes génios do passado também não tiveram estabelecimentos de ensino, instituições poderosas que contribuíssem com sua formação, por isso tornaram-se grandes apesar de suas épocas e não em decorrência da suposta grandiosidade delas. Assim também como os grandes mestres, segundo Nietzsche, quem estivesse disposto a lutar pela verdadeira cultura, deveria preparar-se para a resistência de seus contemporâneos; a
“resistência do mundo estúpido”, nas palavras de Goethe.
Se a educação de seu tempo esforçava-se em formar uma quantidade cada vez maior de funcionários para o Estado, pessoas comuns, consumidores de uma cultura medíocre, onde buscar uma verdadeira formação? Quem seriam os mestres e guias que mostrariam o caminho que levaria à “verdadeira cultura alemã”? Nietzsche encontra no filósofo Arthur Schopenhauer a imagem de figura modelar, um exemplo raro de pensador que havia mantido a coerência entre vida e obra, pois “o exemplo deve ser dado pela vida real e não unicamente pelos livros” (NIETZSCHE, 2004, p. 150).

(…) Os mestres ou guias são modelos a serem criativamente imitados, não no sentido de repetição de seus actos mas como “pretextos para a experimentação de si” (LAROSSA, 2002, p. 77). A educação moderna, para Nietzsche, havia substituído os verdadeiros educadores que seriam os “modelos ilustres” por “uma abstração inumana” que é a ciência (NIETZSCHE, 2004, p.145). As universidades haviam feito do ensino da ciência algo desligado da própria vida, tornando os eruditos mais preocupados com a ciência do que com a humanidade, esquecendo que sua verdadeira tarefa é “educar um homem para fazer dele um homem” (ibidem, p. 144).

(…) No entanto, são raras as pessoas que conseguem chegar a este saber; para a maioria a cultura não existe para promover o “nascimento do homem verdadeiro” e sim para satisfazer o interesse de determinados grupos. Neste sentido, Nietzsche aponta os “egoísmos” que impedem o acontecer de uma verdadeira cultura.

(…)
O egoísmo dos negociantes é centrado no uso da cultura para a obtenção de lucros: “quanto mais houver conhecimento e cultura, mais haverá necessidades, portanto, também mais produção, lucro e felicidade...” (ibidem, p. 185). Desde esta perspectiva a cultura seria a produção de uma certa inteligência comum, mediana, que formasse “o maior número possível de homens correntes, no sentido que se fala de moeda corrente”, homens dispostos a ganhar dinheiro. A cultura estaria voltada para a produção de necessidades para o consumo; deve ser rápida, para formar o mais rápido possível homens que produzem e consomem, pois no consumo está centralizada a busca da felicidade: “não se atribui ao homem senão justamente o que é preciso de cultura no interesse do lucro geral e do comércio mundial” (ibidem, p. 186).
Outro egoísmo é o do Estado, que incentiva a difusão da cultura para o maior número possível de pessoas unicamente para servir-se delas em suas instituições e usá-las como joguetes. Ele utiliza a imagem de um moinho, em que poderosas correntes de água são desviadas para fazê-lo girar. O Estado é quem constrói os diques para utilizar toda esta energia que do contrário poderia ser perigosa para sua sobrevivência.
O terceiro egoísmo é o de uma arte que poderia chamar-se “cosmética”. Através de uma espécie de arte o que se tenta é embelezar o homem moderno, ornando-o, tornando sua aparência mais atraente com a intenção de esconder seu vazio interior: “Com os detalhes exteriores, a palavra, o gesto, com a decoração, o fausto e as boas maneiras, trata-se de obrigar o espectador a uma falsa conclusão quanto ao conteúdo...” (ibidem, p. 187). Os alemães haviam se tornado, dentro desta cultura de “gentilezas com que se enfeita a vida”, como que “um material mole e disforme” pronto para qualquer manipulação (ibidem, p. 189). Esta tendência a uma cultura preocupada apenas com as belas formas teria suas origens na pressa da vida moderna, onde os homens haviam se tornado os escravos atormentados pelos três “M”: o momento, as maneiras de pensar e os modos de agir. (…) Ser culto daqui por diante significa: não se permitir observar até que ponto se é miserável e mau, feroz na ambição, insaciável na acumulação, egoísta e desavergonhado na fruição. (NIETZSCHE, 2004, p. 189-190)
Nietzsche lamenta a “superestimação do momento”, a busca pelo sucesso e pelo lucro que vêm unir-se à mediocridade da cultura alemã da época, voltada para a cópia de modelos importados e sem vida ou originalidade. A estes três poderes, três egoísmos que incentivam este tipo de cultura, Nietzsche alia o egoísmo da ciência, que “é útil apenas a si mesma, tanto quanto é nociva a seus servidores”. Diante das grandes questões humanas a ciência silencia, e faz uso da cultura apenas para o seu progresso enquanto actividade, perdida em abstracções esquece dos problemas da existência. A especialização e esta ausência de reflexão distancia suas investigações e resultados da realidade, tornando-se extremamente perigosa: “o que há de ser, em geral, a ciência, se não tem tempo para a civilização? Respondei-nos, pelo menos aqui: de onde, para onde, para que toda a ciência, se não for para levar à civilização? Ora, talvez então à barbárie! E nessa direcção vemos já a comunidade erudita pavorosamente avançada...” (…) As instituições aparentemente promotoras da cultura, no fundo nada sabem dos propósitos de uma verdadeira cultura e agem apenas segundo seus interesses. O Estado “somente a promove para promover a si mesmo”, os negociantes ao exigirem instrução e educação querem “sempre em última análise o lucro” e “aqueles que têm necessidade de formas...a única coisa clara...é que eles dizem sim a si mesmos, quando afirmam a cultura”. Os eruditos impedem com sua acção o surgimento do génio, pois a cultura para eles é apenas utilitária e os grandes homens seriam uma ameaça à sua mesquinhez.

(...)

Elenilton Neukamp, AS CRÍTICAS DO PROFESSOR NIETZSCHE À EDUCAÇÃO DE SEU TEMPO


Ler o texto na íntegra >>> aqui <<<

levantados

Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE
BALLET GULBENKIAN - Fotografia/Arquivo de ALICE VALENTE ALVES

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