07 Setembro 2006

Imagina-se o INCONSCIENTE

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O conhecimento constrói-se através dos elementos constituintes das figurações mentais, inscritos em forma de IMAGENS, que se vão manifestando activa e adequadamente numa metódica desconstrução para dar origem a outras novas IMAGENS que por sua vez, vão-se reproduzindo autónoma e criativamente pela «comunicação» escrita, verbal, gestual, musical e (ou) plástica e em interacção num contínuo e ímpar processo de reconstrução com as respectivas representações.
A existência de figurações mentais flúem saudavelmente com a realidade. E é na falta ou na impossibilidade de se transmitirem todos os significados dessas figurações que a prostração e o padecimento se instalarão.
Todo este processo natural e automático da mente se insere no trabalho do desenvolvimento do inconsciente, que sempre fez parte do ser humano e que não carece de mediadores ou vãs intromissões para frutificar-se.
Tendo a psicanálise como objectivo a cura do inconsciente, pergunto até que ponto ela não estará a interferir demasiado e até tão negativamente ao ponto de «castrar» a «matar» por completo todo este processo tão natural do desenvolvimento das capacidades criativas inscritas no inconsciente.
Estas áreas da mente em que a lucidez, a criatividade, o pensamento, a ética e a estética são as decisivas virtudes para que a investigação se dê numa procura a permitir que aconteçam as alterações sócio-culturais que tendem inevitável e naturalmente para um Bem-comum a toda a Humanidade.
É que métodos ou modelos deixados instituir e tidos como científicos e que se instalam para impor uma qualquer ordem-social através de devotas terapias caprichosas é algo de perverso e desumano. Deixemo-nos então ficar pela ordem-natural das «coisas» em que precisamente tudo aquilo que é destrutivo em si mesmo, inevitável e NATURALMENTE acabará por se auto-aniquilar.

23 TRAÇO(S):

PreDatado disse...

Um assunto sobre o qual nunca me debrucei e do qual não tenho um conhecimento particular. mas gostaria de ver aqui uma boa polémica sobre o tema. Por exemplo um comentário do Júlio Machado Vaz. Será que ele aqui vem?

Francisco Fuchs disse...

"Contra a psicanálise nós só dissemos duas coisas: ela quebra todas as produções de desejo, ela esmaga todas as formações de enunciados (...) O fato é que a psicanálise fala muito do inconsciente, ela até mesmo o descobriu. Mas na prática, é sempre para reduzi-lo, destruí-lo, conjurá-lo. O inconsciente é concebido como um negativo, ele é o inimigo."

Gilles Deleuze & Claire Parnet: Dialogues, terceiro capítulo.

Forte abraço, Alice.

Marginal disse...

«O conhecimento constrói-se através dos elementos constituintes das figurações mentais, inscritos em forma de IMAGENS (...)».

Sim, ALI_SE, mas porque só em forma de imagens? Porque não sins, paladares, ideias ou até pensamentos difusos?
Por outro lado, as figurações mentais não estarão já, uma vez decifradas cognitivamente, no consciente?
A questão mantém-se - o que é o inconsciente?
E como não sabemos, porque só conhecemos o consciente, naturalmente terás razão quanto à psicanálise pelo facto de se tentar interferir, formatar até (como sempre pretendeu e pretende o cientismo, expressão máxima de todos os positivismos que nos vêm avassalando desde finais de oitocentos), o que ainda não é e não se sabe se poderá ou não vir a ser e de que forma e em que momento.

ali_se disse...

PRE
Seria muito bom que estes temas fossem debatidos com toda a seriedade.

FRANCISCO
Que bom ver-te por aqui! E para além de DELEUZE e PARNET, são muitos os autores consagrados que têm escrito sobre este tema e que com certeza tu conhecerás bem, como por exemplo PETER MEDAWAR, Prémio Nobel da Medicina, que há vinte anos atrás alertou a Humanidade para os perigos da Psicanálise, pois considerava-a o maior erro do século.

