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Corpo, arte e linguagem

«(...) As culturas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um verdadeiro código de símbolos ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão de informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da "lógica sensível" dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza das percepções; onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objectos simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo. 
(...) ... a arte é o equivalente moderno, do rito e da festa: o poeta e o romancista constroem objectos simbólicos, organismos que emitem imagens. Fazem o que faz o selvagem: convertem a linguagem em corpo. As palavras já não são coisas, e sem deixar de ser signos, se animam, ganham corpo. O músico também cria linguagens corporais, geometrias sensíveis. Ao contrário do poeta e do músico, o pintor e o escultor fazem do corpo uma linguagem. (...)»

OCTÁVIO PAZ – Conjunções e disjunções - EDITORA PERSPECTIVA

[uma imagem nunca está só]







 [uma imagem nunca está só] é uma das rubricas do projecto [imagem_ns] - A Imagem na Arte



http://imagemns.wordpress.com/  .



ENCONTRO: "A Imagem na Arte" - 16 Março 2012 no CNC



ENCONTRO/Conferência: "A Imagem na Arte"

Dia 16 Março 2012 | 6ª. feira | das 16h às 19h00


CENTRO NACIONAL DE CULTURA
Largo do Picadeiro, 10 - 1º - Chiado-Lisboa

Este ENCONTRO/Conferência com a Abertura às 16h00 por Guilherme D' Oliveira Martins e Coordenação-mesa por Manuela Paraíso e Annabela Rita, pretende criar um diálogo aberto com todos os presentes e será dividido em duas partes com as seguintes intervenções:
- Annabela Rita e Alice Valente Alves com a Apresentação do «[imagem_ns]», projecto associado ao CLEPUL centrado – na reflexão, no diálogo e na criação –  da imagem (e imagens) e o sentido da arte;
- Alice Valente Alves,  irá pronunciar-se sobre o que é para si a “Imagem na Arte” através da projecção  das 72 obras em díptico nas oito das 9 cores  realizadas  e apresentadas até ao momento do seu projecto «CORPOtraçoCORPO - a poesia e a pintura»

Contamos consigo!










...

16 MARÇO 2012 - ENCONTRO/Conferência no Centro Nacional Cultura


Dia 16 Março 2012 | 6ª. feira | das 16h às 19h00
Apresentação do projecto «[imagem_ns] - A Imagem na Arte»
O ENCONTRO/Conferência com o tema: «A Imagem na Arte» conta com a presença:
  • Guilherme D’ Oliveira Martins – Presidente do Centro Nacional de Cultura
  • Annabela Rita – Presidente do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).
  • Manuela Paraíso – Jornalista/Divulgadora da música erudita portuguesa e autora do programa de rádio «Na Outra Margem».
  • Alice Valente Alves – Autora de projectos da Imagem – Poesia, Pintura, Desenho e Fotografia – no âmbito da Criação Artística.

Ser breve

Escuras ruas
Em breve sol pintado de branco
Asas à sombra
Levitam seu ser 
E à poesia 
Versam-se imagens



Não fales muito
Não digas nada
Aprende
Somente por ser




O movimento das imagens sonoras

(…)
Este pintor era sempre um sujeito estranho; apesar da sua surdez amava entusiasticamente a música, e deve ter sido capaz, quando se encontrava suficientemente perto da orquestra, de ler a música nos rostos dos músicos, e de apreciar pelos movimentos dos seus dedos a execução mais ou menos conseguida; também escrevia críticas de ópera num apreciado jornal de Hamburgo. O que é aqui de admirar? Na assinatura visível da execução, o pintor surdo era capaz de ver os sons. É que há pessoas para quem os próprios sons não são apenas assinaturas invisíveis, em que ouvem cores e figuras.
Na leitura das assinaturas das imagens sonoras de Heine, a «assinatura visível» que apresenta sons ao olhar, é substituída pela «assinatura invisível», que torna as cores audíveis. Deste modo, quem lê na assinatura visível do fenómeno, acaba por perder a ressonância sonora na música e na voz, e permanece sempre dependente dos sinais de pintor do intérprete, que sendo ele próprio surdo, descreve a assinatura visível da sua partitura sem sons. Naquilo que o narrador de Heine descreve e analisa no exemplo do pintor surdo Lyser, actua aquela «transformação dos sons» em mímica visível do rosto e da figura, que despertou repetidamente a impressão da ilegibilidade de uma assinatura dançada.
(…)
… A solução do «enigma dançado» cujo processo se limita exclusivamente à lógica de representação da dança, reside na descrição daquilo que faz a insolubilidade do enigma. A representação da dança, como assinatura que necessita de ser decifrada, coloca o leitor perante as mesmas aporias colocadas pela representação audiovisual daquelas fisionomias de Heine … é que a própria representação da percepção de assinaturas em movimento com o auxílio de uma economia dos sentidos substituta, descreve com espantosa exactidão a estrutura da linguagem que constitui também a dança. E compreender significa, em primeira linha, explicar porque é que a solução não se pode ler em termos semânticos, dado que é a própria leitura que coloca o enigma.

