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a árvore ao jardim
Alice Valente Alves

ESPINOSA e o objectivo da filosofia: a VERDADE


Resta, enfim, demonstrar que entre a fé, ou teologia, e a filosofia não existe nenhuma relação nem qualquer afinidade, coisa que não pode ser ignorada por ninguém que conheça o objectivo e o fundamento destas duas disciplinas em tudo divergentes. O objectivo da filosofia é unicamente a verdade; o da fé, como ficou abundantemente demonstrado, é apenas a obediência e a piedade. Depois, os fundamentos da filosofia são as noções comuns, devendo toda ela ser deduzida a partir apenas da natureza; os da fé, por seu turno, são as narrativas históricas e a língua, pelo que não podemos deduzi-las senão da Escritura e da revelação, conforme demonstrámos no capítulo VII. A fé, portanto, concede a cada um a máxima liberdade de filosofar, de modo que se pode, sem incorrer em crime, pensar o que se quiser sobre todas as coisas. Os únicos que ela condena como heréticos e cismáticos são os que ensinam opiniões que incitam à insubmissão, ao ódio, às dissenções e à cólera; em contrapartida, ela só considera fiéis aqueles que, tanto quanto a sua razão e as suas capacidades lhes permitem, incitar à justiça e à caridade.

Por último, e tendo em conta que o que nós aqui apresentamos constitui o principal objectivo do presente tratado, gostaria, antes de continuar, de pedir encarecidamente ao leitor que se dignasse ler com particular atenção e reexaminar, uma e outra vez, estes dois capítulos. Oxalá fique persuadido de que não escrevemos pelo desejo de introduzir novidades, mas para corrigir coisas que andam distorcidas e que esperamos, um dia, ver finalmente emendadas.

BENTO ESPINOSA, TRATADO TEOLÓGICO-POLÍTICO
Excerto do final do Capítulo XIV

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