MARGINAL
Os cheiros, paladares, cores são alguns dos elementos constituintes e ao mesmo tempo reconstituintes das figurações mentais. O pensamento é feito de imagens e a «ideia» até à sua concretização enquanto ideia definida, é tão-só e unicamente um somatório das imagens indefinidas à procura da imagem que lhe dará toda a sua exacta significação.
As figurações mentais estão sempre e primeiro associadas ao inconsciente e que se poderão ou não articular a interagir com o consciente e, relativamente às representações, essas dizem apenas respeito ao consciente ou o cognitivo-comportamental.
E porque felizmente sonhamos, o inconsciente existe e IMAGINA-SE…

A todos um abraço e muito obrigada.

Ana Almeida disse...

Olá, Alice.
Foi com agrado que li este seu texto e é com uma grande estima pela sua abertura a um debate que respondo ao seu convite de o comentar.

Começo por expor a minha ignorância ao dizer-lhe que não consegui entender o que pretende dizer com “elementos constituintes das figurações mentais”. Parece-me que a mente humana enquanto “objecto de investigação”, partilha com o corpo a coincidência de ser um objecto do esforço do nosso entendimento e simultaneamente algo que experienciamos subjectivamente em permanência. Nesta medida, parece-se “natural” que seja “alvo” de múltiplas e variadas teorias sobre o seu funcionamento, fundamento, origem, objectivo, etc.
Por “elementos constituintes das configurações mentais” depreendo com base no contexto que as “configurações mentais” sejam aquilo que em linguagem coloquial se poderiam chamar o conjunto de pensamentos, imagens, emoções, sensações e impressões que uma determinada pessoa percebe subjectivamente num determinado momento. Não sei se esta minha leitura/interpretação se aproxima daquilo que pretendia transmitir.

Não me quero prender a pormenores e por isso vou dar continuidade ao meu comentário. Genericamente há teorias dentro da psicanalise que se aproximam tanto quanto eu consegui perceber do que expôs. De acordo com um determinado psicanalista (Bion e posteriormente outros adoptaram a mesma perspectiva) a capacidade para pensar (que ele distingue de conhecimento) constrói-se com base numa dinâmica de processos de integração e desintegração de “unidades base” de significação e simbolização aos quais dá o nome de elementos-alfa. Os elementos-alfa serão transformações de um outro elemento (elemento-beta) intimamente associado à sensorialidade. É uma teoria bastante complexa e difícil de expô-la de forma rápida e sucinta sem sacrificar muito da sua riqueza em meia dúzia de palavras.

Sobre as suas observações em relação à psicanalise como repressora do inconsciente e como tendo por objectivo curar o inconsciente, não correspondem à realidade de nenhum escola de psicanalise, tanto quanto eu conheço. É verdade que Freud cunhou e trabalhou muito a noção de inconsciente como hoje em dia estamos habituados a pensar nele, mas antes de Freud, muitos filósofos percebiam que nós não estamos sempre conscientes de todas as coisas. Freud deu ao inconsciente uma definição mais operativa e inicialmente concebeu-o como um lugar, mas alguns anos depois o próprio Freud modificou esta perspectiva e passou a considerar que “inconsciente” é fundamentalmente uma qualidade, uma característica de determina coisa (ideia, sentimento, etc.). Com a 2ª tópica, Freud concebeu a mente como sendo constituída por “instâncias” e identificou 3 (Id, Ego e Supergo). Cada uma destas instancias tem uma relação com a qualidade inconsciente ou consciente, por exemplo, Freud considerava que o Id era fundamentalmente inconsciente, que o Ego e o Superego tinham “áreas” conscientes e inconscientes.

Num determinado período, Freud considerou que a patologia mental (o sofrimento psíquico) é gerado pelo excesso de repressão dos impulsos inconscientes, essa repressão era feita pela própria pessoa ou mais correctamente por uma parte da mente dessa pessoa e ainda mais especificamente pelo superego que seria demasiado rígido e punitivo. A psicanálise, nessa época, visava pelo contrário a libertação dos impulsos inconscientes e a integração dos mesmos na personalidade da pessoa, por forma, a que esta não tivesse que os reprimir e portanto estrangular a sua criatividade. A criatividade sempre foi vista pela psicanálise como um “sinal” de saúde mental. Aquilo que a psicanálise considera patológico é a emergência “pura” do Id que esmaga a realidade, deixando a pessoa incapaz de perceber e diferenciar o que é a fantasia da realidade. Uma pessoa em delírio confunde a sua realidade interna com a realidade externa e essa confusão é geradora de um profundo terror porque a pessoa deixa de saber quem é, onde está e como relacionar-se com ela própria e com os outros.
Gostaria ainda de dizer muito mais coisas, mas temo ter sido já demasiado longa. Espero ter contribuído para o debate sobre este assunto.

lobices disse...

