A VONTADE em Schopenhauer

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No sistema de Schopenhauer, a vontade é a raiz metafísica do mundo e da conduta humana; ao mesmo tempo, a fonte de todos os sofrimentos. Sua filosofia é, assim, profundamente pessimista, pois a vontade é concebida como algo sem nenhuma meta ou finalidade, UM QUERER IRRACIONAL E INCONSCIENTE. Sendo um mal inerente à existência do homem, ela gera a dor, necessária e inevitavelmente, aquilo que se conhece como felicidade seria apenas a interrupção temporária de um processo de infelicidade e somente a lembrança de um sofrimento passado criaria a ilusão de um bem presente. Para Schopenhauer, o prazer é momento fugaz de ausência de dor e não existe satisfação durável. Todo prazer é ponto de partida de novas aspirações, sempre obstadas e sempre em luta por sua realização: “Viver é sofrer”.
Mas, apesar de todo seu profundo pessimismo, a filosofia de Schopenhauer aponta algumas vias para a suspensão da dor. Num primeiro momento, o caminho para a supressão da dor encontra-se na contemplação artística. A contemplação desinteressada das ideias seria um ato de intuição artística e permitiria a contemplação da vontade em si mesma, o que, por sua vez, conduziria ao domínio da própria vontade.
Alice ValenteNa ARTE, a relação entre a vontade e a representação inverte-se, a inteligência passa a uma posição superior e assiste à história de sua própria vontade; em outros termos, A INTELIGÊNCIA DEIXA DE SER ACTRIZ PARA SER ESPECTADORA. A actividade artística revelaria as ideias eternas através de diversos graus, passando sucessivamente pela arquitectura, escultura, pintura, poesia lírica, poesia trágica, e, finalmente, pela música. Em Schopenhauer, pela primeira vez na história da filosofia, a música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. Liberta de toda referência específica aos diversos objectos da vontade, a música poderia exprimir a Vontade em sua essência geral e indiferenciada, constituindo um meio capaz de propor a libertação do homem, em face dos diferentes aspectos assumidos pela vontade.

A Ética de Schopenhauer não está presa à noção de "dever", rejeitando assim todas as formas imperativas e coercivas assentes em quaisquer doutrinas ou mandamentos, apoiando-se antes na noção de que a contemplação da VERDADE é o caminho de acesso ao BEM. E tal como Bento Espinosa, do ponto de vista teológico, elimina Deus e substitui-o pela VONTADE superior da NATUREZA.

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16 comentários:

  1. Olá, Alice.
    Achei muito interessante este seu post sobre a filosofia de Schopenhauer. Em tempos li o livro dele "Vontade e Representação" fiquei muito impressionada. A ideia de que a vontade é algo que pré-existe à própria pessoa, que é uma espécie de força da natureza, um tropismo inexplicável é verdadeiramente interessante. Estamos habituados a pensar na vontade como algo que advém do sujeito consciente e naquilo que ele chama de vontade como eventualmente "instinto/pulsão".

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  2. O mundo não é apenas vontade e representação.Acima de tudo, é desejo. Beijos.

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  3. E o que é o desejo senão a vontade?

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  4. Uma resposta ao que escreveste não cabe num blogue! Seriam páginas e páginas porque Schopenhauer ainda não equacionava conceitos que mais tarde vieram a ser bem precisos:
    necessidade, instinto, motivação, desejo e respectiva formação e percepção.
    Limitar o acto criativo à vontade é muito justo, para não dizer amorfo de conteúdo. O que é a vontade? Donde é que ela vem? tem uma formação sensitiva, cognitiva ou ambas conjugadas?
    Talvez seja melhor partir dos actos para analisar a sua génese do que esteriotipá-los numa única e tangível causa determinante.

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  5. ...passei por aqui
    ...um beijinho

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  6. A gente também só deseja aquilo que não tem.
    Não tenho pulsão para tanto.

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  7. O ser humano é insatisfeito por natureza. Quando se satisfaz completamente, não há mais motivo para a vida: os objetivos foram alcançados. Um dos livros que mais me mostraram isso foi "O Estrangeiro", de Albert Camus. Fiquei muito mal ao ler sobre uma pessoa sem ambições pessoais, sem sentimentos. Alguém indiferente à vida.

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  8. Responderei com tempo aos comentários. Até já!
    Um abraço e muito obrigada a todos.

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  9. Alice
    O homem existe em fiunção da vontade, e a arte passa a ser a cristalização desse querer.
    Parabéns por teu trabalho!
    Josefina

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  10. Irei colocar em POST, a dar continuidade a este tema e em resposta aos comentários.
    Um abraço e muito obrigada.

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  11. Oi, Alice.
    Estou lendo Schopenhauer e acabei de ler a metafísica dos costumes de Kant.
    O que pensa sobre a crítica que Schopenhauer faz, em "sobre o fundamento da moral" `a forma imperativa da ética kantiana?

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  12. Anónimo, esta pergunta é uma daquelas que me dá imenso gosto responder, mas irei fazê-lo directamente em POST!
    Muito obrigada
    Alice Valente

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  13. Olá ANA ALMEIDA,
    Olá HENRIQUE DORIA,
    Olá CITADOR,
    Olá CARLOS ARAUJO,
    Olá JOAQUIM,
    Olá CARLOS CARRANCA e
    Olá Anónimos!
    Sobre o DESEJO e a VONTADE e em resposta a algumas perguntas aqui colocadas com ou sem dúvidas, criei o post a dor da vontade humana com o seguinte link:

    http://alisenao.blogspot.com/2006/12/dor-da-vontade-humana.html

    Um grande ABRAÇO e muito obrigada a todos!
    Alice Valente

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  14. SCHOPENHAUER é um dos maiores filósofos de sempre.

    Basta isso para serem meritórias todas as referências ao grande vulto do pensamento europeu.

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  15. OI Alice, você vê a possibilidade de substituir vontade por desejo em schopenhauer?
    Um abraço
    alberto

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  16. Olá ALBERTO!

    Gosto muito da Filosofia de Schopenhauer e da forma como define a Vontade. Mas, não se trata de modo algum de ver substituído a Vontade por Desejo. E isto porque, considero que existe uma VONTADE (que nos é exterior) e que inclui: uma má-vontade e uma boa-vontade. E em Boa-Vontade são os desejos que prevalecem com toda a inteireza e verdade. De notar que defino o DESEJO ou desejos, o que melhor existe no nosso pensamento (em interioridade) e porque associado a uma qualquer força de expoente máximo da capacidade de sentir e pensar com toda a ética e estética

    Um abraço e muito obrigada pela questão!

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