Theodor W. Adorno assumiu uma posição semelhante em relação à obra de arte. Na sua "Teoria Estética" fala da obra de arte como de um enigma que não se dissolve na sua solução sem deixar resto. Segundo Adorno, o enigma é imanente a toda a obra de arte, mas «resolver o enigma é o mesmo que indicar a razão da sua insolubilidade: o olhar com que as obras de arte contemplam o observador». Segundo Adorno, a obra de arte espera precisamente pela palavra que dá a solução, capaz de compreender o olhar enigmático; mas compreender significaria então produzi-la de novo «a partir do interior», por assim dizer como interpretação musical da partitura imagética.
(…)
ROGER FARGUELL, «FIGURAS DA DANÇA 
Sobre a Constituição Metafórica do Movimento em Textos,
Capítulo IV - HEINE», (Edição) GULBENKIAN Educação



BALLET GULBENKIAN - Fotografia/Arquivo de ALICE VALENTE ALVES


Pensamento enquanto IMAGEM

Poesia e Fotografia de ALICE VALENTE
Os pensamentos como funcionam, como vão e vêm, como são os pensamentos com imagens, ou como se vêem com essas mesmas imagens que são nossas e ao mesmo tempo com as imagens dos outros, em imagens que podem ocorrer a um tempo, sendo embora de um tempo sem qualquer tempo.
Um cheiro surge-me sempre acompanhado de uma imagem, uma imagem que pode ser de um agora futurizado ou de um outrora por já conhecido e vivenciado. E são essas imagens que nos concebem, que nos articulam o pensar como pensar dos outros dentro de uma mesma imagem, de muitas outras imagens.
Portanto existem numa IMAGEM que nos assalta ou nos presenteia num determinado momento, três tipos de diferenciadas imagens e que ao mesmo tempo, se vão movimentando, ou lenta ou rapidamente, e que são: - Imagem aprendida, a social ou escolástica; - Imagem sentida, a que nos altera, regista e perdura, e ; - Imagem ficcionada, a que transformamos imaginariamente.
E dentro dessas imagens existe um desígnio que nos designa ou desenha sem objectivos ou objectividades. Que pressuposto é esse?


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Imagina-se o INCONSCIENTE

«Corpo Utópico» (2)

(...)
As máquinas de criação do corpo utópico, que misturam a técnica com o bios, que separaram a imagem da carne, deveríamos opor outras ligações. À vontade fundamento, de fundações, que levam apenas ao nihilismo realizado tecnicamente, seria preciso encontrar uma outra forma de responder. Todo o esforço está em sair do poço. Num outro momento da modernidade, em que se instalava o diálogo mortífero entre o abismo da liberdade e a máquina, Poe escreveu um conto intitulado «O Poço e o Pêndulo»22. Preso por um «poder» desmesurado23 que lhe destinava o pior, descobriu que lhe estava destinado um «poço», de que às escuras não conseguia medir a profundidade. Preferia, lê-se, qualquer outra morte do que arriscar-se aos «terrores dos poços», «evocador do inferno e considerado vulgarmente a última Tule de todos os seus castigos». O «terror do poço» é esclarecido antes pela opressão provocada pela «simples ideia da profundidade interminável da descida». Não precipitar-se, ter frieza, eis a lição, se é verdade que «mesmo no túmulo não está tudo perdido. Ou então não há imortalidade para o homem». Quando a morte é certa e o corpo mutável, desaparece necessariamente a «imortalidade» da Psyké e o imutável. A única forma de lha retirarem seria fazê-lo precipitar-se no «poço». Os torturadores vão, com lógica inapelável, fazer intervir outras máquinas de destruição da «Psyké». Primeiramente o pêndulo, que baixava rigorosa e matematicamente a cada movimento e que tinha uma lâmina que acabaria por cortá-lo ao meio. Descida controlada, maquínica, milimétrica mesmo, que o herói afronta com astúcia, libertando-se das amarras que o prendiam. Depois, uma terceira máquina entra em movimento, que põe em brasa as paredes de ferro do cárcere. Finalmente as próprias paredes se tornam numa máquina, começando a mudar de forma e avançando para o empurrarem para o poço, em que se nega a lançar-se:«"A Morte", disse eu, "qualquer morte que não do poço!"». Resistindo ao movimento que o lançava para o poço: «Recuei - mas as paredes, que se fechavam, empurravam-me irresistivelmente para a frente. Por fim, para o meu queimado e contorcido corpo já não havia uma polegada de espaço no solo firme da prisão. Deixei de lutar, mas a agonia da minha alma encontrou saída num grito alto, longo e final de desespero. Senti-me cambalear à beira do poço - voltei a cara.». No final já só restava voltar a cara ao «poço». O que parece insuficiente. E eis que, no último momento, um acaso merecido lhe permite escapar. A revolução chega e com ela «um braço estendido apanhou o meu, quando caía, desmaiando para o abismo».

As máquinas de Poe estavam ao serviço de um hiperpoder de que o poço é a imagem invertida e que acabou de o tragar. Cento e cinquenta anos volvidos são estas máquinas, que realizam o «corpo» com que todo o poder histórico sonhou. A parábola de Poe é instrutiva: a resposta não está num outro corpo, nem num corpo melhor. Fundamentalmente, não está no corpo utópico. Basta um «braço» certo, na altura certa. É apenas isso que podemos e devemos esperar. Demasiado insuficiente, porque poderá nunca vir? Isso já não depende de nós. É preciso que esse braço já tenha vindo, em cada um. Só é aceitável o acto que propicia a vinda desse «braço», ou duma «mão» ou de uma «palavra» certa. A vir, sendo o braço certo, poderá ser o braço de um outro homem, de um «monstro» ou de um «cyborg», mas será sempre um braço humano.

