Sobre_ ALI_SE
_
► a árvore ao jardim

Mostrar mensagens com a etiqueta Arte e Cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arte e Cultura. Mostrar todas as mensagens

Corpo, arte e linguagem

«(...) As culturas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um verdadeiro código de símbolos ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão de informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da "lógica sensível" dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza das percepções; onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objectos simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo. 
(...) ... a arte é o equivalente moderno, do rito e da festa: o poeta e o romancista constroem objectos simbólicos, organismos que emitem imagens. Fazem o que faz o selvagem: convertem a linguagem em corpo. As palavras já não são coisas, e sem deixar de ser signos, se animam, ganham corpo. O músico também cria linguagens corporais, geometrias sensíveis. Ao contrário do poeta e do músico, o pintor e o escultor fazem do corpo uma linguagem. (...)»

OCTÁVIO PAZ – Conjunções e disjunções - EDITORA PERSPECTIVA

- menos -



menos - menos - menos - menos - menos - menos - menos - menos - menos - menos - menos - menos - menos

http://www.bernardosassetti.com/

.




N' O Silêncio dos Poetas em Alberto Pimenta


(…)

Esteticidade e comunicação

Quem com efeito busca conhecimento concreto, quem não se contenta com ver a «realidade» apenas reflectida no espelho dos símbolos consensuais, forçosamente considera que o espelho é um obstáculo e dificilmente um caminho. Sendo assim, o grau de esteticidade de uma obra de arte literária está também na proporção inversa de seu compromisso com os símbolos apriorísticos, isto é, na proporção inversa da sua aceitação da «realidade» presente (consensual) nos ditos símbolos.

Resulta daqui que quanto maior é a esteticidade, tanto menor é o grau de comunicação desta arte e, por conseguinte, tanto menor é a sua aceitação por parte do público, o qual não costuma dispor-se facilmente a abandonar a harmonia simbólica pré-estabelecida do seu conhecimento. Sucede então o que Bourdieu define assim:
«É por isso que os observadores menos cultos das nossas sociedades têm tanto a tendência de exigir uma “representação realista”; como não dispõem das categorias específicas de apreensão, aplicam às obras de arte conhecidas a mesma chave que lhes serve para atribuir um sentido aos objectos da vida cotidiana»
A representação realista trivial, mesmo nos casos em que assume o carácter de realidade imaginária (lendária ou utópica), é sempre uma representação comprometida com os símbolos de apriorismo e, deste modo, com a ideologia. (…) A arte que se organiza com os símbolos a priori é uma arte ideologicamente comprometida, cuja intenção é afirmar certa posição ideológica e negar outra. (…)


Estética e ideologia

A arte esteticamente emancipada está com efeito fora de qualquer ideologia. Na verdade, ao nosso nível de consciência, uma arte esteticamente emancipada não pode deixar de ser o silêncio, uma forma qualquer de silêncio, mesmo daquele silêncio que fala.
(…)  

ALBERTO PIMENTA, «O Silêncio dos Poetas», Edições Cotovia, 2003


Facebook e a cultura

O Facebook enquanto rede social, tem o direito de nos usar para ganhar dinheiro com isso, nas tão habituais e afins publicidades que todos nós conhecemos, e em modas de produtos e mais produtos levados aos desregrados interesses por um atroz consumismo das actuais economias de mercado, e nós que enfim, o permitimos, reserva-nos talvez uma das poucas compensações no único dos direitos que a internet nos pode para já, oferecer de melhor, e que é a possibilidade de divulgação ou no de dar a conhecer o que está acontecer e a fazer-se, no que diz respeito às áreas do Cultura, do Pensamento, das Artes e das novas formas de bem nos relacionarmos com o Ambiente! 

Assim se for restringida essa opção de estar, de comunicar e aprender com os amigos e conhecidos sem ser por essa via de saber o que de melhor eles conhecem e fazem culturalmente, de que interessa a rede social do Facebook ou outras? Para nada! Para isso fica-se então, somente com a televisão, assistindo e aceitando o que é de interesse para quem manipula e faz a notícia ou a publicidade e em que exemplar glamour de vidinhas, para o enriquecimento do nada de nada, à pura distracção e ao vazio em nota máxima da futilidade à construção e contribuição para mais e mais pobreza pelo mundo fora, é isso!

E porque nos bens culturais, a procura, cada qual a sabe fazer por si. E nos comerciais o produto oferece-se por si numa obrigatoriedade ao seu consumo de uma forma modelar e em cadeia. Ou seja, os bens culturais não procuram clientela, nem agradar às pessoas que os procuram, ou há  sensibilidade na identificação ou não, da parte de quem pretende aprender, fruir ou a enriquecer-se interiormente, é preciso é esses bens estarem expostos e em sua divulgação. Ao passo que os produtos comerciais só vingam porque existe a publicidade que manipula e incita à sua compra através da imensidão de técnicas de marketing, relevando pois, para a posse e na  aparência da riqueza de se ter.

E apesar de ainda não ouvir falar acerca da abordagem desta ideia, reparem que afinal, o sucesso do Facebook, deve-se a essa maravilhosa possibilidade de comunicação através dos bens culturais ou na viável e saudável sociabilização com as variadíssimas vertentes das artes e do que é artístico. E sobre o que se pode falar e suscitar desenvolvimento e capacidades de enriquecimento interior, temos como exemplo: uma música, um poema, um pensamento, uma imagem pictórica, uma imagem fotográfica, um apontamento de obra literária, uma ideia, uma notícia ou um vídeo (divulgando um excerto de uma peça de teatro, de dança, de música ou uma performance...), enfim uma imensidão de possibilidades para nos conhecermos a nos valorizarmos uns aos outros com o objectivo de sermos melhores, humanamente. 

Ministério da Cultura faz-se às 'obras' de betão !


Notícia do PÚBLICO no dia 25 Junho 2010
(...)
Uma das iniciativas que se podia pensar cair: o Museu dos Coches, que, face à situação dos museus existentes, foi dado como um “esbanjamento” quando anunciado pelo seu antecessor, José António Pinto Ribeiro.
Temos dito até à exaustão que o Museu dos Coches não é pago pelo MC e sim pelas contrapartidas do Casino. Temos custo zero relativamente ao Museu dos Coches.

As do Casino, não são verbas que se poderiam ser alocar a outros projectos?
Não. Nem passam pelo MC. São como o [Teatro Nacional de] São Carlos, o Dona Maria, o São João. São verbas que vêm do Ministério das Finanças.