...deixar que a "ordem natural das coisas" se autodiscipline e se autoaniquile? Claro que sim, tal só não acontece aos que pretendem ver na "análise" a resolução dos problemas
...enfrentar o problema e, exactamente, deixar que a ordem natural da vida, aniquile esse problema através do ressurgimento de um outro, novo ou velho
...em tudo, na verdade, tudo se transforma naturalmente
...porquê querer alterar a "ordem" pré estabalecida pelo Universo?

ali_se disse...

Muitíssimo obrigada ANA ALMEIDA pela sua tão pronta, esclarecedora e enriquecedora contribuição nesta polémica que nos preocupa a todos, porque a todos vai afectando de uma ou outra forma… num enorme aumento de desconfianças, medos e dúvidas!
Tenho recebido alguns emails sobre este post, que muito gostaria de vê-los aqui colocados em comentário, o motivo de não virem para aqui directamente é sempre por uma qualquer preocupação ou receio de não se dominar tecnicamente esta ou aquela matéria. Mas o que aqui está em causa, não é o de dominar matérias e de ver quem ganha, perde ou falha… o importante aqui é o Sentir e o Pensar de cada um de nós, é a necessidade de questionar-se ideias já feitas, numa possibilidade de apresentar-se outras ideias num contributo para um «bem» que urge comum a todos.
Assim, voltarei mais tarde, para com um pouco de mais tempo, acrescentar que «imagens» em que outros pensamentos e ideias se me (nos) interrogam.
Um abraço e até já…

Fred Girauta disse...

Alice,

sempre tive as minhas desconfianças com a psicanálise.
Também a vejo como algo que pode limitar ou cercear a criatividade.
mas o meu conhecimento a respeito do tema é parco, minhas desconfianças são intuitivas.
É um belo texto o seu, mas não entendi a expressão "curar o inconsciente". A
intenção da psicanálise não seria a de desnudá-lo para expor o(s)
sintoma(s)?
É muito difícil para mim aceitar que o inconsciente possa estar doente.
Afinal, como podemos localizar a fronteira entre loucura e normalidade?
Sei que as minhas colocações são un tanto lacunares, mas como já o disse, são apenas desconfianças...

abração.

henrique doria disse...

Os psicanalistas sõa os bruxos dos tempos modernos. Beijos.

thorazine disse...

"A existência de figurações mentais flúem saudavelmente com a realidade."

Não acredito na dependência das figurações mentais pela realidade.

A realidade é uma suposição, as "figurações mentais" tenho a certeza que as experiêncio. Já viu os trabalhos feitos nos tanques de isolamento nos anos 50 e 60? "Isolation tank by John Lilly"

A mente sem estímulos não deixa de ser mente.


Em relação à "ordem natural das coisas", não se se tal definição existe. A vida só por si, em relação ao Universo, é uma perturbação da ordem natural das coisas. O pensar (com arquétipos humanos) é uma fuga ao normal.

Não rei até que ponto existe o bem e mal, o mais ou o menos correcto. É sempre tão relativo...e os pontos de guia (por exemplo o Universo) não é algo que se possa ignorar tão facilmente.. :))

Gostei do seu blog.

Cumprimentos. ;))

contradicoes disse...

Li atentamente o post, muito interessante aliás e os comentários que suscitou. Há um que me deixa perplexo, ao referir porquê querer alterar a "ordem" pré estabelecida pelo Universo?
Fazendo nós parte deste Universo é a nós que nos cabe alterar a ordem estabelecida desde que concluamos que a mesma está errada.

ali_se disse...