22 Cf. Edgar Allan Poe - Contos Incompletos , II volume, trad. de Manuel Barbosa, Coimbra, Editorial «Saber», 1994, pp. 193-219

23A acção passa-se em Toledo, e trata-se, de facto, da «inquisição», o que não admira, pois para o herói, estavam destinados os «horrores morais» e não os horrores físicos.


JOSÉ BRAGANÇA DE MIRANDA - Excerto do Ensaio «Corpo Utópico»
Ensaio no livro organizado por M. Valente Alves e António Barbosa: O CORPO NA ERA DIGITAL,
Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, 2000





"Corpo Utópico" de J. Bragança de Miranda (1)

(...)
O que poderá ser um «corpo utópico»? É pensável um corpo que não tenha lugar ou que não esteja em algum lugar? Ou um corpo «perfeito» ou «glorioso» que escape à fragilização que o tempo desfere nos corpos? ... Na verdade só será possível tratar esta questão partindo da única «utopia» que a história nos legou, ou seja, a «alma» ou Psyké. O que nos faz adentrar no reino das imagens, pois a Psyké é basicamente um assunto de «imagem»... Nunca tanta inventividade se gastou com outro assunto, mas dele dependia demasiado, a imortalidade, a liberdade, a vontade, etc. Os modernos não fizeram menos esforços, mas agora para a «anular» ou «desmistificar», encontrando por todo o lado somente «corpo» e «corpos». As medicinas, as fisiologias, as neurologias continuam a circunscrevê-la, transformando-a em «espírito», «consciência», «cérebro»...
Depois dos modernos terem caçado o «espiritualismo», o fantasma na máquina, despojado de toda a divisão - e a Psyké era isso mesmo, uma divisão incorporal e impossível do corpo - , aquilo que ela visava: a de um corpo sem lugar, sem decadência, sem morte? Analisar este paradoxo equivale a interrogar o estatuto contemporâneo do corpo, no momento em que parece constituir uma utopia irreconhecível.
(...)

A crise do corpo moderno, simultaneamente orgânico e racional, acabou por ser potenciada pela crítica fundamentalmente estética que se desenvolve no pós-guerra. Bom exemplo disso é a afirmação provocatória de Burroughs de «ofereceram-lhe um corpo para sempre. Para cagares sempre». Ou na crítica de Artaud aos «órgãos»: «O corpo é o corpo, existe por si e não precisa de órgãos, o corpo nunca é um organismo, os organismos são os inimigos do corpo, as coisas que nós fazemos amanham-se sozinhas sem o concurso de qualquer órgão, todo o órgão é um parasita, cumpre uma função parasitária destinada a manter vivo um ser que não deveria de existir»11. Se a crítica do orgânico vem, pelo menos, da antiga teologia, já a crítica aos «órgãos» é mais reveladora da tendência que procuramos apreender. Seria absurda se não estivesse em causa o «corpo do mundo», e não o corpo «físico». De facto, a crítica aos órgãos, por Burroughs, Artaud e também Deleuze, já não cabe na noção de «corpo» moderno, revelando que o «corpo» era, desde sempre excedido, por um feixe invisível de relações e de ligações, em reserva, que o «fixavam». São relações políticas, jurídicas, contratuais, mas também passionais, etc. Apenas num «mundo» de «fome» o estômago domina. Numa sociedade sem fome o estômago já não conta, ou conta de outro modo. E o mesmo se aplica a todos os «órgãos».

(...)
O «corpo utópico» corresponde, então, ao momento em que utopia, sempre o outro mundo, se fixa na imagem do corpo. A sua extensão implica a realização técnica ou literária da metafísica pela utopia. É interessante verificar que, se não há utopia sem corpo, ou sem corpos, basta pensar nos 3 corpos de Republicade Platão, em muito poucas o «corpo» tem o lugar decisivo. É certo que nas distopias de Orwell ou de Huxley o corpo está obsessivamente presente, mas isso sucede para melhor revelar o estado das coisas. Do vasto corpus da literatura utópica apenas em Andrei Platonov encontramos uma reflexão essencial sobre o «corpo utópico»16 .

Por falta de espaço, limitemo-nos a algumas observações sucintas, para recolocarmos o problema. Em O Poço da Fundação, publicado apenas em 1987, mas que foi escrito nos meses de Inverno de 1929 e 1930, o «corpo utópico» entra em cena ao mesmo tempo que a «utopia» se esvanece, enterrada no «poço» que ela própria originara: o de construir uma «casa» perfeita, um mundo absolutamente feliz. A história tem a ver com a construção de uma casa para os futuros jovens nascidos da «revolução». Alegoricamente está em causa o retorno da «humanidade» a casa, da única maneira como pode ser pensada. Construindo-a. Sucede que o plano da casa é tão incomensurável e infixável, por razões misteriosas, que as fundações exigem um «poço» que vai crescendo desmesuradamente. Finalmente não há mais que um enorme buraco, esse imenso poço. Por uma «casa» que não chega a ser construída, de que apenas ficou o poço ...