A transferência do Museu Nacional de Arqueologia é outro caso.
Esse faz parte do nosso orçamento. As verbas para os estudos que estão a ser feitos são nossa responsabilidade. E não serão afectadas a ponto de não podermos prosseguir na fase em que estão agora.
(...)
*

Cenário dramático? O drama faz-se segundo as conveniências! Vejam lá se as grandes obras arquitectónicas vão ser afectadas? Não! Já assim foi com os agigantados estádios de futebol construídos em 2004 em tempo recorde e a justificarem sempre que seria benéfico para a Economia e para o Turismo... está à vista no que deu! Dinheiro mal gasto em dinheiro desviado de todos os ministérios e da cultura também, para agigantadas construções de mais e mais 'elefantes brancos', que só nos têm encaminhado para onde? Para a miséria!
Mas ainda insistem que assim tem de ser! E ainda tentam continuar a atirar areia para os olhos de toda a gente! Qual cenário dramático, qual quê ? ? ?

Não se justifica existirem instituições e em seus responsáveis a receberem avultados quantias e a não saberem gerir as verbas para as quais são destinadas. E a não exercerem assim, devidamente as funções para as quais essas mesmas instituições foram edificadas.

Então, que se extinga o Ministério da Cultura de uma vez por todas e com ele também o Ministério da Educação e que só exista então os tais Ministérios de Turismo, das Economias, da Finanças e Obras Públicas e em vidas fáceis de uns quantos a se fazerem a muitos e demais jogos em casinos  e às tais obras de betão, na empobrecida e miserável 'vida boa' para toda a vida .  

E depois ? ! 



Aclamar o pôr fim


José Saramago morreu hoje em sua casa, na ilha espanhola de Lanzarote ...


*
À entrada estão os levitas à espera dos que vêm oferecer sacrifícios, porém neste lugar a atmosfera será tudo menos piedosa, salvo se a piedade era então compreendida doutra maneira, não só é o cheiro e o fumo das gorduras estorricadas, do sangue fresco, do incenso, é também o vozear dos homens, os berros, os balidos, os mugidos dos animais que esperam vez no matadouro, o último e áspero grasnido duma ave que antes soubera cantar. Maria diz ao levita que os atendeu que vem para a purificação e José entrega as rolas. Por um momento, Maria pousa as mãos sobre as avezinhas, será o seu único gesto, e logo o levita e o marido se afastam e desaparecem atrás da porta. Não se moverá Maria dali até que José regresse, apenas se aparta a um lado para não obstruir a passagem, e, com o filho nos braços,espera.
Lá dentro é uma forja, um talho e um matadouro. Em cima de duas grandes mesas de pedra preparam-se as vítimas de maiores dimensões, os bois e os vitelos, sobretudo, mas também carneiros e ovelhas, cabras e bodes. Perto das mesas encontram-se uns altos pilares onde se dependuram, em ganchos chumbados na pedra, as carcaças das reses, e vê-se a frenética actividade do arsenal dos açougues, as facas, os cutelos, os machados, os serrotes, a atmosfera está carregada dos fumos da lenha e dos coiratos queimados, de vapor de sangue e de suor, uma alma qualquer, que nem precisará de ser santa, das vulgares, terá dificuldade em entender como poderá Deus sentir-se feliz em meio de tal carnificina, sendo como diz que é, pai comum dos homens e das bestas. 
(...)


Desenho de ALICE VALENTE

(...) 
Imaginava a horrível matança, os soldados entrando nas casas e rebuscando os berços, as espadas golpeando ou cravando-se nos tenros corpinhos descobertos, as mães em loucos gritos, os pais bramindo como touros acorrentados, e imaginava-se a si próprio também, numa cova que nunca vira...
(...)
Quando Maria desapareceu na fundura cinzenta de um vale, Jesus, de joelhos, gritou, e todo o seu corpo lhe ardia como se estivesse a suar sangue, Pai, meu pai, porque me abandonaste, que isto era o que o pobre rapaz sentia, abandono, desespero, a solidão infinda de um outro deserto, nem pai, nem mãe, nem irmãos, um caminho de mortos principiado. De longe, sentado, no meio das ovelhas e confundido com elas, o pastor olhava-o. 
(...)

JOSÉ SARAMAGO - Excertos do Livro: O Evangelho segundo Jesus Cristo


Criação Artística e os conceitos usurpados à Arte na Criação

O roubo e a falsificação de vários conceitos das áreas do artístico, tais como «criatividade», «criação» ou «criação artística» e até «estética» tem sido feita ao mais alto nível da manipulação psicológica, tanto pelas economias e em suas empresas, como pelas políticas e em seus governos, e ainda pelos produtores de uma nova indústria de cara lavada ao que é cultural. Será então que teremos de dividir a criatividade em duas partes? Talvez, em criatividade artística por um lado e em criatividade inventiva por outro, para assim nos entendermos melhor?

E até já se fala, muito normalmente de criatividade, como de competitividade se se tratasse. É possível, desde quando? É que os produtores das proveitosas e económicas ideias que pretendem que nas empresas não se gere estagnação produtiva devido às rotinas das respectivas tarefas e em seu cansaço ou desmotivação psicológica, inventaram, claro está, a criatividade competitiva, é interessante, não é? Talvez uma boa forma de remediar o que não tem remédio, que é produzir mais e mais, negligenciando o desenvolvimento do intelecto no fazer através de sensibilidades, gerando luta ou lutas com tudo e com todos e até claro está numa guerra psicológica com os respectivos parceiros de carteira, colegas de trabalho, amigos e até familiares. Uma muito pouco salutar forma de se viver e trabalhar a arranjar riqueza, pelo inevitável resultado que daí advirá e com ele o gerir o tal empobrecimento interior.

E por isso se confunde invenção com criação e criação com produção, novo com novidade, e criatividade para muitos até é competitividade, enfim palavras que são postas num mesmo saco e por isso sinónimos tão convincentemente convenientes uns dos outros, e porque até é assim que se lê ou que interessa ler em muitos dicionários. E a tal «estética» que se comercializa por aí, nessa evidente beleza do que é a sedutora exterioridade da vida ou ainda como que a única razão em moda de vidas?

Mas usurpando à arte os seus conceitos, nem tudo lhe poderá ser roubado, afinal qual o significado da Criação para a Arte ou seja, o que é a Criação Artística?

