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JEAN-PIERRE DUPUY e a miséria da ECONOMIA

AS PIRÂMIDES DA EXCLUSÃO

A FILOSOFIA SOCIAL E POLÍTICA 
PERANTE A MISÉRIA DA ECONOMIA

(...)
No centro da economia, há aquilo a que Dumouchel chama de «exterioridade de terceiros». Esta figura é contemporânea do enfraquecimento geral do sistema dos interditos e das obrigações de solidariedade, que inúmeros bons autores, e não apenas Girard, ligam à influência do cristianismo. A dessolidarização da comunidade tem por efeito a intensificação das rivalidades miméticas não produz a polarização contra uma vítima única, própria da crise sacrificial. Os homens estão mais do que nunca fascinados pelos duplos, que odeiam abertamente e veneram secretamente, mas estas rivalidades não abrangem a totalidade do espaço social. Os terceiros estão demasiadamente implicados nos seus próprios fascínios para não se sentirem exteriores às rivalidades dos outros. Não têm de tomar partido e vêem demasiado bem  a verdade da violência, a saber, a reciprocidade: nada separa os violentos, a não ser o seu próprio ódio. Vêem isto nos outros, mas nunca neles.

Os homens são terceiros exteriores uns para os outros. Visto que todos se furtam às obrigações de solidariedade, porque estão fascinados com outra coisa, afastam-se dos vencidos que os antagonismos dos outros produzem em redor. A ordem económica é a construção social da indiferença às desgraças dos outros. Não são as relações entre os rivais que, dentro desta ordem, estão marcadas  pela maior violência, mas as relações de cada um deles com os outros, ou seja a relação entre terceiros. É a recusa dos terceiros em apoiar os perdedores que sanciona o seu fracasso e o transforma numa verdadeira condenação à morte social, e por vezes, física, muito mais do que  os golpes que lhes foram desferidos pelos vencedores. Dumouchel analisou nestes termos a Revolução Industrial do século XVIII inglês e a remodelação dos bens de raiz que dela resultou. Foi nesta época que se fez, pela primeira vez, a pergunta, que continua a ser a nossa: mas de onde vêm, então os miseráveis, exactamente quando a riqueza aumenta?

Os «excluídos» não são vítimas sacrificiais, porque, longe de serem o foco do fascínio geral, morrem devido à indiferença de todos. Porém perguntar-se-á, não estaremos obcecados pela pergunta que nos fazem? Sem dúvida que sim, mas enquanto vítimas, é essa toda a diferença. Nós modernos, estamos obcecados pela questão das vítimas, é essa a diferença. Em filosofia moral e política, como prova só quero que a obra de Rawls, esse assalto frontal contra a hegemonia utilitarista, que se pode interpretar como uma poderosa máquina anti-sacrificial. Dentro desta concepção da justiça -  que Rawls baptiza «justiça como equidade» -, a prioridade das prioridades é o destino dos mais desfavorecidos. É a sua liberdade e  o seu bem-estar que se deve tornar tão grandes quanto possível, nem que para isso se tenha de renunciar a melhorar a situação das muito mais numerosas classes médias, nem que para isso se tenha de aceitar as desigualdades. Os princípios que exprimem a justiça como equidade podem pôr-se sob a forma reunida seguinte: qualquer desigualdade que não esteja ao serviço dos pior favorecidos é injusta, e isto em três domínios absolutamente hierarquizados: as liberdades e os direitos fundamentais, em primeiro lugar; as hipóteses e as oportunidades a seguir; o acesso aos recursos e às riquezas económicas e sociais, finalmente. Os pior favorecidos, portanto aqueles que têm mais hipóteses de ser as vítimas sacrificiais, são «sagrados». A metáfora religiosa é evidentemente incómoda, visto que, por «sagrado», se pretende dizer aqui que não será sacrificado.

Estamos obcecados pela questão das vítimas, mas isso não origina que o seu destino seja mais invejável. As vítimas são tão importantes para nós, que, doravante, é em nome das vítimas que perseguimos. Uma variante cómica deste desvio perverso é o «multicultarilismo» americano. Quanto mais sinais vitimários acumularem, mais seguros ficarão de aceder aos privilégios. Tal como Girard escreve, citando Bernarnos: «O mundo moderno está cheio de ideias cristãs que se tornaram loucas.»