(...) ... [ Continuação >>> «Corpo Utópico» - 2ª parte ]

11Antonin Artaud em Para Acabar com o juízo de Deus, Lisboa, &etc., p.152...

16 Andrei Platonov é autor de obras densas e fantasmagóricas, caso de O poço das Fundações e Chevengur, que tendo sido escritas nos finais dos anos 20, só foram publicadas em russo, nos anos oitenta.


JOSÉ BRAGANÇA DE MIRANDA - Excertos do Ensaio «Corpo Utópico»
Ensaio no livro organizado por M. Valente Alves e António Barbosa: O CORPO NA ERA DIGITAL,
Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, 2000








Arte e ciência ou o papel da imaginação

Há dois tipos de investigadores: uns para a ciência normal, outros para a ciência revolucionária. Nos períodos normais (no âmbito de um paradigma, digamos), são precisos investigadores que trabalham eficazmente para controlar todos os instrumentos técnicos e eles são «mestres artesãos». Hoje em dia, 95% dos investigadores da teoria das cordas são mestres artesãos. São sempre os melhores alunos de matemática e física, da licenciatura à tese de doutoramento, aqueles que são capazes de resolver os problemas matemáticos mais depressa e melhor do que os outros.
Mas nos períodos revolucionários são precisos visionários. Einstein foi um deles, tal como Neils Bohr. Kepler e Newton são exemplos raros de acumulação de ambas as qualidades. Os visionários decidem fazer ciência porque se colocam questões a que os seus manuais não respondem. Se não se tivessem tornado cientistas, poderiam ter sido pintores, escritores ou músicos. E, na verdade, há muitas semelhanças entre a criatividade artística e a criatividade científica.
Lembrarei apenas algumas famosas afirmações de Einstein.

«A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. Na imaginação cabe todo o mundo». Ou ainda:
«O Homem procura construir para si próprio uma imagem simplificada e inteligível do mundo; depois procura, até certo ponto, substituir o mundo da experiência por este seu cosmos, e assim superar o primeiro. É isto que fazem o pintor, o poeta, o filósofo especulativo e os cientistas naturais, cada um à sua maneira».

JEAN-PIERRE LUMINET - A CIÊNCIA TERÁ LIMITES? - FCG - Gradiva


Vejo a descoberta do HAR1 como um acontecimento seminal na história da ciência, marcando o começo de uma nova compreensão da evolução e da natureza humana, como um grande passo ao encontro da realização do sonho descrito em 1929 por Desmond Bernal, um dos pioneiros da biologia molecular, no seu pequeno Livro «The World, the Flesh and the Devil: Na Enquiry into the Future of the Three Enemies of the Rational Soul» (O Mundo, a Carne e o Diabo: Um Inquérito ao Futuro dos Três Inimigos da Alma Racional). Bernal encarava a ciência como a nossa melhor ferramenta para derrotar os três inimigos. O primeiro inimigo é o Mundo, significando as cheias, as secas, a fome e as alterações climáticas. O segundo inimigo é a Carne, significando as doenças infecciosas e as enfermidades senis. O terceiro inimigo é o Diabo, significando as paixões negras e irracionais que conduzem seres, à parte isso racionais, para o conflito e a destruição. Sou optimista quanto ao futuro porque vejo o HAR1 como nova ferramenta que nos conduz a uma compreensão profunda da natureza e à derrota final do nosso último inimigo.
(Sobre o que é o HAR1: ) Há apenas um ano, foi feita uma descoberta seminal por David Haussler e a sua equipa da Universidade da Califórnia, Santa Cruz. Na minha opinião, esta descoberta é uma chave importante para o mistério da mente humana. Foi publicada na revista «Nature» em Setembro de 2006. Haussler e os seus colegas compararam os genomas de diferentes espécies: ratinho, rato, galinha, chimpanzé e humano. Encontraram um pequeno pedaço de ADN em todos estes genomas a que chamaram HAR1, abreviatura para para Região Humana Acelerada 1. Este fragmento parece estar estritamente conservado nos genomas de ratinho, rato, galinha e chimpanzé, o que significa que deve ter tido uma função essencial que se manteve inalterada durante cerca de trezentos milhões de anos, desde o último ancestral comum entre as aves e os mamíferos até hoje. Mas o mesmo fragmento aparece bastante modificado, com dezoito mutações, no genoma humano, o que significa que deve ter alterado a sua função nos últimos seis milhões de anos, desde o ancestral comum entre chimpanzés e humanos até aos humanos modernos.
De algum modo, aquele pequeno fragmento de ADN expressa uma diferença essencial entre os humanos e os outros mamíferos. Conhecemos outros dois factos significativos sobre o HAR1. Primeiro, não codifica uma proteína, mas codifica ARN. Isso significa que não é em si próprio um gene, mas uma espécie de organizador controlando a acção de muitos genes. Segundo, o ARN que codifica está activo no córtex do cérebro embrionário humano durante o segundo trimestre de gravidez, quando a arquitectura básica do córtex está em construção. É provável que a rápida evolução do HAR1 tenha alguma a ver com a rápida evolução do cérebro humano durante os últimos seis milhões de anos. E a rápida evolução do córtex provavelmente proporcionou a base para a emergência da mente humana.