E exactamente porque a sedução oculta ou falseia a aptidão ou capacidade de pensar e em capacidade de pensar, que por sua vez será sempre pertença da beleza artística. Por isso a beleza artística, jamais se reconhece na sedução. Assim a criação ou criação artística é uma acção ou dinâmica completamente inexplicável e que espontaneamente faz irromper o ser do nada, a diferenciar-se do trabalho, da técnica ou da produção. Embora se queira associar estes processos do ressurgimento do nada na arte e no que é artístico como afronta às leis da natureza e dando-lhes um sentido do teológico ou transcendental, não creio que seja esse a via louvável para o seu entendimento.

É que nestas vias, ainda há um longo caminho, a percorrer… E lá iremos!

Pensamento orgânico

... aquilo que distingue um corpo não orgânico de um corpo vivo é que o primeiro é delimitado de fora, é do exterior que ele recebe seu impulso. O corpo orgânico, por sua vez, encontra em si mesmo a sua própria forma, é de dentro que ele extrai seu dinamismo, que ele é chamado a crescer e se desenvolver. Possui, de certa maneira forças inatas que são causa e efeito de sua própria vida. É bem disto que se trata: a organicidade remete para o vivente e para as forças que o animam. Isto pode ser compreendido de um modo bastante simples: o próprio da separação, aquilo que se fragmenta é sempre, potencialmente mortífero, enquanto que o que vive tende a se reunir, a conjugar os elementos díspares. É quando o conjunto todo se sustenta que há vida.
(...) 
... Assim, para retomar, em substância, os filósofos medievais, a corrupção de um ser é a degenerescência de um outro, aquilo que é informe consegue gerar uma forma nova, pode-se até dizer que a passagem pelo informe garante o jorrar e a estabilização de uma forma mais pura. Tudo isso pode parecer bem místico, mas a sistémica contemporânea não diz outra coisa, ao mostrar a reversibilidade do funcionamento e do disfuncionamento. Trata-se aí de uma lei imperial da natureza que o positivismo da modernidade tinha conseguido apagar, mas que como toda a estrutura antropológica, ressurge sem falta quando o simples causalismo se satura. Em suma, agora que as entidades homogéneas e gerais perdem seu poder de atracção, convém estar atento, por um lado, à complementaridade dos fragmentos, e, por outro, ao facto de que conseguem aglomerar-se, de um modo flexível, em rede, em vastos conjuntos no interior dos quais respondem uns aos outros. Um processo assim é perceptível na ordem das instituições em geral, do político em particular, mas, igualmente, no plano do quotidiano, nas organizações económicas, na vida associativa, e nas estâncias estatais.

Isto posto, foram certamente os poetas e os romancistas que, além dos filósofos, pressentiram aquilo que a ciência contemporânea está descobrindo de uma nova maneira. Há, é claro, o famoso quarteto de Baudelaire, que não é inútil recordar:
"Como longos ecos que ao longe se fundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade
Perfumes e cores e sons se respondem".
Assim se exprime aquela unidade subterrânea que pode, à primeira vista, escapar a uma simples concepção racionalista do mundo: os processos de interdependência. Processos que observamos cada vez mais na economia, na política e no social. Há um princípio formal que funde essa unidade. Um princípio que se torna mais necessário à medida que o mundo vai sendo tendencialmente levado a desagregar-se. Walter Benjamin, por exemplo, comentando alguns poemas de Hölderlin, lembra que é o poeta que dá, ou restitui sua força de agregação a um mundo desmembrado. O cuidado com a forma que se observa na poesia, é um símbolo de uma exigência tal. É por isso, aliás, que esta une intimamente o plástico e o espiritual.

Tal vínculo não é neutro, indica bem a organicidade existente entre o corpo e o espírito, a natureza e a cultura, o material e o imaterial. Assim, o mundo das formas, o mundo da forma, apanágio do poeta, não faz mais do que cristalizar o que se poderia chamar de desejo de unicidade que anima todas as coisas. Para além da fragmentação, inerente à vida mundana, há uma aspiração à convergência que a exigência poética personifica com perfeição...
(...)

MICHEL MAFFESOLI - ELOGIO DA RAZÃO SENSÍVEL – Editora Vozes

A vida como obra de arte

- Naquilo a que chama os "modos de existência" e a que Foucault chamava "estilos de vida", há uma estética da vida, como nos lembrou: a vida como obra de arte. Mas há também uma ética!


- Sim, a constituição dos modos de existência ou dos estilos de vida não é apenas estética, é aquilo a que Foucault chama a ética, por oposição à moral. A diferença é a seguinte: a moral apresenta-se como um conjunto de regras coercivas de um tipo especial, que consiste em julgar acções e intenções referindo-as a valores transcendentes (é bem, é mal...); a ética é um conjunto de regras facultativas que avaliam aquilo que fazemos, aquilo que dizemos, segundo o modo de existência que isso implica. Dizemos isto, fazemos aquilo: que modo de existência implica isso? Há coisas que não podem fazer-se ou dizer-se senão à força de baixeza de alma, de vida cheia de ódio ou de vingança contra a vida. Por vezes um gesto ou uma palavra bastam. São estilos de vida, sempre implicados, que nos constituem como tal ou tal. Era já esta a ideia do "modo" em Espinosa. E não a encontraremos presente desde a primeira filosofia de Foucault - o que é somos "capazes" de ver, e de dizer (no sentido de enunciado)? Mas, se há aqui toda uma ética, trata-se também de uma questão de estética. 
(...)
GILLES DELEUZE , Conversações 1990, Fim de Século Edições, 2003

O que é a POESIA ...

OS SIGNOS EM ROTAÇÃO

(...) Uma sociedade sem poesia careceria de linguagem: todos diriam a mesma coisa ou ninguém falaria, sociedade transumana em que todos seriam um ou cada um seria um todo auto-suficiente. Uma poesia sem sociedade seria um poema sem autor, sem leitor e, a rigor, sem palavras. Condenados a uma perpétua conjunção que se resolve em instantânea discórdia, os dois termos buscam uma conversação mútua. Transformação da sociedade em comunidade criadora, em poema vivo: e do poema em vida social, em imagem encarnada. (...)

