Se o instinto é, por excelência a faculdade de utilizar um instrumento natural organizado, deve envolver o conhecimento inato (virtual ou inconsciente, é verdade) tanto do instrumento quanto do objecto ao qual este se aplica. O instinto é portanto, o conhecimento inato de uma coisa. Mas a inteligência é a faculdade de fabricar instrumentos inorganizados, isto é, artificiais.
Um ser inteligente traz consigo os meios necessários para superar-se a si mesmo.
Supera-se no entanto menos do que gostaria, menos também do que se imagina fazer. O carácter puramente formal da inteligência priva-o do lastro do qual precisaria para pousar nos objectos que seriam do mais alto interesse para a especulação. O instinto, pelo contrário teria a materialidade requerida, mas é incapaz de ir buscar seu objecto tão longe: ele não especula. Tocamos no ponto que mais interessa nossa presente investigação. A diferença entre que iremos assinalar entre o instinto e a inteligência é aquela que toda nossa análise procurava desentranhar. Nós a formularíamos assim: Há coisas que apenas a inteligência é capaz de procurar, mas que, por si mesma, não encontrará nunca. Essas coisas, apenas o instinto as encontraria; mas não as procurará nunca.
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5 TRAÇO(S):
"Há coisas que apenas a inteligência é capaz de procurar, mas que, por si mesma, não encontrará nunca. Essas coisas, apenas o instinto as encontraria; mas não as procurará nunca."
Magnífica afirmação!
Nós temos a clara percepção do nosso pensamento consciente mas não temos do inconsciente, por isso damos-lhe uma importância reduzida. Mas é exactamente ao contrário.
O nosso processamento mental é, evidentemente, completamente inconsciente; o consciente desempenha na nossa mente o papel que o monitor desempenha no computador.
O consciente permite-nos interferir no trabalho do Inconsciente, orientá-lo, decidir o que procurar - é isso que a frase acima salienta.
Mas o Inconsciente é muito mais poderoso do o que temos normalmente ideia. A avaliação das respostas obtidas e a definição da direcção da próxima procura também é feita pelo Inconsciente. O Consciente é só uma ponte entre essas duas funções inconscientes. Onde vem beber ainda uma terceira actividade, a Tomada de Decisão, que é o que nós, sobretudo os homens, identificamos com «nós».
Esta é que condiciona o pensamento, o faz parar num determinado ponto e passar para o assunto seguinte.
A chave para conseguir chegar mais longe, resolver problemas mais difíceis, é precisamente libertar o Inconsciente do jugo da Tomada de Decisão.
Einstein disse que a diferença entre ele e os outros cientistas é que «ele pensava mais tempo». Ou seja, quando para os outros um assunto já estava encerrado, a «tomada de decisão» concluira o esforço de pensar, ele continuava a pensar, a pensar...
Quando percebemos isso, dedicamos a nossa atenção à utilização das nossas capacidades inconscientes. Deixar o Inconsciente livre para pensar sem a interferência da «tomada de decisão», como na meditação, como no sono, como nas alturas em que estamos a cair de sono ou em que estamos a começar a despertar. Isso não é trivial, temos de procurar estados de consciência fora da «vigília» para conseguir anular a «tomada de decisão».
A frase de Bergson não é tão perfeita assim... afinal o Inconsciente sabe o que procurar, nós é que nos convencemos que não sabe porque «tomamos a decisão», e atalhamos o processo. Qualquer Criativo aprende a desenvolver técnicas para atrapalhar a «tomada de decisão».
Atalhar o processo pode ser vital porque a sobrevivência depende da rapidez de decisão. Essa nossa capacidade de decisão é assim muito importante, vital. Mas ela consiste fundamentalmente em atalhar o processo inconsciente. Em vez de deixar a Inconciente no demorado processo de processar todo o «bolo» de informações, vamos atalhando, vamos decidindo: usa só esta informação, aquela conclusão, ignora aquela outra informação.
O Inconsciente, sem a nossa interferência, vai processar toda a informação de que dispõe. Só temos de lhe dar tempo de processamento. E informação para ele processar. É um processo demorado, mas muito mais poderoso do que o que resulta da interferência da «tomada de decisão».
Bem, pelo menos é assim (simplificadamente) que eu percepciono este aspecto da nossa mente. É bom que dediquemos mais atenção a ela porque quanto melhor a entendermos melhor a podemos utilizar. E melhor entenderemos o ser humano.
Estimulante este post, como se está a ver pelo comprimento do comentário rsrsrs. Obrigado Ali_ce!
Ahh, faltou-me uma coisa: o «Instinto» tem pouco a ver com isto, ele é a Informação Herdada, que condiciona o processamento mental; como tudo o que é aceite como «verdade» condiciona. Aprender a combater as «verdades» que nos condicionam é fundamental mas é outro assunto...
E pressupondo aqui que a inteligência esteja mais orientada para a consciência e o instinto para a inconsciência, e sobre a frase de Bergson (Há coisas que apenas a inteligência é capaz de procurar, mas que, por si mesma, não encontrará nunca. Essas coisas, apenas o instinto as encontraria; mas não as procurará nunca) creio não ir ao encontro do que afirmas nesta frase do teu comentário: O consciente permite-nos interferir no trabalho do inconsciente, orientá-lo, decidir o que procurar.
