14 Junho 2008

ESPINOSA e o objectivo da filosofia: a VERDADE


Resta, enfim, demonstrar que entre a fé, ou teologia, e a filosofia não existe nenhuma relação nem qualquer afinidade, coisa que não pode ser ignorada por ninguém que conheça o objectivo e o fundamento destas duas disciplinas em tudo divergentes. O objectivo da filosofia é unicamente a verdade; o da fé, como ficou abundantemente demonstrado, é apenas a obediência e a piedade. Depois, os fundamentos da filosofia são as noções comuns, devendo toda ela ser deduzida a partir apenas da natureza; os da fé, por seu turno, são as narrativas históricas e a língua, pelo que não podemos deduzi-las senão da Escritura e da revelação, conforme demonstrámos no capítulo VII. A fé, portanto, concede a cada um a máxima liberdade de filosofar, de modo que se pode, sem incorrer em crime, pensar o que se quiser sobre todas as coisas. Os únicos que ela condena como heréticos e cismáticos são os que ensinam opiniões que incitam à insubmissão, ao ódio, às dissenções e à cólera; em contrapartida, ela só considera fiéis aqueles que, tanto quanto a sua razão e as suas capacidades lhes permitem, incitar à justiça e à caridade.

Por último, e tendo em conta que o que nós aqui apresentamos constitui o principal objectivo do presente tratado, gostaria, antes de continuar, de pedir encarecidamente ao leitor que se dignasse ler com particular atenção e reexaminar, uma e outra vez, estes dois capítulos. Oxalá fique persuadido de que não escrevemos pelo desejo de introduzir novidades, mas para corrigir coisas que andam distorcidas e que esperamos, um dia, ver finalmente emendadas.

BENTO ESPINOSA, TRATADO TEOLÓGICO-POLÍTICO
Excerto do final do Capítulo XIV

3 TRAÇO(S):

Pink&Blue disse...

Grande Espinosa!

ali_se disse...

Olá PINK
Espinosa é para mim o grande filosófico e a sua ÉTICA devia de ser lida e aprendida por todos.
Um abraço e muito obrigada

ali_se disse...

Sobre o comentário de Carlos Araújo neste post >(clique) AQUI

Verdades haverá uma para cada dia que passa, tornando até inverdades as verdades de ontem, mas é com a ética do desenvolvimento harmonioso do Ser que essa busca, sempre inacabada, faz sentido e fundamenta uma existência que encontrará verdades, sabendo que partirá sem a verdade saber. Uma vida de busca da verdade fundada numa ética do Ser é a Sabedoria que só a aliança entre a razão e sensação será propiciadora de ser alcançada.

Exacto Carlos, essas «verdades» de que falas dizem respeito às opiniões de cada um, que um dia são verdades e no outro dia poderão ser inverdades, aqui a Verdade a que Espinosa se refere ou a Verdade propriamente dita, terá a ver com o pensamento de cada um de nós na procura do aperfeiçoamento do Ser e com Ética e Razão em que para Espinosa, essa Razão tem o sentimento como íntrinseco e prioritário do Ser numa conciliação possível de Sabedoria e Entendimento.

E ainda neste seu Tratado, Espinosa diz o seguinte:

… é que a fé não requer tantos dogmas verdadeiros mas dogmas piedosos, isto é, que movem o ânimo para a obediência, embora na maioria deles, não haja nem sombra de verdade: basta que aquele que os abraça ignore que eles são falsos, pois de outra forma seria necessariamente insubmisso.
(…)
Dado, pois, que a fé de cada um de só se pode considerar piedosa ou ímpia consoante a obediência e a submissão, e não consoante a verdade ou a falsidade, e dado que ninguém duvida que a maneira de ser habitual dos homens é extremamente diversa, que nem todos estão de acordo acerca de tudo e que, pelo contrário, as opiniões regem os homens de maneira diferente e que as mesmas que levam um à devoção provocam noutro o escárnio e o desprezo…
… Conforme nós mostrámos, a fé não exige tanto a verdade quanto a piedade e só é piedosa e pode salvar em função da obediência, pelo que ninguém é fiel a não ser em função da obediência.
(…)


E porque se trata de um Tratado Teológico-Político diz o seguinte:
Os que administram o Estado ou são seus detentores, qualquer crime que cometam tentam apresentá-lo sempre como uma espécie de direito e persuadir o povo de que agiram honestamente, o que conseguem com facilidade quando toda a interpretação do direito depende unicamente deles. É, com efeito, evidente que eles extraem daí a máxima liberdade para fazerem tudo quanto quiserem e o apetite que lhes sugere.

E no Capítulo XVIII termina assim:
Confirma-se, assim, por estes exemplos, aquilo que dissemos: o regime próprio de cada Estado deve manter-se e não pode sequer ser alterado sem se correr o risco de total ruína do mesmo Estado.

Um abraço e muito obrigada

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