A CONSAGRAÇÃO DO INSTANTE
(...) As palavras do poeta, justamente por serem palavras, são suas e alheias. Por outro lado, são anteriores a toda a data: são um começo absoluto. Sem o conjunto de circunstâncias a que chamamos Grécia nem existiriam a Ilíada nem a Odisseia; mas sem esses poemas tampouco teria existido a realidade histórica que foi a Grécia. O poema é um tecido de palavras perfeitamente datáveis e um acto anterior a todas as datas; o acto original com que principia toda história social ou individual; expressão de uma sociedade e, simultaneamente, fundamento dessa sociedade, condição de sua existência. Sem palavra comum não há poema; sem palavra poética tampouco há sociedade, Estado, Igreja ou comunidade alguma. A palavra poética é histórica em dois sentidos complementares, inseparáveis e contraditórios: no de constituir um produto social e no de ser uma condição prévia à existência de toda a sociedade. (...)

O VERBO DESENCARNADO
(...) Os "poetas malditos" não são uma criação do romantismo: são o fruto de uma sociedade que expulsa aquilo que não pode assimilar. A poesia nem ilumina nem diverte ao burguês. Por isso desterra o poeta e transforma-o em um parasita ou um vagabundo. Daí também que os poetas não vivam, pela primeira vez na história de seu trabalho. Seu labor não vale nada e este não vale nada traduz-se precisamente em um não ganhar nada. O poeta deve buscar outra ocupação - desde diplomacia até o roubo - ou perecer de fome. (...)
(...) A poesia não tem cotações, não é um valor que pode transformar-se em dinheiro (...)

(...) Com a mesma decisão do pensamento filosófico a poesia tenta fundar a palavra poética no próprio homem. O poeta não vê em suas imagens a revelação de um poder estranho. À diferença das Sagradas escrituras, a escritura poética é a revelação de si mesmo que o homem se faz de si mesmo. Desta circunstância procede o facto de que poesia moderna ser também teoria da poesia. Movido pela necessidade de fundar sua actividade em princípios qe a filosofia lhe recusa e que a teologia só lhe concede em parte, o poeta desdobra-se em crítico. (...)

(...) A missão do poeta consiste em ser voz desse movimento que diz "Não" a Deus e a seus hierarcas e "Sim aos homens. As Escrituras do mundo novo serão as palavras do poeta revelando um homem livre de deuses e senhores, sem intermediários diante da vida e da morte. A sociedade revolucionária é inseparável da sociedade fundada na palavra poética. (...)

(...) A missão do poeta é restabelecer a palavra original desviada pelos sacerdotes e pelos filósofos. "As prisões são construídas com as pedras da Lei"; os bordéis com os ladrilhos da Religião. (...) Mas a sociedade que a palavra do poeta profetiza não pode confundir-se com a utopia política. A razão cria cárceres mais escuros que a teologia. O inimigo do homem se chama Urizel (a Razão), o "deus dos sistemas", o prisioneiro de si mesmo. A verdade não procede da razão e sim da percepção poética, isto é, da imaginação. O orgão natural do conhecimento não são os sentidos nem o raciocínio; ambos são limitados e na verdade contrários à nossa essência última, que é desejo infinito: "Menos do que tudo não pode satisfazer o homem". O homem é imaginação e desejo: (...) Por obra da imaginação o homem sacia o seu infinito desejo e converte-se ele mesmo em um ser infinito. (...)

A BUSCA DO INÍCIO
(...) O homem é criador de maravilhas, é poeta, porque é um ser inocente. As crianças, as mulheres, os enamorados, os inspirados e mesmo os loucos são a encarnação do maravilhoso. Tudo o que fazem é insólito e não o sabem. Não sabem o que fazem: são irresponsáveis, inocentes. Ímans, pára-raios, cabos de alta tensão: suas palavras e seus actos são insensatos e, não obstante, possuem sentidos. São os signos dispersos de uma linguagem em perpétuo movimento e que desdobra diante de nossos olhos um leque de significados contraditórios - resolvido, por fim, em um sentido único e último. Através deles e neles o universo nos fala e fala consigo mesmo. (...)








Os apossados da arte a transformá-la em não-arte

Ou a desvirtualização da Arte:

A partir das intituladas obras de Duchamp, começou a afirmar-se:
«em arte pode fazer-se não importa o quê; qualquer objecto é uma obra de arte»

Quer isto dizer, muito simplesmente que:
E tal como acontece em política, se se der condições para se ser o eleito enquanto presumível "artista" na fabricação de uma qualquer suposta obra ou em que feito de espectacular efeito, tudo é possível vir a acontecer para que alguém se torne o tal "artista" de eleição.

E como outro exemplo, temos: Bruce Nauman na sua de obra de 1965 com o título: «o verdadeiro artista ajuda o mundo a revelar verdades místicas».
E é sobre a questão colocada por Nauman, no que é que é ser-se artista, que se lhe apresentou no início da sua carreira, e talvez numa qualquer justificação enquanto fabricante de objectos não-utilitários, que se iniciou com este trabalho, que só a frase e na suposta obra tida de arte, se traduz imediatamente do que poderá ser uma não-arte. É que para o próprio autor, esta afirmação tida de obra é o próprio desvirtuar da obra em si, como uma piada ou gozo, a ser vista publicamente em forma de anúncio de rua, mas rotulada de obra de arte. É pois a gozação da arte em seu pleno esplendor, e podemos continuar por aí fora, com o que se tem feito nesse mesmo desvirtuar das artes, até aos nossos dias. Em que agora já só ficam os ricos nomes e em seus autores, e a lembrar o ridículo da coisa, porque as obras, essas de uma nova arte são transformadas em não-arte ou coisas guardadas em museus. E tal como o que diz respeito ao que é político e económico, já todo um público ou sociedade em geral, se habituou ou se tornou de certa forma, condescendente e compreensivo para o que se está a fazer com a arte e as artes, no serem dia após dia, completamente desvirtuadas ou transformadas em não-arte.

Temos efectivamente um enorme problema em mãos:
Afinal se assim é nesta possibilidade de tornar em moda ou em eleição de uma nova arte em não-arte. Para que serve afinal o Ensinar ou uma Escola ou depois uma Faculdade de Artes? Para se conseguir efectivamente desvirtuar cada vez mais o próprio sentido da vida, pondo de lado esses mesmos valores da vida e em sua ética e estética, e que sempre fizeram parte das Artes e do que é Artístico?

E porque na animosidade categórica da arte para quem a desvirtua, a fazer arte dando-lhe uma dinâmica de não-arte, é uma forma bastante mercantilista ou freudiana de se ser artista.

