22 Setembro 2007

o óbvio e a ARTE

A Arte não se apresenta pelo que é óbvio. Arte vai para além das fronteiras de tudo o que é óbvio. Por sua vez, tudo o que é óbvio jamais está inserido no que é Arte e por isso, esta só conseguir assomar-se nas margens das impositivas regras e amarras do que lhe é óbvio.
Ao se apresentar o resultado duma obra, ela porque precisa na sua forma de se exprimir e dar continuidade a outros actos ou processos de criação, propõe-se sempre à reflexão na inerência da sua inesgotável auto-reflexão.
O que é óbvio não exorta à reflexão ou ao acto de pensar. O óbvio ou o que é óbvio em si mesmo automatiza-se sem esclarecimentos, e que por conhecer-se de antemão em todo o seu percurso de um antes num depois que lhe é requerido, confina-se a uma condição de não-comunicação.
E uma obra de arte estima-se enquanto arte se o óbvio não se verificar. A partir do momento em que o óbvio transpareça numa obra de arte, imediatamente a peça que tida de obra deixará de o ser e reduz-se assim a uma qualquer situação de não-comunicação.

Embora exista uma consequente relação do óbvio com o visível do que é dizível nos resultados das afirmativas cientificidades, a arte essa comunga antes de mais, não com a aparência do que é óbvio, mas sim na consequente relação de uma objectividade que por intuitiva tornar-se sempre subjectiva e que jamais se deixará condicionar pelo que lhe é aparentemente óbvio.

É nesse mesmo visível de uma obra do que é dizível no indizível ou nessa mesma antecipada conexão objectiva que se torna sempre subjectiva, que o óbvio não tem lugar. Indizível esse que se regozija com o espaço de um novo por devir ou de tudo aquilo que vem ou virá, num benéfico presente da criação ou do que é criativo. E não ao que é relativo ao novo da novidade e do especulativo ou seja, da novidade pela novidade a aniquilar, a tropeçar e a tornar-se mortífero em si mesmo, isto é, pela quantia ou por um muito de uma quantidade num quantificável que se esgota, se consome ou se transforma em lixo do que é consentâneo por tão repetitivo em que disputas ou competitividades, tornando-se pois, uma atroz escassez para os demais em que demasia. A arte situa-se assim, num novo que é afecto ou relativo à criação ou ao movimento do acto criativo, processo esse, que é o da verdadeira comunicação do pensamento, a dar com toda a singularidade e qualitativamente, lugar e espaço a todos por igual.

8 TRAÇO(S):

Carlos a.a. disse...

Grnde texto que será linkado, Alice, mas há coisas que, apesar de óbvias, revelam-se surpreendentes por nunca ninguém as ter sentido ou por uma mera mudança de perspectiva.
Acho que um dia, daqui por milénios se ainda existirmos, saberemos que a energia cósmica que tudo equilibra e regenera é afinal óbvia e simples, mas de momento, por não a sentirmos, é de uma complexidade do seu tamanho.

Beijinho

PostScriptum disse...

Um texto fabuloso que assino por baixo. Corroboro por inteiro tb o que o Carlos escreveu.
Um bom dia para a minha amiga.

Mário disse...

Criar um "estremecimento" do óbvio é uma perspectiva interessante. Nesta linha de raciocínio por exemplo as latas Campbel ou os detergente Brillo de Andy W. não se qualificariam como arte. Se são apenas aquilo que lá está na tela, um "product display" maior que uma página de revista mas menor que um "outdoor".

Por outro lado um retrato (fotográfico ou pintado) também é algo óbvio em si. Se a grande maioria dos que são feitos se fica por esse facto, o que se afasta do óbvio nos outros ?

ali_se disse...

CARLOS
Ora aí está, seria bom que isso acontecesse… mas estamos atrasados, muito atrasados no que diz respeito ao desenvolvimento do pensamento para um Bem mais Humano e humanitário, que diga respeito a todos por igual e não só para alguns, por isso a Arte faz muita falta, apesar de haver quem queira fazer muito mau uso dela.
E muito obrigada pelo link.
Beijinhos


MANUELINHO
Muito obrigada pelo comentário.
Um abraço


MÁRIO
Perante o seu importante e “estremecido” comentário, gostaria de acrescentar e que todos até sabemos, que as peças e os trabalhos de Andy Warhol não revelam qualquer tipo de sentimento, estado de alma ou de espírito, pensamento, sensações ou qualquer aspiração ou desejo ao que diga respeito ao sensível. Ele fabricava unicamente como produtos comercializáveis as pessoas e os objectos originários pelo uso excessivo do consumo e que por sua vez os dirigia a serem consumidos por esses mesmos consumidores, isto é, usava uns (os famosos) e os outros (os não famosos, mas que tinham ambição a tal), como se de peças bonitas e ornamentais se tratasse, de todos para todos e usando-os a todos como «coisas» decorativas, por isso a designação de poparte.