FREEMAN DYSON - A CIÊNCIA TERÁ LIMITES? - FCG - Gradiva

A Técnica e o Mundo sem Imagem

- OCTÁVIO PAZ e a POESIA como a verdadeira vida -


(…) O crescimento do eu ameaça a linguagem em sua dupla função: como diálogo e como monólogo. O primeiro se fundamenta na pluralidade; o segundo na identidade. A contradição do diálogo consiste em que cada um fala consigo mesmo ao falar com os outros; a do monólogo em que nunca sou eu, mas outro, o que escuta o que digo a mim mesmo. A poesia sempre foi uma tentativa de resolver esta discórdia através de uma conversão de termos: o eu do diálogo no tu do monólogo. A poesia não diz: eu sou tu; diz: meu és tu. A imagem poética é a «outridade»*. O fenómeno moderno da incomunicação não depende tanto da pluralidade de sujeitos quanto do desaparecimento do tu como elemento constitutivo da consciência. Não falamos com os outros porque não podemos falar connosco mesmo. Mas a multiplicação cancerosa do eu não é origem e sim o resultado da perda da imagem do mundo. Ao sentir-se só no mundo, o homem antigo descobria o seu próprio eu e, assim, o dos outros. Hoje não estamos sós no mundo: não há mundo. Cada lugar é o mesmo lugar e nenhum está em todas as partes. A conversão do eu em tu – imagem que compreenda todas as imagens poéticas – não pode realizar-se sem que antes o mundo reapareça. A imaginação poética não é invenção mas descoberta da presença. Descobrir a imagem do mundo no que emerge como fragmento ou dispersão, perceber no uno o outro, será devolver à linguagem sua virtude metafórica: dar presença aos outros. A poesia: procura dos outros, descoberta da «outridade».
Se o mundo como imagem se desvanece, uma nova realidade cobre toda a terra. A técnica é uma realidade tão poderosamente real – visível, palpável, audível, ubíqua – que a verdadeira realidade deixou de ser natural ou sobrenatural: a indústria é a nossa paisagem, nosso céu e nosso inferno. Um templo maia, uma catedral medieval ou um palácio barroco era alguma coisa mais do que monumentos: pontos sensíveis do espaço e do tempo, observatórios privilegiados de onde o homem podia contemplar o mundo e o transmundo como um todo. Sua orientação correspondia a uma visão simbólica do universo; a forma e a disposição de suas partes abriam uma perspectiva plural, verdadeira encruzilhada de caminhos visuais: para cima e para baixo, na direcção dos quatro pontos cardeais. Ponto de vista total sobre a totalidade. Essas obras não só eram uma visão do mundo, como estavam feitas segundo a sua imagem: eram uma representação da figura do universo, sua cópia ou seu símbolo. A técnica se interpõe entre nós e o mundo, fecha toda perspectiva à nossa mirada: para além de suas geometrias de ferro, vidro ou alumínio não há rigorosamente nada, excepto o desconhecido, a região do informe ainda não transformada pelo homem.
A técnica não é nem uma imagem nem uma visão do mundo: não é uma imagem porque não tem por objecto representar ou reproduzir a realidade; não é uma visão porque não concebe o mundo como figura, e sim como algo mais ou menos maleável para a vontade humana. Para a técnica o mundo se apresenta como resistência, não como arquétipo: tem realidade, não figura. Essa realidade não se pode reduzir a nenhuma imagem e é, ao pé da letra, inimaginável. O saber antigo tinha por fim último a contemplação da realidade, fosse presença sensível ou forma ideal; o saber da técnica aspira substituir a realidade real por um universo de mecanismos. Os artefactos e utensílios do passado estavam no espaço; os mecanismos modernos alteram-no radicalmente. O espaço não só se povoa de máquinas que tendem para o automatismo ou que já são autómatos, como é um campo de forças, um entrelace entre de energias e relações – algo muito distinto dessa extensão, ou superfície mais ou menos estável das antigas cosmologias e filosofias. O tempo da técnica é por um lado ruptura dos ritmos cósmicos das velhas civilizações; e por outro, aceleração e, por fim, abolição do tempo cronométrico moderno. De ambos os modos é um tempo descontínuo e vertiginoso que ilude, senão a medida, a representação. Em suma a técnica se funda em uma negação do mundo como imagem. E haveria ainda que acrescentar: graças a essa negação, há técnica. Não é a técnica que nega a imagem do mundo; é o desaparecimento da imagem que torna possível a técnica.
(…) A perda do significado afecta às duas metades da esfera, a morte e a vida: a morte tem o sentido que se lhe dá nosso viver; e este tem como significado último ser vida diante da morte. A técnica nada nos pode dizer sobre tudo isto. Sua virtude filosófica consiste, por assim dizer, em sua ausência de filosofia…