Agora vejamos:
Ao se assistir ao que se vai dizendo por aí em palavras e mais palavras ou tanto palavreado de professores, especialistas ou artistas-congressistas, numa qualquer revelação desse novo fenómeno do que é a não-arte e em qual sua função efectiva, retomemos então a questão: que interessa ou o que se levou desse momentos presenciados? Quanto a mim e ao que me é dado assistir, nada de nada! Dá-nos mais a ideia, de que algo terá de surgir a desvelar essa fraude, senão para já, talvez só até todos se fartarem de tamanho logro, a ainda continuarmos mais uns tempos a presenciar esta ridicularidade de se fazer arte, tão demonstrativa quanto ilustrativa do que é esta nova moda e em seus designers tidos de artistas, a decorar salas, galerias e em quantos mais museus e por que afins.

E claro está, quem está ou irá beneficiar com tudo isto?
As novas e já tão generalizáveis e interessantes profissões que por aí reinam: arte-terapia, musico-terapia, cinema-terapia, pintura-terapia, drama-terapia, dança-terapia e por aí fora e depois também sei lá que tal: poesia-terapia e porque não também: escrita-terapia, enfim... e mais terapêuticas invencionices virão... de se ensinar arte através de uma qualquer curativa ou estimulante auto-ajuda, agora muito em moda e até muito presente para os que se fazem à vida, pelas vias do que é psicológico nas suas psicanalíticas e freudianas de tão desgarradas ideias e em quais ensinadores de uma nova escola do que virá a ser a futura Educação Artística. È uma piada, dá vontade de rir e num abanar a cabeça, pois...!

O que quererá então dizer tudo isto?
Que no futuro, seremos todos doentes e aprendizes a precisar de uma qualquer obrigatória terapia muito bem roubada às artes, mas note-se bem: já sem artes e sem artistas. Esses já deixaram de ser precisos há muito tempo. Agora só mesmo os tais "artistas" ou eleitos e em que eleição, fabricados aqui além e acolá, para ensinar essa tal arte, e em quais escolas de novos e oportunos professorados ou dos que se fizeram à quantidade negociável das decorativas e performativas ideias de uma não-arte!
E por aí, satisfeitos ou contentinhos, necessariamente contributivos para esta interessante era de consumismos estabilizadores do que é a psicológica via de se ser com tudo nos seus eixos devidos, dos eleitos e em seus eleitores.
E depois como será com os tais, mais que defraudados das muitas curandices e em que curadorias. Logo se verá!

E a aguardar pelo que virá:
Assim, aqui estamos nós a assistir com toda a naturalidade à manipulação, deturpação e uso das artes de forma a serem desvirtuadas por completo. Até quando?
E com o avalo do Ministério da Educação e em seus entendidos especialistas e em que já pouco faltou para se vir a prescindir do Ensino do que é Artístico. Ou seja está-se no bom caminho do negócio de se ensinar forçosamente a usar as artes (e depois também com a ajuda do Ministério da Cultura) de uma forma enviesada no nada de nada para se aprender, porque o que pretenderá vir a ser ensinado pelos seus apossadores ou nos que nada sabem da prática do que são as artes e do que é Artístico mas porque cursados de um nome para esse mesmo fim, a tornarem-se como tal os eleitos para um ensino de artes a fingir e do faz-de-conta.
É que estas vias enviesadas de se usar a Arte é afinal ficarmo-nos só pelo que é a sensibilização sem vivenciar ou praticar, é isso que se pretende? Parece-me que sim!
E por isso aí temos nós em Portugal o bom exemplo da actual estado da Dança. Aos que se formam em Dança: o andarem para aí todos a ensinar qualquer coisinha ou como se de um desporto se tratasse ou então através de uma corporalidade e em que terapêuticas e sagazes ideias de aniquilar por completo a Dança enquanto Arte. É ridículo o que está a acontecer em prol de se ganhar muito dinheirinho já já e agora e a deixar-se promiscuir as Artes e o que é Artístico.

Links relacionados:
Desvirtuar a Arte - um processo sem regresso?
A arte, a não-arte, os artistas e os especialistas


Links relacionados em ALI_SE:
o óbvio e a ARTE


A técnica da fabricação de lixo em grande escala


A relação da realidade para com o equilíbrio da forma artística, enquanto pensamento e acção, deverá sempre mover-se de dentro para fora e porque em sua inversão existe o design, que se move técnica e insistentemente de fora para dentro, e porque pertença da repetição, da cópia e do igual a ser arquitectado em enormes quantidades a serem consumidas, jamais poderá ser considerado de arte.
O design, a arquitectura e as tecnologias, todos juntos e em sua imperiosa efectivação estão-se a tornar num dos maiores erros para com o que é humano. E tudo isto deve-se ao descontrole que essa mesma técnica está a provocar na construção de novas e alucinantes sociedades assentes em economias de uma globalidade super consumista, embora claro está que os seus fabricantes nos tentem ainda, fazer crer em seu contrário. O publicitário e abusivo fascínio de uma aparatosa sedução em que está inserido qualquer forma de design e pelas evidências ao que de monstruoso e desumano já está a provocar, ir-se-á tornar muito em breve, aos nossos olhos ou aos olhos de todos e sem excepção, como algo de completamente repelente.
Não existe absolutamente nenhum controlo (ambiental, político, económico ou ético) sobre a produção e a fabricação deste novo lixo das muitas e bonitinhas enormidades, tanto decorativas, ornamentais e até nos novos e agigantados biblots arquitectónicos, numa espécie de lixo que é feito em grande escala. Em escala essa que em si mesma, tornada lixo e que por sua vez em lixo esse que se faz, para ser deitado todos os dias para debaixo de um qualquer tapete e ainda em tapete esse que por sinal, está já a tornar-se assustadoramente montanhoso.

Arte e ciência ou o papel da imaginação

Há dois tipos de investigadores: uns para a ciência normal, outros para a ciência revolucionária. Nos períodos normais (no âmbito de um paradigma, digamos), são precisos investigadores que trabalham eficazmente para controlar todos os instrumentos técnicos e eles são «mestres artesãos». Hoje em dia, 95% dos investigadores da teoria das cordas são mestres artesãos. São sempre os melhores alunos de matemática e física, da licenciatura à tese de doutoramento, aqueles que são capazes de resolver os problemas matemáticos mais depressa e melhor do que os outros.
Mas nos períodos revolucionários são precisos visionários. Einstein foi um deles, tal como Neils Bohr. Kepler e Newton são exemplos raros de acumulação de ambas as qualidades. Os visionários decidem fazer ciência porque se colocam questões a que os seus manuais não respondem. Se não se tivessem tornado cientistas, poderiam ter sido pintores, escritores ou músicos. E, na verdade, há muitas semelhanças entre a criatividade artística e a criatividade científica.
Lembrarei apenas algumas famosas afirmações de Einstein.