Deixo-vos com dois excertos:
1º discordâncias entre Freud e Jung
Jung quebrou "a primeira lança" por Freud num congresso em Munique onde Freud "foi propositadamente omitido, a respeito das neuroses obsessivas". Logo em seguida, em 1906, escreveu um artigo numa revista médica sobre a doutrina freudiana das neuroses e acabou advertido por dois colegas de que não teria futuro universitário que mantivesse aquele rumo. Jung continuou a defesa de Freud, com a "única diferença que, apoiado em minhas próprias experiências, não podia concordar que todas as neuroses fossem causadas por recalques ou traumas sexuais. Essa hipótese era válida em certos casos, mas não em outros." (…)
Três anos depois do primeiro encontro, em 1910, ainda em Viena, Freud repetiu a Jung o pedido de não abandonar a teoria sexual. Para Freud era preciso fazer dela "um dogma, um baluarte inabalável". Jung sentiu-se chocado com a proposta: "ele me pediu isso cheio de ardor, como um pai que pede aos filhos que vá à Igreja todos os domingos." Esse acontecimento, segundo Jung, "feriu o cerne de nossa amizade."


2º Diálogo Filosófico de Carlos Drumond de Andrade que foi considerado o maior poeta brasileiro do séc.XX:
• As coisas não são o que são, mas também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.
• Então, que são as coisas? - inquiriu o estudante.
• As coisas simplesmente não.
• Sem verbo?
• Claro que sem verbo. O verbo não é coisa.
• E que quer dizer coisas não?
• Quer dizer o não das coisas, se você for suficientemente atilado para percebê-lo.
• Então as coisas não têm um sim?
• O sim das coisas é o não. E o não é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.
O professor tirou do bolso uma não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno, porque o chocolate era não.


E para concluir e confirmar o que aqui foi dito vejam e oiçam este vídeo de 10 minutos neste link: http://xl.sapo.pt/?play=/MTE1NzYzNDIyNA==/MjAwNjA5MDdfY29tZW50YXJpb2F1c3RyaWFjYQ==/NzQ4YzBhM2VjZTQzNDNlOTAyZjFiZjg2MzlhNGQ5ODE=
Fiquei horrorizada com o estar deste senhor, assim tão confortável e ironicamente a olhar os que sofrem, como é possível existirem pessoas destas, a serem respeitadas e ainda por cima a ensinarem esta forma de vida social e profissional, com estas ideias tão imperiosas, astutas e modelares de verdades tão mentirosas, a prejudicarem a Humanidade!
Mas afinal para que serve a psicologia e a psicanálise em situações destas? Onde estão os especialistas?
Não seria mais digno se estes psicoterapeutas dissessem a todos nós que a investigação psicológica iria dar o seu passo em frente a aplicarem todos os esforços humanos num exemplar e derradeiro desafio e com toda a seriedade mostrar posteriormente resultados definitivos a fazerem da Natascha uma pessoa verdadeiramente feliz? Mas não, disse o que se disse, todos dizem o mesmo, é aquele o discurso, num conforto tal de nada nos dizer porque nada há a fazer. Estão a ver a Natascha nas mãos deste senhor e dos outros psicanalistas e profissionais destas matérias que ele também criticou...? São iguais?
E depois diz: «qualquer não significava a morte dela…» exactamente! Mas se ela conseguiu dizer um não a toda aquela situação monstruosamente adversa, acha que agora vai passar mal? Só passará mal se se deixar influenciar e manipular pelas ideias psicanalistas e afins, e tomar drogas (anti-depressivos) a deixar-se aborrecer constantemente com perguntas e com a CULPA, do sempre habitual apontar de dedos, seguido das suas respectivas misericórdias! Mas depois de tudo o que ela passou naquele cativeiro e agora já cá fora pelos seus próprios meios, não creio que ela entre nesta prisão de visões psicanalistas, psiquiátricas, etc e tal! Ora, ora…
E depois diz e muito bem: «Diante do sofrimento, somos meninos assustados…» … Mas por favor não nos queiram fazer acreditar que não é mais possível continuar a não acreditar! Assim não, por favor! Então quer dizer que ela já está condenada… POIS!
É que quanto mais olhamos para alguém como uma vítima, mais esse alguém se sentirá uma vítima!
Aos olhos destas pessoas incultas e de um tão reduzido conhecimento a pensarem que ainda poderão continuar muito mais tempo a reinar com este estar, por este caminho nasceríamos já mortos, condenados à doença dos que aprenderam a fazer da vida dos outros uma doença conveniente, sem qualquer possibilidade de por aqui se continuar mais.
Pessoas como este senhor Professor, só levam a que existam cada vez mais sequestradores e manipuladores de Natascha’s… Mas é que as Natascha’s do presente e do futuro irão com toda a certeza saber-se defender do que lhe é hostil, porque irão saber PENSAR a alterar o que está mal… É só uma questão de tempo!