Relativamente ao retrato (fotográfico ou pintado) a ser considerado como óbvio em si, se foi feito só como um registo no tempo e como se de obviedade se tratasse, pois nada se irá descobrir nele que vá para além dessa imagem, é uma pois uma peça que é apresentada como que um registo e se bonita até eventualmente poderá ser usada como decorativa. Mas um retrato (fotográfico ou pintado) poderá pois, ser consideradas de obra-de-arte quando em seus traços eles possam transmitir algo que está muito para além do que lhe é óbvio, num qualquer movimento recíproco que é transmitido de imediato a suscitar um olhar mais aprofundado e reflexivo de quem o tirou, como que a provocar uma paragem para um pensamento e a sugerir, uma possibilidade de contínua criatividade.

Um abraço e muito obrigada

rui disse...

proponho também leitura de:

http://criticanarede.com/fil_tresteoriasdaarte.html

ali_se disse...

RUI
Esse texto e é bom que se leia até ao fim, conclui-se que os pedagogos, os teóricos, os estudiosos e os pseudo disto daquilo e daqueloutro e porque não implicados nas referidas experiências em seus artistas ou autores, nada conseguirão esclarecer e que por tão arrogantemente desconhecedores, conseguirão sim, baralhar e confundir ainda mais o que é a arte e a obra-de-arte.
É por estas falhas graves que nada abona à ARTE em seu VALOR e VALORES por quem até ensina o que é arte para resumidamente e com tanto palavreado nada dizer, precisamente por não a atenderem e depois porque nem sequer a vivenciaram numa aprendizagem escolastica.

E é por este tipo de discurso que por aí se escreve, se ouve e se ensina sobre o que é ARTE que na minha última comunicação na Faculdade de Letras do Porto afirmei:
É comum à tradição da Filosofia que sempre por demasiado associada ao teológico e ao científico, comodamente fechar os olhos e deixar-se tornar irredutível ao sensível e ao conceptual. E apesar da Filosofia se ter associado nas suas formalidades mais à Ciência do que à Artes é depois e sempre nas Artes que encontra a Razão e a Verdade fundamental para justificar a existência do Devir. E porque o Devir não precisa de retórica, mas sim de acção, é livre e gerador de acontecimentos de um nada inesperado por antecipado em prioridades, que embora indefinidas, advém com estatuto próprio e auto-regulador das universalidades.

Quando digo Artes, refiro-me à música, ao desenho, à pintura, à dança, dança coreográfica, às performances, à fotografia, à escultura, à poesia, ou seja, a todas as manifestas formas da Criação, do Artístico e do Acto Criativo.
(...)
Finalizo afirmando que, embora exista uma Estética como ciência onde a Arte se insere, necessitamos urgentemente de uma ciência ligada às Artes e aos afectos, à sensibilidade humana no Devir, em suma carecemos de uma ciência psicológica da Natureza/CORPO com o CORPO/Ser em DEVIR, presente em todas as manifestações do acto criativo e na preservação da Natureza, a criar equilíbrio ou a fazer contraponto ao psicologicamente correcto do DEVER presente nas ideias, conceitos ou ciências psicanalistas, teológicas, políticas, economicistas e mercantilistas e, que a serem tidas como únicas e obrigatórias a serem consideradas como prioritárias, impossibilitarão todo e qualquer espaço de liberdade para o Pensamento em criatividade. Assim o nosso corpo ao distanciar-se da sua natureza e a cumprir deveres e não devires, apresenta-se em sua caminhada para um caos. E converte-nos para a inevitável e consequente destruição do ser em sua Natureza.


Um abraço e muito obrigada

rui disse...

concordo alice,

a filosofia é sempre um beco sem saída, mas o interessante é que qualquer designação de arte é um beco sem saída.

Arte é tudo aquilo que alguém defina como tal. O dificil depois é concordarmos e definirmos parametros de qualidadde e avaliação.

para mim, por exemplo, qualquer manifestação sonora que eu faça com o intuito de fazer música é já música. e mais: o som do mar ou os pássaros não são música, mas se eu os ouvir como tal, passam a ser música na minha cabeça, como todos os sons que ouço. todoas as imagens também são quadros, todos os movimentos são dança e todas as palavras também são literatura.
portanto, ou a arte é tudo ou ela não existe.
e eu cada vez mais acredito que arte são as obras dos artístas ou apenas a nossa capacidade de observarmos/transformarmos/reproduzirmos a realidade dentro de cada um de nós.

abraço,

rui

ali_se disse...

RUI
Nem a Filosofia é um beco sem saída, nem a Arte é um beco sem saída, talvez assim queiram os que dela tentaram roubar seus principais propósitos.
E acredito que possivelmente só as duas juntas, Filosofia e Arte, possam fazer algo pelo SER-se Humano.
É que quando existe um intuito de Fazer sem o objectivo de hostilizar a ocupar ou a retirar o espaço dos outros, e a analisar este seu exemplo, é com certeza Arte, sobretudo porque induz à reflexão do cuidar e do proteger a preservar tudo aquilo que nos rodeia com o incentivo do que é a criação e do Criar e que se apresentam na sensibilidade e nos gestos afectos aos actos criativos do Pensar a Sentir.
Um abraço e muito obrigada