(…) A experiência da «outridade» abrange as duas notas extremas de um ritmo de separação e reunião, presente em todas as manifestações do ser, desde as físicas até às biológicas. No homem este ritmo se exprime como queda, sentir-se só em um mundo estranho, e como reunião, em acordo com a totalidade. Todos os homens, sem excepção, entreviram por um instante a experiência da separação e da reunião. No dia em que verdadeiramente… caímos no sem-fim de nós mesmos e o tempo abriu as suas entranhas e nos contemplamos com um rosto que se desvanece e uma palavra que se anula; na tarde em que vimos aquela árvore no meio do campo e adivinhamos, embora já não o recordemos mais, o que diziam as folhas, as vibrações dos céus, a reverberação do muro branco golpeado pela última luz; numa manhã estendidos na relva, ouvindo a vida secreta das plantas; ou de noite, diante das águas entre os altos rochedos. Sós ou acompanhados vimos o Ser e o Ser nos viu. É a «outra vida»? É a verdadeira vida, a vida de todos os dias. Sobre a outra que nos prometem as religiões, nada podemos dizer com certeza. Parece excessiva vaidade ou empolgamento com o nosso próprio eu pensar em sobrevivência; reduzir toda a existência ao modelo humano e terrestre revela certa falta de imaginação ante as possibilidades do ser. Deve haver outras formas de ser e talvez morrer seja apenas um trânsito. Duvido que esse trânsito possa ser sinónimo de salvação, ou perdição pessoal. Em qualquer caso, aspiro ao ser, ao ser que transforma, não à salvação do eu. Não me preocupa a «outra vida» além, mas só aqui. A experiência da «outridade», é aqui mesmo, a «outra vida». A poesia não se propõe consolar o homem da morte, mas fazer com que ele vislumbre que a vida e a morte são inseparáveis: são a totalidade. Recuperar a vida concreta significa reunir a parelha vida-morte, reconquistar um no outro, o tu no eu, e assim descobrir a figura do mundo na dispersão de seus fragmentos.

(…) O homem não vê o mundo: pensa-o. Hoje a situação transformou-se de novo: voltamos a ouvir, embora não possamos vê-lo…
(…) Se o homem é transcendência, ir mais além de si mesmo, o poema é o signo mais puro desse contínuo transcender-se, desse permanente imaginar-se. O homem é imagem porque se transcende. Talvez consciência histórica e necessidade de transcender a história não sejam mais do que os nomes que agora damos a este antigo e perpétuo desgarramento do ser, sempre separado de si. O homem quer identificar-se com suas criações, reunir-se consigo mesmo e com os seus semelhantes: ser o mundo sem cessar de ser ele mesmo. Nossa poesia é consciência da separação e tentativa de reunir o que foi separado. No poema, o ser e o desejo de ser pactuam por um instante, como o fruto e os lábios. Poesia, momentânea reconciliação: ontem, hoje, amanhã; aqui e ali; tu, eu, ele, nós. Tudo está presente: será presença.

(*) O autor usa o termo otredad, um neologismo. A tradução para outridade é também um analogismo

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Sobre o «CORPOtraçoCORPO - a poesia e a pintura»




à esquerda: nº37 – «o pensar» | acrílico sobre tela | 81x130cm | 2005
«CORPOtraçoCORPO – a poesia e a pintura» | traço (cor): Laranja-Lima
à direita: nº 46 – «de que credo» | acrílico sobre tela | 81x130cm | 2005
«CORPOtraçoCORPO – a poesia e a pintura»
| traço (cor): Laranja-Lima


Todo o meu trabalho da “IMAGEM” nos domínios da Poesia, da Pintura e da Fotografia, que estou a desenvolver e a realizar através de projectos autorais, deve-se à minha enorme preocupação com a importância do corpo, corpo que está presente em todos os meus projectos, mas existe um que iniciei no ano 2003 e que gostaria de vos dar a conhecer, é o CORPOtraçoCORPO – a poesia e a pintura.
CORPOtraçoCORPO é a comunhão da exposição de imagens poéticas – CORPO vivo com as minhas imagens pictóricas – CORPO ficcionado.
A pintura
– é compreendida com 9 obras em díptico para cada uma das 9 cores, com o formato de 130x81cm e são apresentadas na verticalidade ou na horizontalidade,
A poesia
– surge na conceptual relação da importância da palavra com o pictórico, presente no título das obras e em que irá corresponder a cada obra em seu título, um poema com o mesmo título.
O traço deste projecto apresenta-se na poesia através da palavra e na pintura através da cor, em que representa o equilíbrio ou a harmonia, o que vem entre um e outro… o outro que pode ser o nosso próprio outro ou o outro propriamente dito, em conhecimento ou desconhecimento, depende de como o utilizamos no seu total sentir e pensar sem o aniquilar, numa atenção redobrada dos recursos e potencialidades que possui.
O nove presente no traço da cor e no traço da palavra, surge como o novo, o último dos números, representa assim o nascer, o cuidar beneficamente do ressurgir, em criatividade, o seguinte, o próximo, que virá em sua contemporaneidade, numa antevisão comprazer do que irá ser conhecido ética e esteticamente, no antes do todo em seu próprio desconhecimento…
Já expostas 6 das 9 cores: o vermelho, o castanho-terra, o águal-azul-céu (designação do azul-água e do azul-céu), duas cores conjuntas apresentados na horizontalidade e o laranja-lima (designação da cor da laranja e da cor do limão), duas cores igualmente conjuntas, mas apresentadas na verticalidade…
Seguir-se-lhe-á o verde-oliva, o verde e será a cor-de-pele, que encerrará o ciclo das 9 cores.
9 cores x 9 obras = CORPOtraçoCORPO = 81 obras com 81 poemas