E porque muito trabalho há pela frente…
Um MUITO OBRIGADA a todos: (por ordem dos comentários) ao Vitor, ao Francisco, ao Carlos, à Ana, ao Joaquim, ao Frederico, à Thorazine e ao Raúl

Gostaria de acrescentar que estas temáticas irão ter continuidade em outras postagens valorizando o que aqui foi dito e sugerido, como o exemplo do assunto muito relevante dado pela postagem da Thorazine entre outros.

thorazine disse...

Só um reparo: o thorazine. Não tem relevante importância neste mundo "bloguístico" mas pronto, fica o reparo.

O seu post (o primeiro) fez-me pensar.

Pode também ser facilmente encarado como uma apelo à liberdade de cognição.

A sociedade (como ideal) procura sempre uma normalização das pessoas. E isso verifica-se em coisas tão estranhas como a moda. (Então nascemos todos dieferentes e o objectivo (na moda) é integrar-mo-nos num grupo de pessoas que seguem UM ideal). É tipo um estado totalitário em que as pessoas aderem livremente sendo punidas "socialmente" cada vez que fogem às directrizes do ideal. Quem daqui não olharia e faria o julgamentos (nem que fosse só para si) se visse alguém ao vosso lado sentado no comboio com endumentárias do séc: XVI? E em relação a personagens como "Marlyn Manson"? Não será só uma forma de expressão? E o Freddy Mercury?

Hoje em dia a liberdade de cognição e de expressão são socialmente censuradas. Não a escrita, mas a corporal..a humana.

Seja pelos pais que dão "Ritalin" aos filhos para estes serem "normais", seja pelos médicos que amenizam as emoções com "Prozac" não deixando o ser humano literalmente ser humano (ou não o ser, se assim o quiser). Acrdito que o Prozac tenha os seus benefícios, utilizado devidamente e em situações específicas. Não como "solução final" para este admiravel mundo novo.

Seja pelas políticas anti-droga, que em vez de combater o narcotráfico que alimenta as redes de tráfico de armas, de humanos e o crime organizado "combate" o cidadão que nunca prejudicou (directa ou indirectamente [eu sei que isto é relativo] terceiros) e que simplesmente quer alterar o seu estado de consciência, quer modificar a sua neuroquímica, quer produzir artificialmente as suas endorfinas e explorar o seu inconsciente. Querem interferir na pessoa que nós vamos ser, o que vamos pensar e a maneira como vamos agir.

Nos somos, literalmente, o que comemos, o que bebemos e o resto que inserimos para dentro dos limites da pele. Quem tem o poder de decidir dentro desses limites? Quem tem o poder de decidir se o corpo deve viver ou morrer? Se devemos estar lúcidos ou inebriados?

Só porque devemos ser "normais"? O que é ser normal? O único requesito é não interferir na liberdade de terceiros, de resto devemos alterar e não alterar a ordem, ser e não-ser. Devemos agir consoante a nossa prespectivas. Se nenhum Deus existe na nossa (na minha) precepção porque não deveremos encontrar nós a nossa vidão do mundo?

Ninguém nos dá a concreta noção de realidade, como poderá um político, um médico, um psicólogo um outro ser humano com igual conhecimento do que é a vida (a sua) dar-nos ordem de como deveremos agir?

Obrigado por este texto. Um estímulo para outras percepções de assuntos já à deriva.

Cumprimentos!

AP disse...

Alice, já fez psicanálise no século XXI? Satisfaz esta minha curiosidade?
É que eu faço e parece-me que fala de outro mundo que não aquele que conheço...

ali_se disse...