«A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. Na imaginação cabe todo o mundo». Ou ainda:
«O Homem procura construir para si próprio uma imagem simplificada e inteligível do mundo; depois procura, até certo ponto, substituir o mundo da experiência por este seu cosmos, e assim superar o primeiro. É isto que fazem o pintor, o poeta, o filósofo especulativo e os cientistas naturais, cada um à sua maneira».

JEAN-PIERRE LUMINET - A CIÊNCIA TERÁ LIMITES? - FCG - Gradiva


Vejo a descoberta do HAR1 como um acontecimento seminal na história da ciência, marcando o começo de uma nova compreensão da evolução e da natureza humana, como um grande passo ao encontro da realização do sonho descrito em 1929 por Desmond Bernal, um dos pioneiros da biologia molecular, no seu pequeno Livro «The World, the Flesh and the Devil: Na Enquiry into the Future of the Three Enemies of the Rational Soul» (O Mundo, a Carne e o Diabo: Um Inquérito ao Futuro dos Três Inimigos da Alma Racional). Bernal encarava a ciência como a nossa melhor ferramenta para derrotar os três inimigos. O primeiro inimigo é o Mundo, significando as cheias, as secas, a fome e as alterações climáticas. O segundo inimigo é a Carne, significando as doenças infecciosas e as enfermidades senis. O terceiro inimigo é o Diabo, significando as paixões negras e irracionais que conduzem seres, à parte isso racionais, para o conflito e a destruição. Sou optimista quanto ao futuro porque vejo o HAR1 como nova ferramenta que nos conduz a uma compreensão profunda da natureza e à derrota final do nosso último inimigo.
(Sobre o que é o HAR1: ) Há apenas um ano, foi feita uma descoberta seminal por David Haussler e a sua equipa da Universidade da Califórnia, Santa Cruz. Na minha opinião, esta descoberta é uma chave importante para o mistério da mente humana. Foi publicada na revista «Nature» em Setembro de 2006. Haussler e os seus colegas compararam os genomas de diferentes espécies: ratinho, rato, galinha, chimpanzé e humano. Encontraram um pequeno pedaço de ADN em todos estes genomas a que chamaram HAR1, abreviatura para para Região Humana Acelerada 1. Este fragmento parece estar estritamente conservado nos genomas de ratinho, rato, galinha e chimpanzé, o que significa que deve ter tido uma função essencial que se manteve inalterada durante cerca de trezentos milhões de anos, desde o último ancestral comum entre as aves e os mamíferos até hoje. Mas o mesmo fragmento aparece bastante modificado, com dezoito mutações, no genoma humano, o que significa que deve ter alterado a sua função nos últimos seis milhões de anos, desde o ancestral comum entre chimpanzés e humanos até aos humanos modernos.
De algum modo, aquele pequeno fragmento de ADN expressa uma diferença essencial entre os humanos e os outros mamíferos. Conhecemos outros dois factos significativos sobre o HAR1. Primeiro, não codifica uma proteína, mas codifica ARN. Isso significa que não é em si próprio um gene, mas uma espécie de organizador controlando a acção de muitos genes. Segundo, o ARN que codifica está activo no córtex do cérebro embrionário humano durante o segundo trimestre de gravidez, quando a arquitectura básica do córtex está em construção. É provável que a rápida evolução do HAR1 tenha alguma a ver com a rápida evolução do cérebro humano durante os últimos seis milhões de anos. E a rápida evolução do córtex provavelmente proporcionou a base para a emergência da mente humana.

FREEMAN DYSON - A CIÊNCIA TERÁ LIMITES? - FCG - Gradiva

Crenças, Religiões e Poderes



CRENÇAS, RELIGIÕES E PODERES
Dos Indivíduos às Sociabilidades
Obra colectiva, multivocal, diversificada, é resultante da 11ª mesa-redonda de Primavera realizada na Faculdade de Letras do Porto em 22 e 23 de Março de 2007. Nela, autores de formações e actividades muito diferenciadas procuram pensar as relações entre as crenças, as religiões e os poderes... três âmbitos evidentemente vastíssimos, abertos a uma multiplicidade de interpretações e perspectivas, sobre os quais cada um apresenta um contributo resultante da sua investigação e reflexão. É essa variedade que faz a riqueza desta obra, onde participam também investigadores estrangeiros, e na qual foi dada aos intervenientes a liberdade de optarem por um tema de sua eleição. Este livro prolonga o prazer daqueles dois dias de exposições e debates livres, e procura estendê-lo a todos os leitores. Cada texto constitui uma espécie de "aperitivo" para, consoante o interesse de cada um, o desenvolvimento de questões que vão da filosofia à história, da sociologia à arqueologia, da religião à educação (entre outros campos), mas que interessarão também genericamente no que em todos eles se anuncia de perspectivas sugestivas em torno de questões tão "quentes" e actuais como são as dos poderes, por vezes tão subtis e difusos, e das variadas formas da crença, tanto as formalizadas e públicas como as que residem na intimidade de cada um de nós. Um diálogo tanto quanto possível aberto, que visa criar uma "ecologia" de um saber que não pretende ser académico e sistemático, mas rigoroso e aberto à inquietação.


CONVITE 29JAN2009-18h30-PORTO doc_pdf

As Edições Afrontamento, Porto, promovem a APRESENTAÇÃO pública do LIVRO:
"Crenças, Religiões e Poderes", no dia 29 Janeiro 2009, às 18h30
na Livraria Leitura /Books & Living, do Centro Comercial Cidade do PORTO
(junto ao Mercado do Bom Sucesso, a 5 minutos da Faculdade de Letras da UP)

A apresentação estará a cargo do Prof. Doutor Paulo Tunhas, filósofo, da Universidade Fernando Pessoa e da Faculdade de Letras do Porto.

Estarão presentes também, além dos editores e dos coordenadores da obra (Prof. Doutor Vítor Oliveira Jorge e Prof. Doutor José Maria Costa Macedo, da FLUP), os autores.

A sessão é aberta a todos os interessados.