Após as séries de exposições, está previsto uma exposição final com todas as obras aquando do lançamento do livro com o mesmo nome do projecto contendo 81 poemas e ilustrados com as 81 obras e em que a cada obra em seu título irá corresponder um poema com o mesmo título.
(…)
O corpo define-se pela sua fisiologia, que o mantém vivo e activo, no entanto o corpo está dependente da anima e em seus desejos converte-se em ser com vida. A vida é feita de um corpo em seu todo no Sentir e no Pensar! No Sentir reagimos e actuamos corporalmente, mas no Pensar é que está a fórmula (ou traço) para nos distinguirmos dos animais.
Um corpo é efémero e de vida passageira, ainda assim, podendo-se projectar em outras realidades, uma vez que o que fica de nós ou do nosso corpo é tãosomente o resultado do pensamento.
É o corpo com o pensamento e a alma que define a representação da nossa existência sem qualquer oposição na incontestável interpretação do incorpóreo e que racionalmente não podemos reconhecer nem testemunhar.
E o Corpo sendo parte integrante da Natureza, essa Natureza com todas as suas forças que vão direccionando nossos corpos com toda a supremacia e beleza, deveríamos estar a viver beneficamente e em harmonia em nosso ambiente natural com todos os elementos dessa mesma Natureza. Mas não está a acontecer, porque nos foi ensinado precisamente o contrário, é que temos que dominar tudo o que nos rodeia, temos de dominar tudo o que mexe.
(…)
E aqui continuamos nós neste castigo, nesta culpa, nesta constante adversidade com a Natureza, a querer alterar essas mesmas forças da Natureza. Estamos é sim, a maltratar a nossa natureza de seres com Sentir e com Pensar, a alterar essa parte benéfica que existe em nós, a inutilizar a alma, a matar o Ser, a apagar a aura, estamos assim a assassinar-nos conscientemente…
(…)
O nosso Corpo como um Todo só será válido na sua totalidade com o Sentir e com o Pensar, quanto maior for a sua capacidade para contribuir com esse mesmo Pensar a Criar e a Cuidar… Somos assim… seres de cuidado e de atenção porque criamos a comunicar primeiro com um Corpo indivisível, através de desejos indissociáveis do intuir em pensamento e alma…
E a comunicação será tanto mais eficaz quanto as diferentes formas desse mesmo pensar da aprendizagem escolástica ou obrigatória estiverem associadas a uma livre aprendizagem, autodidacta, no intuir, numa procura constante da perfeição a preservar tudo o que nos rodeia…
O Homem é portanto, um ser de “comunicação”. E está sempre a descobrir novas formas de se comunicar. E a primeira comunicação é com ele próprio, com o seu silêncio, com a sua consciência, que não alimentada em consciência poderá com toda a má aprendizagem do que é “politicamente correcto”, do sucesso imediato, do que é fácil e passageiro, do superficial, numa satisfação imediata a enganar o corpo, a ficar limitado ao vazio, ao nada, a ficar na infelicidade, na solidão, na penumbra, na decadência…
(…)
E o que ainda nos faz estar aqui, é o cumprimento com o primeiro dos objectivos da vida, o ser a Ser, por seres que somos, de cuidado e de criação, todos aptos, mas mesmo todos aptos e capazes de conseguir, dentro de maiores ou menores limitações, a criar e a cuidar deste nosso planeta, a TERRA, como se tratasse do nosso próprio CORPO.
Para uns é uma questão de aprendizagem simples e para outros, para além de um contínuo processo de aperfeiçoamento e aprendizagem, será também o de transmitir essa mesma aprendizagem nas suas mais variadas formas, pelo Conhecimento em Saber.
E sabendo o que o Pensar de nossas consciências tem para dizer e Fazer… a não usar esse Pensar, é deixar de Pensar!
E deixar de Pensar é negligenciar o Corpo em consciência!
Excertos do Ensaio «A CONSCIENTE NEGLIGÊNCIA DO CORPO»
Comunicação proferida em 2005 na Faculdade de Letras da UNIVERSIDADE DO PORTO

CORPOtraçoCORPO na AMIarte: Março a Abril 2008


APREÇAR a vida

...
PREÇO do DINHEIRO: ______________________ARTE não tem PREÇO:

Competir ____________________________ Humanizar
Concorrência ________________________ Valorização
Lixo ou luxo ________________________
Preservar
Abandonar ___________________________
Cuidar
Amor ou ódio ________________________ Felicidade
Indiferença _________________________ Sensibilidade
Guerra ou paz _______________________ Harmonia
Destruir ____________________________ Criar
Ignorar _____________________________ Pensar
Jogar _______________________________
Compor
Cumplicidade ________________________ Ajudar

Vontade _____________________________ Desejo
Querer ______________________________ Gostar
Poder ou gozo _______________________ Prazer
Dever _______________________________ Devir

Voluptuosidade ______________________ Virtude
Sofrimento __________________________ Dor
Depressão ___________________________ Tristeza
Stress ______________________________ Empenho e esforço

Disciplinar _________________________ Educar
Instruir ____________________________ Ensinar a aprender
Doutrinar ___________________________ Descobrir
Estéril _____________________________ Fecundo
Efémero _____________________________ Etéreo