Olá PM…
Eu fazer psicanálise? Mas fazer psicanálise para quê? Infelizmente, basta presenciar por aí o quanto ela têm sido nefasta para a sociedade!…
Eu tenho tentado aqui, clarificar a fundamentar o mais possível o porquê das minhas enormes desconfianças relativamente à psicanálise a alertar em reflexão o quanto ela poderá estar a ser inútil e até prejudicial ao ser humano.
É que se o PM «comunicar» com as grandes OBRAS Literárias, Artísticas, Científicas e (ou) Humanitárias, jamais necessitará da psicanálise, assim como irá ver o mundo de uma outra forma e igualmente poderá (a pensar por si mesmo) dar o seu Melhor contributo aos que de si precisam, a não deixar-se alienar ou manipular pelo que lhe é hostil e prejudicial, tanto para si como para o Mundo…
Quando digo «comunicar» quero dizer, quando em silêncio ou no silêncio de cada um de nós, que é sempre ímpar e genuíno, entramos na descoberta do mundo e dos nossos interesses (sempre direccionados para um Bem-Comum), tão vitais quanto inerentes à nossa natureza de seres. E este caminho far-se-á sempre e em primeiro lugar pela aprendizagem escolástica (ou obrigatória) através da leitura, da escrita e das respectivas expressões artísticas (musicais, cénicas, plásticas, etc.) e posteriormente por uma aprendizagem própria (ou livre), a acontecer natural e continuamente até ao final de nossos dias, pela aquisição ou não, depende, ou na simples fruição do presenciar-se Obras em seus autores consagrados assim como tudo o que diz respeito às suas manifestações artístico-culturais a que a elas indubitavelmente estão associadas.
Espero ter respondido às suas tão importantes quanto pertinentes questões.
E já agora e subjacente à sua pergunta, satisfaça-me também a minha curiosidade: Há quanto tempo faz e porque é que faz psicanálise?
Com toda a estima, um grande abraço e muito obrigada!
Alice Valente

AP disse...

Alice, julgo ter percebido as suas intenções, rumo de pensamento e estudo, mas infelizmente ou felizmente, não sei, o contacto com as grandes obras artísticas não me chegou para compreender o porquê de certas inquetações interiores, nomeadamente bloqueios de acção. Se após toda a análise, sentimento e decisão não conseguia passar à acção, quis tentar perceber o que em mim me levava a proceder assim. Isto há 2 anos, não chega bem. Hoje faço-a por prazer! pode-lhe parecer estranho... mas é a vida :-)

Alice, sinto a minha psicanálise como espaço de liberdade onde deixo fluir pensamentos e conversa. Com a ajuda analisante, detenho-me em alguns aspectos que tento perceber, nomeadamente nos percursos de vida e suas ligações a aspectos que não compreendo no meu caracter.

Sou "consumidor" de arte, de muita mesmo, por gosto e às vezes por obrigação, de literatura, teatro, cinema, artes plásticas, dança e ópera (por esta ordem) e claro que fazem pensar, sentir e desejar contribuir para um mundo melhor e para conhecer o ser humano, mas atenção, para mim, cada ser é um ser, não formatável (estamos aqui de acordo) nem por obras artísticas, nem por psicanalistas.

Considero também, que muitas vezes a auto-análise pode ser destrutiva, em casos de pessoas demasiado exigentes consigo mesmas e com tendências para a auto-destruíção!

Por fim, o respeito pelas escolhas dos outros é um dos valores que mais prezo, e por isso não gostei da forma jocosa como respondeu à minha questão sobre se tinha ido a um psicanalista (acrescento agora, na Europa)neste século. E ao nefasto efeito na sociedade eu contraponho com benéfico efeito visivel em pessoas que comigo privam e com quem tenho intimidade.

No mundo melhor que ambos queremos, julgo que a intolerância e o preconceito são valores a banir, concorda por certo!

Espero ter sido esclarecedor, pois fui interrompido por telefones e reuniões.

com estima também, um abraço

ali_se disse...