Neste livro sou autora do texto com o título: «Crenças e poder - do dever em não devir»




MANOEL DE OLIVEIRA - o maior cineasta do mundo faz hoje 100 anos


É muito fácil explicar por que é que ele é o maior cineasta do mundo,
diz Bonnaud,
O cinema, mesmo quando é um grande cinema feito pelos maiores cineastas, obedece a um certo número de regras que são intocáveis. O que é fascinante em Oliveira é que ele não respeita regra nenhuma. É alguém que opera quase como se não tivesse havido cinema antes dele – é preciso inventar ou reinventar tudo. É como um primitivo italiano que tem de inventar a pintura porque ela não existe antes dele ou como Jean Dubuffet ou Picasso, que não se contentam com os códigos da pintura, mas que a querem reinventar o tempo todo.


E pelo EL GRECO, aquele que é para mim o maior pintor de sempre, e depois pelo MANOEL DE OLIVEIRA, o maior cineasta do mundo e que hoje faz hoje 100 anos, os meus parabéns!
E pela vida, pela obra e pela artes, deixo-vos com estas palavras pertinentes de Carlos Vidal no blogue 5dias:

(...) De resto, esta coisa das artes serem divulgadas como chocolates ou automóveis, é um disparate gigantesco. Sempre achei que as artes têm pouco a ver com democracia ou democratização vulgar. A expressão “democratização da arte” sempre me irritou solenemente. Sobretudo para quem diz que uma obra é “chata”, “enfadonha”, “aborrecida”, “mal feita” (ah meu bom El Greco !!, como pintavas mal mal mal !!!!). Sobretudo para esses para que é a “divulgação” ??
Terão direito à arte ?? Não, sem dúvida que não (força Greco, continua a pintar cada vez pior, dá cabo dessa anatomia das figuras, inventa-as, torce-as, reinventa-as !!!!!).
A ARTE NÃO PODE SER PARA TODOS ! (...)


É que, para quem queira fazer das artes ou da arte tudo aquilo numa qualquer coisa que ela própria e em sua certa incerteza não aprova, sobretudo aos que jamais conseguirão entendê-la e porque a atentaram ou tentaram intrometer-se a desviá-la por que outras vias. E é aí ou exactamente por isso que a arte ou a vida se rebelará sempre, a não poder ser ou estar para todos esses mesmos, que a tentaram impelir ou desvirtuar, no sentido de ela ser aquilo que ela não é: uma anti-arte!

TEMPS D'IMAGES 2008 na Cinemateca

.




CLIQUE NAS IMAGENS
para ampliar

A ARTE como fecundação e alimento

Querer que uma psicanálise seja ciência tal como se pretenda que objectos fabricados em série ou urinóis sejam obras de arte, é de uma completa esterilidade humana a nível de pensamento. E para os que se abandonam nessa falta dos tão importantes critérios valorativos, é pois deixarem-se ater unicamente por que moralidades, numa total ausência da capacidade crítica e num total desentendimento para com os valores da ética e da estética. E embora, as economias-políticas, tentem enganar e a ajuizar à teima força que as artes em suas vidas e formas artísticas, não passem de simples modas, em suas vias especulativas de meras trocas comercializáveis das elementares actividades de qual lazer e em que indústrias de fabriquetas de interesses do sócio-cultural. Ou ainda e em última estância, e por que tamanho mal, já tão bem reiterado, a quererem de qualquer das formas, transformar as artes e o que é artístico de qual uso, em algo de auto-estimativo ou auto-satisfatório ou num auto-qualquer-coisinha pronta a ser negociável, das tão simplórias, académicas, corriqueiras e prosaicas curas que insistem em prosseguir por aí fora, enfim e por qual finalidade.

É que essa finalidade é a finalidade da renúncia à vitalidade do que é ser-se humano, prostrado em redor do nada e para o nada, sempre tão presente nesse tipo de cientificidades sem futuro e que hoje aí estão assim, tão cheias de um enormíssimo vazio de sentido, e já tão bem ordenadas e instituídas por que regras mercantilistas. Essa finalidade, não dirá de certo, respeito às artes e ao que é artístico, para além de que, igualmente e com certeza, que não irá dar certo, para nada de nada e em seus já tão anunciados sem fins.

O caminho da criação e em sua fecundação, é um percurso que muitos que lhe são alheios o têm perigosamente tentado enviesar, talvez por um qualquer medo de não o conseguirem dominar. Ou seja, assim como é impossível decretarmos aos outros o que cada um, tem em si de genuíno para criar, dar, realizar ou fecundar, quererá então dizer, que será sempre, através da experiência viva e da própria abrangência do mundo dessa mesma pessoa e até das suas incapacidades físicas, que ela poderá por sua vez irromper quando menos se espera e tão imediata quanto espontaneamente, no criar a fazer obra artística e sempre sem interferência ou imposição de qualquer ordem.


E porque cada pessoa é única em si mesmo, e em que todas as suas formas de expressão criativa, por sua vez, tenderão sempre a se manifestar com toda a liberdade e num estilo muito próprio. Por isso todo aquele que cria, fecunda, fecundando-se, e a dar ou a dar-se à luz, em sua obra, seja intérprete, músico, pintor, escultor, escritor, fotógrafo, poeta, ser, actor ou que artista for, e sempre adentro deste âmbito da força da criatividade humana, não estará a competir ou a jogar com o outro ou com os outros. Aliás, todo aquele que se posiciona nesse estar competitivo, não é artista, de certeza. O confronto ou esse tal desafio que afinal existe em cada um de nós não se afronta em rivais ou em que rivalidades, é que o outro ou os outros, não lhe são adversos. Existe sim uma necessidade interior de potenciarmos as nossas capacidades humanas e, porque criativas e artísticas, que jamais passará por olharmos o outro ou outros como uma ameaça ou perigo. É porque tudo o que tende à competição para além de desumano, é alheio ao que concerne autenticidade do ser humano em seus valores de ética e de estética. O artista ou o ser humano não precisa de correr para chegar à frente do outro, a vida não é uma corrida do melhor a superiorizar-se ou a maltratar o que ficou para trás, e a ser tratado como pior ou inferior
, só porque e aparentemente não tem as mesmas capacidades físicas. É que competitividade só existe porque existe mercado em suas leis maldosas e nas astutas trocas comercializáveis de bens e ideias competitivas, pois mas é que isso de competir, não diz respeito ao que é artístico, à vida sensível ou ao ser humano.