Separação ___________________________ União
Negligência _________________________ Atenção e cuidado
Impotência __________________________ Crescer
Razão cínica e arbítrios ________________ Razão/Verdade
Proibição, limitação e opressão
____________ Salvação/Libertação
Inteligência:cordial,emocional e mais
________ Entendimento
Conhecimentos
_______________________ Conhecimento
Sustentável(turismo,economias e políticas)
____ Ética e Estética
Mortal ______________________________ Eterno

...
*
Formulei e preparei cuidadosamente esta minha lista das palavras em dualidades e duplicidades de equilíbrios contraditos ao que nos apraz nestes dois diferentes lados do apreçar vidas e em cujos títulos, aqui irei continuar a desenvolver. E como reflexão, olhados de um e de outro lado da mesma linha, são estas as questões do meu desassossego pela enorme e crescente desproporção que nos têm assistido. Assim e de igual modo são estas mesmas temáticas que estão presentes no meu trabalho no âmbito da CRIAÇÃO ARTÍSTICA, nos projectos da IMAGEM (Poesia e Pintura, Poesia e Desenho, Poesia e Fotografia) e que se encontram on-line no E-Cultura (portal de divulgação cultural do Centro Nacional de Cultura).
Muito em breve irei também utilizar este meu blogue para a complementação dessas mesmas informações.
E porque, a ARTE assim como a VIDA, não têm preço!




Imagina-se o INCONSCIENTE

.
O conhecimento constrói-se através dos elementos constituintes das figurações mentais, inscritos em forma de IMAGENS, que se vão manifestando activa e adequadamente numa metódica desconstrução para dar origem a outras novas IMAGENS que por sua vez, vão-se reproduzindo autónoma e criativamente pela «comunicação» escrita, verbal, gestual, musical e (ou) plástica e em interacção num contínuo e ímpar processo de reconstrução com as respectivas representações.
A existência de figurações mentais flúem saudavelmente com a realidade. E é na falta ou na impossibilidade de se transmitirem todos os significados dessas figurações que a prostração e o padecimento se instalarão.
Todo este processo natural e automático da mente se insere no trabalho do desenvolvimento do inconsciente, que sempre fez parte do ser humano e que não carece de mediadores ou vãs intromissões para frutificar-se.
Tendo a psicanálise como objectivo a cura do inconsciente, pergunto até que ponto ela não estará a interferir demasiado e até tão negativamente ao ponto de «castrar» a «matar» por completo todo este processo tão natural do desenvolvimento das capacidades criativas inscritas no inconsciente.
Estas áreas da mente em que a lucidez, a criatividade, o pensamento, a ética e a estética são as decisivas virtudes para que a investigação se dê numa procura a permitir que aconteçam as alterações sócio-culturais que tendem inevitável e naturalmente para um Bem-comum a toda a Humanidade.
É que métodos ou modelos deixados instituir e tidos como científicos e que se instalam para impor uma qualquer ordem-social através de devotas terapias caprichosas é algo de perverso e desumano. Deixemo-nos então ficar pela ordem-natural das «coisas» em que precisamente tudo aquilo que é destrutivo em si mesmo, inevitável e NATURALMENTE acabará por se auto-aniquilar.

a razão intuitiva


(…) a respeito, de “emoção afirmativa”, de “sentimento do sim”, que faria aquiescer à realidade em seu todo. Há, na vida algo a que nos agarramos e que, apesar das vicissitudes, a torna preferível ao “néant”, ao nada, do qual o sentimento do não seria a expressão. Pode-se, aqui fazer referência a um belíssimo texto de JULIEN CRACG: «Por que a literatura respira mal», no qual ele faz uma distinção entre aqueles que, como Claudel, escrevem a partir de um “sim absoluto, eufórico, frente a tudo que advém, aqueles que têm uma formidável apetite por aquiescência”, para os quais escolher está fora de questão, para os quais tudo é bom, eventualmente até o mal, e aqueles que, como SARTRE, a partir de um “não inscrito na afectividade profunda”, a partir de um “não em parte visceral”. (...)... para observar que foi, antes, uma literatura e um pensamento do «não» que triunfou durante a modernidade.
(…)
… e agora que a Filosofia da História, naquilo que ela tem de linear e seguro, está saturada, pode-se imaginar que a “regressão” seja a expressão de uma energia que não tem mais futuro. Ela é semelhante a um refluxo que empurra as águas de volta para a desembocadura.
Num pequeno texto de grande finura, FERNANDO PESSOA imagina ou recria um diálogo fictício entre duas pessoas em um salão de chá. Ele conclui dizendo que mais que o “de um romancista, meu trabalho é o de um historiador. Eu reconstruo contemplando”. Pode ser que tal atenção não convenha ao cientista. Nem por isso ela deixa de traduzir a força da vida imaginativa, que não cria a partir de nada mas contenta-se em fazer sobressair a lógica interna de um fenómeno. Continuando com Fernando Pessoa em O LIVRO DO DESASSOSSEGO: “Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher”.
Por mais paradoxal que isso possa parecer há um poder da palavra que corresponde à potência das imagens. Num momento em que domina a sensibilidade estética, um e outro entram em sinergia; é precisamente o que funda a metáfora. (…)



MICHEL MAFFESOLI (sociólogo)
ELOGIO DA RAZÃO SENSÍVEL – Editora Vozes

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