PM
Tenho a agradecer-lhe o seu testemunho tão verdadeiro quanto sincero e de alguma forma revelador para mim da possível ajuda que a psicanálise lhe tem oferecido. Quando fala de auto-análise que pode ser destrutiva concordo consigo, no sentido de todas aquelas pessoas com uma personalidade em que se reiteram a uma sociabilidade de gloriosos vencedores e bem sucedidos a todo o custo, querendo isto dizer do terem de ser primeiro bem aceites socialmente, nem que para isso façam da vida dos outros um inferno… e que ambiciosamente terão de tomar um qualquer lugar de charneira… é destrutivo sim, é monstruosamente destrutivo, ainda assim bem ensinado e aceite por todos, são ganhadores reais, está-se bem para ele e os outros a quem ele foi prejudicando maioritariamente e duplamente, não interessam, não é?... É esta normalidade e estar que maioritariamente se instiga nas famílias, nas escolas, nas instituições, etc…!
Qualquer auto-análise está sempre num limiar, numa qualquer margem que poderá ser prejudicial para consigo próprio ou para os outros (o Todo) e na mesma proporção ela se poderá igualmente manifestar essencial para a transformação de qualquer modelo-social ou até para a alteração ou modificação de qualquer outro modelo (educativo, familiar, profissional…) numa auto-regulação desse mesmo tecido-social (sociedade) que se vai degradando…
Agora eu insisto em falar de uma parte de nós próprios onde a auto-análise poderá frutificar-se sem necessidade de interferências das vontades intuídas pelas regras do outrem colectivo, as tais que poderão ser prejudiciais… é uma qualquer posição em que perante um sofrimento que continua a não ser bem aceite, é que para mim existe sofrimento anunciador de que o que está mal não pode ser tolerado ou aceite, tem portanto de ser alterado, transformado e modificado, é onde entra a Ética e a Estética… E é nesse ponto não olhado, nem tido em consideração, sempre completamente esquecido e até negligenciado onde as emoções são tão fortes e reveladoras num qualquer domínio intuitivo, que terei sempre de me colocar necessariamente desse lado do nada, do insignificante, ponto crucial da mudança, da margem, do que é por vezes marginalizado, que poderá dar-se em revelador e benéfico para a ascensão ou para o precipício dessas vivências circunstanciais em seus autores e, não acredito que tenha de ser com a ajuda dos especialistas, não concordo mesmo… Existe um espaço interior em nós e no nosso pensamento que é incorruptível e que ninguém poderá interferir, podendo-se correr o risco de deixar de se matarem essas sementes e que acho que a psicanálise e suas teorias, têm devassado completa e assustadoramente todo esse campo do intelecto, sempre numa recorrência ao não deixar o Ser tocar e desfrutar dessa margem, insistindo sempre para um ensinamento de não se fugir da tal ordem-social, essa tal que é garantia de uma já tão manifesta, falsa e obsoleta normalidade, unicamente instituída aos que mais directa e altivamente os favorece. E os outros que ela (ordem-social) tão astuta e inteligentemente vai negligenciando e rejeitando? … Talvez discutindo pessoalmente e abertamente este assunto com especialistas das diferentes áreas… mas sem qualquer tipo de imposição de regras que em nada têm favorecido o desenvolvimento dessas capacidades ao enriquecimento do Ser…
Muito terei para dizer, mas hoje fico-me por aqui…
Muito Obrigada. Com estima e admiração, um abraço de Alice Valente

ali_se disse...

corrijo: (...)podendo-se correr o risco de se matarem essas sementes(...)

Marginal disse...