Seria bom entender-se que, arte é uma necessidade vital da existência e por isso o indispensável discernimento para com a ideia do que é a verdadeira qualidade, ou a qualidade de vida, nessa capacidade de compreensão e avaliação de todo o potencial dos seres e a ser-se humano, e que está muito para além e acima de todas as habilidades, aparências ou capacidades físicas.
E por isso: «a melhor coisa que pode acontecer a um artista é a existência de outros artistas». É que as vivências, experiências e práticas de toda a pessoa sensível e em suas obras, para além de alimento, e em que alívio por inteireza, fazem-nos enriquecer de forma, a tornarmo-nos mais completos humanamente.


APRECIAR

Gosto muito da palavra «apreciar» e de algumas das palavras e em seu significado e que a ela estão associadas nos respectivos dicionários da nossa Língua Portuguesa. Apreciar, para além do que nos faz «fazer», é efectivamente para mim, das palavras mais bonitas, assim como das que se apresentam em sua significação e que são: admirar, contemplar, conhecer, valorizar, prezar, percepcionar e gostar.

Quando nos regozijamos com algo ou com alguém, é porque estamos a ater-nos a uma certa apreciação em mutualidade. Apreciação essa, que far-se-á sempre numa procura de algo em positividade, perante o objecto ou pessoa em questão. E ao apreciar-se o que nos rodeia, encontramos o que procuramos, embora e às vezes, isso só possa acontecer muito tardiamente, dependendo da atenção e cuidados que prestamos e em resultado da experiência, conhecimento ou entendimento que temos nesse preciso momento. E para mim apreciar é admirar, é dar valor. Apreciar é reflectir atentamente sem quaisquer processos de avaliação ou de julgamento. E quanto ao
julgar, medir, examinar, analisar ou ajuizar, e apesar de que estas palavras sejam também significados do que é «apreciar», considero que elas se desviam dessa atenção do que é a apreciação valorativa. E porque no «apreciar», o estar-se verdadeiramente associado a tudo aquilo que é tido como de, de certo ou de certeza.

Quero com isto dizer que o apreciar e em apreciação, antecede todas as normas perante aquilo que nos faz duvidar. É que quando duvidamos deixamos de estar nesse livre e natural método que existe em cada um de nós e no que é o apreciar e em apreciação. Sim, existe um método próprio pelo qual se rege o nosso Sentir e Pensar e que tem exactamente a ver com essa reflexão em apreciação do que mais nos toca ou tem mais significado para cada pessoa e que se vai desenvolvendo sempre em grande espontaneidade E quando perscrutamos atenciosamente essa apreciação, ela ir-se-á expandir a valorizar o que apreciamos e em sua reciprocidade. É um percurso ou movimento lindíssimo e que se vai elaborando numa estrutura muito própria a edificar o Ser.

E já todos ouvimos falar de certas pessoas, que gostam mais das obras de certos compositores do que outros e acontece que, elas próprias às vezes não entendem muito bem qual a razão dessas suas escolhas. E com certeza que também já todos ouvimos dizer, que para se gostar deste ou daquele compositor é preciso aprender-se a gostar. E aí é que eu discordo completamente, é certo, que embora, tudo possa ser uma questão de educação e aprendizagem, mas esse aprender não deveria de passar forçosamente a ter-se de gostar porque é considerado universalmente bom, e não lhe retirando o seu valor enquanto obra, dever-se-ia sim, estar-se mais em contacto ou tomar-se conhecimento da existência das boas e grandes obras, para depois desenvolver a entender essa tendencial propensão no devido apreciar em apreciação que existe em de cada um de nós.

Este aprender a gostar, mas por nós próprios, é fundamental. E dando ainda o exemplo da música, é que por vezes temos uma apreciação muito maior ou muito mais forte por este ou por aquele compositor e é isso que temos efectivamente, que ter em consideração, nesse mesmo entendimento com os valores da ética e da estética e porque intrínsecos de todo o Ser. Em que é preciso sim, ouvir-se, ler-se, ver-se ou fruir-se, em suma é preciso ter-se conhecimento das grandes obras tanto na música, como na literatura, pintura, poesia e entre outras formas de arte, a atermo-nos assim, a essa genuína forma do que é o apreciar e em apreciação para uma valorização e enriquecimento de tudo aquilo que nos diz exactamente respeito e nos faz conseguir Ser.

A Obra viva de VAN GOGH


Vincent van Gogh
(1853 – 1890)

(...)
A cor também foi fundamental para Van Gogh. Quando chegou a Paris, em 1885, encontrou o grupo impressionista, e o uso da cor foi de facto uma revelação para ele. Mas a personalidade de Van Gogh, simplesmente não lhe permitia a atitude objectiva dos artistas do grupo. Monet, por exemplo, que viveu na maior pobreza até aos cinquenta anos, jamais mostrou sua tristeza ou sua comoção pessoal. Quando nasceu seu primeiro filho, ele não tinha dinheiro sequer para comprar pão e leite para o recém-nascido e para a mulher. Ele escrevia cartas aos amigos, principalmente Degas, que lhe davam algum dinheiro (…). No entanto nada disso transparece nos seus quadros. Para Van Gogh, essa objectividade ou distanciamento entre as próprias emoções e a expressão era impossível.

Mesmo preservando o princípio da complementaridade, ele saiu do Impressionismo, transformando cada pequenina mancha em um traço, em uma pincelada rítmica, usando a complementaridade das cores como um elástico: um amarelo vai para um amarelo um pouco mais esverdeado, para um verde, para um laranja, até, no final surgir uma área onde tons azuis conseguem, digamos, fechar a complementar. Portanto, o teor dramático altamente tenso dos quadros, resulta não só da pincelada – que é como uma pincelada «stacatto», muitas vezes brusca, mas sempre rítmica – mas também do modo como as cores são usadas. Isso, que é tão interessante, os psicanalistas não percebem: Van Gogh usou cores quentes; tratou da produtividade da vida, jamais foi mórbido, ele tinha grandes problemas, a ponto de suicidar-se aos 37 anos; mas sua obra queria viver, não queria morrer.
(...)
FAYGA OSTROWER – A GRANDEZA HUMANA – Editora Campus



O conjunto de imagens das Obras de Van Gogh que se seguem são do site do Museu Van Gogh em Amesterdão: www.vangoghmuseum.com/





Imagens das Obras de Van Gogh - Museu Van Gogh em Amesterdão: www.vangoghmuseum.com/

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Páginas