(...)

JEAN-PIERRE DUPUY, «Ética e Filosofia da Acção», Pensamento e Filosofia, 2001


JEAN-PIERRE DUPUY e a conformativa ECONOMIA

(…)
Não é de moralização que o mundo dos negócios mais precisa; é da clara compreensão de que ao «pagar», o político assina a prazo, a sentença de morte. 
(…) Se, ao menos se pudesse manter a economia no devido lugar! Porém tem uma tendência irresistível para tudo invadir. Para fazerem compreender bem a lei da oferta e da procura, dois professores da Universidade da Virgínia, Gordon Tullock e Richard McKenzie, incitaram nos anos setenta, os alunos a praticar a prostituição. 

(…) … Que ninguém se apresse a gritar que isto é um escândalo. Em matéria de ética, a moral é má conselheira… Se uma troca recíproca satisfizer ambas as partes e se, por outro lado, ninguém sofrer com ela, quem pode criticá-la? A lei? Sabe-se que a lei pode ser injusta e que não é imutável. Engraxo-te as botas, prestas-me um serviço ao fazer com que obtenha um contrato. A justiça conformada aqui com a justiça das trocas, é automaticamente assegurada pelo consentimento das partes. 

(…) … O mercado cria laços em que a afectividade não tem lugar…

(…) … Para qualquer pensamento crítico. O mercado é a antitradição por excelência (…)


(…) Mais ainda do que nas obras precedentes, O Hayek de “The Fatal Conceit” está consciente da relação de ódio e de amor misturados que os homens têm pela ordem extensa do mercado – a que chama a maioria das vezes, a «civilização». O que pôs o homem na via da civilização, escreve, «não foi nem a sua razão nem uma “bondade natural” inata […], foi apenas a amarga necessidade de se submeter a regras de que não gosta, a fim de resistir a grupos rivais que já tinham começado a expandir-se por terem encontrado antes essas regras». Pela sua própria abstracção, o mercado quer uma disciplina exigente, uma moral compulsiva. A civilização é um «fardo» e os homens não vêem facilmente, os benefícios que ela dá. 

(…) … O indivíduo auto-suficiente e independente que a teoria económica postula não se pode sujeitar à influência dos semelhantes. E, contudo Hayek atribui à imitação um papel central. Não é o único evidentemente: Smith, tal como vimos, e Keynes, tal como iremos ver, fazem a mesma coisa. A companhia não é de desprezar: são os melhores economistas de todos os tempos que se encontram juntos neste ponto.

(…) … O problema, evidentemente, é que Hayek dificilmente pode afirmar que o mercado passou no teste com êxito, visto que toda a sua obra se apresenta como uma crítica radical, e temos a vontade de escrever, «racional» da civilização moderna, culpada de se ter deixado seduzir pelas sereias do construtivismo.


(…) … No estudo da especulação financeira, Keynes vê bem, tal como Hayek, o papel fundamental da imitação. Numa situação de incerteza radical, tal como a que prevalece num mercado financeiro em crise, a única conduta racional é imitar os outros.

(…) O erro «fatal» do racionalismo construtivista é pensar que a razão, consciente e voluntária, pode governar a vida mental e psíquica. Verdadeiro é o contrário: tal como tudo o que faz a vida do espírito, a razão é ela mesma governada pelos esquemas abstractos que a compõem. A razão, o mundo das nossas ideias em geral, apenas «se verifica» no mundo do espírito, para recordar a uma noção chave da filosofia do espírito (“supervenience”). Que presunção imaginar que poderia “reconstruí-lo” à vontade ou mesmo substituir-se-lhe! O espírito é irremediavelmente opaco a si mesmo, não pode pôr-se no exterior de si mesmo para se contemplar no seu todo e fazer a teoria do seu próprio funcionamento.
(…)

JEAN-PIERRE DUPUY, «Ética e Filosofia da Acção», Pensamento e Filosofia, 2001

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