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a árvore ao jardim
Alice Valente Alves

Deleuze e a VERGONHA por vir

(…) Impressionaram-me muito todas as páginas de Primo Levi em que ele explica que os campos nazis introduziram em nós “a VERGONHA de ser um homem”. Não, diz ele, que sejamos todos responsáveis pelo nazismo, como gostariam de nos fazer crer, mas porque fomos todos manchados por ele: os próprios sobreviventes dos campos tiveram de aceitar compromissos, que mais não fosse para sobreviver. VERGONHA de ter havido homens que foram nazis, VERGONHA de não se ter podido nem sabido impedi-lo, vergonha dos compromissos aceites, é a tudo isto que Primo Levi chama a “zona cinzenta”. E a VERGONHA de ser um homem, acontece que a experimentemos também em circunstâncias completamente ridículas: perante uma excessiva vulgaridade de pensamento, durante uma emissão de variedades, frente ao discurso de um ministro, ao ouvir as declarações do que gostam da “boa vida”. (…) Ora o mercado não é universalizante, homogeneizador, é um fantástico processo de riqueza e de miséria. Os direitos do homem não nos farão abençoar as “alegrias” do capitalismoNão há Estado democrático que não esteja comprometido a fundo com esse processo de fabrico da miséria humana. A VERGONHA é que não temos meio seguro algum de preservar os devires, ou por maioria da razão de fazer com que levantem, nem sequer em nós próprios…


(…) As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número. Uma minoria pode ser mais numerosa do que uma maioria. O que define a maioria é um modelo … Ao passo que uma minoria não tem modelo, é um devir, um processo. Pode-se dizer que a maioria não é ninguém. Toda a gente, sob um aspecto ou outro, se encontra tomada num devir minoritário que arrastaria cada um para vias desconhecidas, se nos decidíssemos a segui-las (…) O POVO é sempre uma minoria criadora, e que continua a sê-lo, até mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não se vivem no mesmo plano. Os maiores artistas fazem apelo a um POVO, e constatam que “o POVO falta”: Mallarmé, Rimbaud, Klee, Berg. No cinema, os Straub. O artista não pode deixar de fazer apelo a um POVO, necessita dele no mais fundo da sua acção, não lhe cabe criá-lo e não pode fazê-lo. A ARTE é o que resiste: resiste à morte, à servidão, à infâmia, à VERGONHA... Como se cria um POVO, em que sofrimentos abomináveis? Quando um POVO se cria, é pelos seus próprios meios, mas de maneira a reunir-se a qualquer coisa da ARTE ou de maneira a que a ARTE se reúna àquilo que lhe faltava.


(…) … é o cérebro que é exactamente esse limite de um movimento contínuo reversível entre um Dentro e um Fora, essa membrana entre os dois. Novos traçados cerebrais, novas maneiras de pensar não se explicam pela micro-cirurgia, mas É A CIÊNCIA, pelo contrário, que deve esforçar-se por descobrir o que pode ter havido no cérebro para que nos tenhamos posto a pensar desta ou daquela maneira. Acreditar no mundo é isso que mais nos falta; perderemos completamente o mundo, desapossaram-nos dele. Acreditar no mundo é também suscitar acontecimentos, ainda que pequenos, que escapem ao controlo, ou fazer nascer novos espaços-tempos.


(…) Informaram-nos de que as empresas têm uma alma, o que é de facto a notícia mais aterradora do mundo. O marketing é agora o instrumento do controlo social, e forma a raça impudente dos nossos senhores. O controlo é a curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, enquanto a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem já não é o homem encerrado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve por constante a extrema miséria de três quartas partes da humanidade, demasiado pobres para a dívida, demasiado numerosas para o encerramento: o controlo não terá somente de enfrentar as dissipações de fronteiras, mas as explosões dos bairros de lata e dos guetos.


Não há necessidade de ficção científica para concebermos um mecanismo de controlo que dê a cada instante a posição de um elemento em meio aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (pulseira electrónica). Félix Guattari imaginava uma cidade em que cada um poderia sair do seu apartamento, da sua rua, do seu bairro, graças ao cartão electrónico (dividual) que faria levantar-se esta ou aquela barreira; mas o cartão poderia igualmente ser recusado certo dia, ou entre certas horas; o que conta não é a barreira, mas o computador que referencia a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal.


(…) … estamos no início de alguma coisa. No regime das prisões: (…). No regime das escolas: (…). No regime dos hospitais: (…). No regime de empresas: os novos modos de tratar o dinheiro, os produtos e os homens que já não passam pela velha forma-fábrica. São exemplos bastante magros, mas que permitiriam compreender melhor o que se deve de entender por crise das instituições, quer dizer a instalação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação.
(…) Poderemos já discernir esboços dessas formas POR VIR, capazes de se oporem às alegrias do marketing? Há muitos jovens que estranhamente reclamam ser “motivados”, requerem estágios e formação permanente; é a eles que compete descobrir aquilo que os fazem servir, como os mais velhos descobriram não sem dificuldades a finalidade das disciplinas.
(…)
GILLES DELEUZE , Conversações 1972-1990, Fim de Século Edições, 2003

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