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a árvore ao jardim
Alice Valente Alves

Arte e ciência ou o papel da imaginação

Há dois tipos de investigadores: uns para a ciência normal, outros para a ciência revolucionária. Nos períodos normais (no âmbito de um paradigma, digamos), são precisos investigadores que trabalham eficazmente para controlar todos os instrumentos técnicos e eles são «mestres artesãos». Hoje em dia, 95% dos investigadores da teoria das cordas são mestres artesãos. São sempre os melhores alunos de matemática e física, da licenciatura à tese de doutoramento, aqueles que são capazes de resolver os problemas matemáticos mais depressa e melhor do que os outros.
Mas nos períodos revolucionários são precisos visionários. Einstein foi um deles, tal como Neils Bohr. Kepler e Newton são exemplos raros de acumulação de ambas as qualidades. Os visionários decidem fazer ciência porque se colocam questões a que os seus manuais não respondem. Se não se tivessem tornado cientistas, poderiam ter sido pintores, escritores ou músicos. E, na verdade, há muitas semelhanças entre a criatividade artística e a criatividade científica.
Lembrarei apenas algumas famosas afirmações de Einstein.

«A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. Na imaginação cabe todo o mundo». Ou ainda:
«O Homem procura construir para si próprio uma imagem simplificada e inteligível do mundo; depois procura, até certo ponto, substituir o mundo da experiência por este seu cosmos, e assim superar o primeiro. É isto que fazem o pintor, o poeta, o filósofo especulativo e os cientistas naturais, cada um à sua maneira».

JEAN-PIERRE LUMINET - A CIÊNCIA TERÁ LIMITES? - FCG - Gradiva


Vejo a descoberta do HAR1 como um acontecimento seminal na história da ciência, marcando o começo de uma nova compreensão da evolução e da natureza humana, como um grande passo ao encontro da realização do sonho descrito em 1929 por Desmond Bernal, um dos pioneiros da biologia molecular, no seu pequeno Livro «The World, the Flesh and the Devil: Na Enquiry into the Future of the Three Enemies of the Rational Soul» (O Mundo, a Carne e o Diabo: Um Inquérito ao Futuro dos Três Inimigos da Alma Racional). Bernal encarava a ciência como a nossa melhor ferramenta para derrotar os três inimigos. O primeiro inimigo é o Mundo, significando as cheias, as secas, a fome e as alterações climáticas. O segundo inimigo é a Carne, significando as doenças infecciosas e as enfermidades senis. O terceiro inimigo é o Diabo, significando as paixões negras e irracionais que conduzem seres, à parte isso racionais, para o conflito e a destruição. Sou optimista quanto ao futuro porque vejo o HAR1 como nova ferramenta que nos conduz a uma compreensão profunda da natureza e à derrota final do nosso último inimigo.
(Sobre o que é o HAR1: ) Há apenas um ano, foi feita uma descoberta seminal por David Haussler e a sua equipa da Universidade da Califórnia, Santa Cruz. Na minha opinião, esta descoberta é uma chave importante para o mistério da mente humana. Foi publicada na revista «Nature» em Setembro de 2006. Haussler e os seus colegas compararam os genomas de diferentes espécies: ratinho, rato, galinha, chimpanzé e humano. Encontraram um pequeno pedaço de ADN em todos estes genomas a que chamaram HAR1, abreviatura para para Região Humana Acelerada 1. Este fragmento parece estar estritamente conservado nos genomas de ratinho, rato, galinha e chimpanzé, o que significa que deve ter tido uma função essencial que se manteve inalterada durante cerca de trezentos milhões de anos, desde o último ancestral comum entre as aves e os mamíferos até hoje. Mas o mesmo fragmento aparece bastante modificado, com dezoito mutações, no genoma humano, o que significa que deve ter alterado a sua função nos últimos seis milhões de anos, desde o ancestral comum entre chimpanzés e humanos até aos humanos modernos.
De algum modo, aquele pequeno fragmento de ADN expressa uma diferença essencial entre os humanos e os outros mamíferos. Conhecemos outros dois factos significativos sobre o HAR1. Primeiro, não codifica uma proteína, mas codifica ARN. Isso significa que não é em si próprio um gene, mas uma espécie de organizador controlando a acção de muitos genes. Segundo, o ARN que codifica está activo no córtex do cérebro embrionário humano durante o segundo trimestre de gravidez, quando a arquitectura básica do córtex está em construção. É provável que a rápida evolução do HAR1 tenha alguma a ver com a rápida evolução do cérebro humano durante os últimos seis milhões de anos. E a rápida evolução do córtex provavelmente proporcionou a base para a emergência da mente humana.

FREEMAN DYSON - A CIÊNCIA TERÁ LIMITES? - FCG - Gradiva

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