«Que está a mudar? Depois da repressão sexual, a libertação. Ao fim e ao cabo, continuamos a reproduzir o negativo ou o positivo absoluto, não a ambivalência.
Depois de ter libertado a sexualidade do repressão da era vitoriana, Freud acabou por a canalizar para o quadro restrito da economia doméstica. Quem não respeita o esquema que circunscreve a sexualidade ao território dos fantasmas parentais, vidé triângulo edipiano que codifica a sexualidade e a retira de qualquer ambivalência é, ou doente, ou perverso ou louco. O erotismo endémico (e outras formas de êxtase como o misticismo, a embriaguez e a toxicodependência), associada à rapina, é um sinal de bifurcação ópio para o esquecimento, gozo da morte alheia. Em qualquer bem conquistado, esse rumor éperfeitamente audível.
Os bens da rapina (e da retina) são bem conhecidos: o ouro, as mulheres, os escravos e a tirania. Só em tempos de fome é que o estômago domina. O eros só é possível se o corpo preserva toda a sua ambivalência e não se reduz a essa significação unívoca que é o sexo, codificado. Não há todo (ou o todo), dizia Lacan. Dois não fazem um, mas um par de forças. O que o sexo faz é distinguir. Ninguém é homem ou mulher sem resto como ninguém é homo ou heterosexual sem resto, escreve Jean-Luc Nancy. Afinal não é essa a questão do nome próprio que para Deleuze designa um efeito, um zigzag, algo que se passa entre dois como sob uma diferença de potencial?
A maior parte do tempo, a libertação sexual reduz-se à libertação da roupa. Que é a moda senão a encenação do corpo através dessa única significação que é o sexo? Triunfo da equivalência, derrota da ambivalência simbólica. Por isso o strip- tease fascina: provocando o desejo sexual, mantém-no à distância encanto da ambivalência. Para os povos que têm ainda o sentido do adorno, a roupa é a glória do corpo: Rien ne va aussi profond que la parure.
Deve ser por isso que a apocalíptica judaica e cristã apelam ao tema da roupa para dizer o brilho dos corpos gloriosos. O perigo que nos espreita é a libertação do corpo que não o abre à ambivalência, antes o encerra na monovalência duma sexualidade que se torna inteiramente positiva. Se os primitivos se passeavam nus é porque o seu corpo era visto como um rosto, como expressão simbólica.
Ora, se o rosto é invisível, o sexo também o é. O corpo não é apenas força de trabalho nem apenas fonte de prazer: libertá-lo apenas reforça a sua estrutura codificada.
A ambivalência não quer a revolução, ela é revolucionária em si, ao interromper a circulação ordenada dos signos através dum equivalente geral. A lei éo lugar em que se acumula o valor. Transgredir a lei significa medir-se ainda com ela, logo não sair da família. Escreve Galimberti, Se a lei do pai ou a moral puritana é hoje anulada pela pressão dos movimentos de libertação sexual, aquilo que se anuncia, quando não se abandona a lei mas nos limitamos a transgredi-la, é uma regressão ao seio da mãe que esta sociedade, que se tornou permissiva, tolerante, gratificante e lenificante tolera, suprimindo qualquer censura, qualquer repressão com a qual outrora defendia a lei do pai.
É preciso que a miséria sexual seja muita para que o sexo seja hoje uma preocupação dominante. Quando o corpo muda, então tudo está a mudar. O corpo tornou-se um campo de batalha: The body is a battleground, diz Bárbara Krueger numa das suas montagens.
A época anunciada por Donna Haraway em que o monstro, o híbrido vem extremar a categoria de corpo, substituirá o enigma de um corpo demasiado orgânico, logo viscoso e enigmático, por um outro, agora biotécnico, sem órgãos, limpo de paixões e de sentido?»

Excerto de "SEXO, TEXTO E CORPO VIRTUAL", ensaio de José Augusto Mourão

Benéficos disse...

Muito bem!

ali_se disse...

AVISO: O meu antivírus elimina automaticamente, sem me dar sequer a possibilidade de ler, todos os comentários que venham como Anonymous, recebendo eu posteriormente email por parte do Antivirus, de que comentário foi eliminado, por motivos de segurança.

SUGIRO: (se o seu comentário for pertinente e de interesse para toda esta temática e se ainda pretende apresentar-se como anónimo):

Em faça um comentário, NO ESCOLHER UMA IDENTIDADE, das 3 opções: blogger, outro e anónimo.
Escolha OUTRO e no NOME: coloque um qualquer nome (tal como o ex.: Marginal) e na SUA PÁGINA DA WEB: não coloque nada (nenhum nome ou se pretender simplesmente o endereço de email)

MUITO OBRIGADA. Alice Valente

Carlos a.a. disse...

A propósito desta aprofundada troca de impressões escrevi "do Ser, da Mente, do Corpo, do Sexo, da Psicanálise no seguinte endereço:

http://ideiassoltas.wordpress.com/

ali_se disse...

CARLOS!
Que bom ver-te por aqui! Muito obrigada e aparece sempre... SEMPRE! Um grande e forte abraço.

Acrescento que em similar polémica de alguns comentários-comentadores este post cruzou-se (ao mesmo tempo) com este: http://psisalpicos.blogspot.com/2006/09/burnout-e-depresso.html
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