É que para Bergson a criança compreende coisas que o animal jamais compreenderá a reforçar que a inteligência como o instinto, é hereditária, inata. E que essa inteligência inata ainda que tenha aptidão para conhecer, ela não conhece nenhum objecto (coisas) em particular. E porque ao lado das coisas há as relações e assim a inteligência faz naturalmente uso das relações e em que para o conhecimento nato, as coisas estão para a inteligência tal como as relações estão para o instinto.
E como para Bergson a Intuição é o instinto consciente de si mesmo (ou o inconsciente consciente), para além de completamente liberto da pressão das tais "Tomadas de Decisão" que muito bem falas, ele tem ainda a capacidade de reflectir sobre esse seu objecto e de prolongá-lo indefinidamente. E partindo da acção a colocar a inteligência como a tendência primeira do que é o fabricar, logo o seu objectivo incide sobre a matéria bruta, os sólidos ou a coisa inorganizada, representado assim a descontinuidade, a imobilidade ou o fechamento de tudo o que se movimenta. E porque "há coisas que apenas a inteligência pode procurar" a dar exemplo das muitas teorias que vai construindo, ela ainda pretende ter todo e qualquer domínio sobre a vida e o pensamento.
E como já percebi que são importantíssimos também para ti, os assuntos que aqui estão implícitos, termino com este excerto de Bergson:
… a consciência após ter sido obrigada, para libertar-se a si mesma, a cindir a organização em duas partes complementares, vegetais de um lado e animais do outro, procurou uma saída na dupla direcção do instinto e da inteligência: não a encontrou com o instinto, e só a encontrou do lado da inteligência, por um salto brusco do animal para o homem. De modo que em última análise, o homem seria a razão de ser da organização inteira da vida sobre nosso planeta. Só há na verdade, uma determinada corrente de existência e a corrente antagonista; daí toda a evolução da vida. Cabe agora seguir de mais perto a oposição dessas duas correntes. Talvez descubramos assim uma fonte comum a ambas. Assim fazendo, penetraremos também sem dúvida nas mais obscuras regiões da metafísica. Mas como as duas direcções que temos que seguir encontram-se assinaladas, de um lado na inteligência e, de outro, no instinto e na intuição, não por que temer que nos extraviemos. O espectáculo da evolução da vida sugere-nos uma certa concepção do conhecimento e também uma certa metafísica que se implicam reciprocamente. Uma vez desentranhadas, essa metafísica e essa crítica poderão, por sua vez, lançar alguma luz sobre o conjunto da evolução.
E eu é que te agradeço o teu excelente comentário e assim como a possibilidade de podermos desenvolver estas matérias.
Um grande abraço
O Bergson teve o grande mérito de perceber que existe um processamento inconsciente, a que chamou «intuição», e um consciente, que identificou como «inteligência»; e ainda de perceber que esse processamento inconsciente, a «intuição», tem um papel fundamental.
Eu penso o mesmo, e estou de acordo com quase tudo o que expões mas uso nomes diferentes.
para mim, tudo é «Inteligência». A «intuição» é o resultado de um processo inteligente que é inconsciente e do qual só conhecemos o resultado. Porque nos aparece no consciente de repente, diferença-mo-lo dum processo que acompanhamos a par e passo, um processo «consciente».
Na verdade, um processo «consciente» não é mais do que uma sucessão de processos inconscientes curtos - o «pensamento», tal como um filme é uma sequência de imagens, é uma sequência de ideias, geradas no inconsciente, que, por avançarem por pequenos passos, nos parecem ser uma corrente contínua.
O Raja Yoga dedica-se ao estudo das capacidades da mente. Li alguma coisa sobre isso quando era adolescente; e lembro-me de ter feito a seguinte experiência:
estava com uns amigos na Alameda D. Afonso Henriques qd um deles pôs o seguinte problema: temos 12 vacas, que têm todas o mesmo peso excepto uma; temos uma balança de pratos para pesar as vacas; com 3 pesagens identificar a vaca com peso diferente.
Eu concentrei-me nos dados do problema, «passei-os» ao inconsciente e não fiz o mínimo esforça para raciocinar sobre o problema; limitei-me a sentir os dados presentes na minha cabeça.
Iamos a pé, em direcção à Mexicana. Chegamos lá, sentámo-nos. Pedi um guardanapo de papel. E comecei a escrever a solução do problema. Saíu direitinha, à primeira tentativa. E eu nunca cheguei a usar o «consciente» para trabalhar o problema.
A isto chamaria o Bergson «intuição». Mas é claro que é o fruto de um processamento efectuado sobre os dados do problema.
Eu já aprendi que o nosso inconsciente sabe muito mais do que nós. Porque toda a informação que os nossos sentidos captam é processada por ele. Uma pequena parte é debitada no consciente, de acordo com um programa e critérios, mas outra parte fica no inconsciente.
E aprendi a deixar-me guiar pelo Inconsciente. Quando começo a «tomar muita decisão» e a desviar-me daquilo que o inconsciente entende, começo com uma sensação estranha que já sei identificar. Então páro, deixo-me cair em meditação, ou seja, deixo correr o pensamento procurando não interferir. Passado algum tempo começam a surgir-me respostas, a indicação do caminho a seguir.
O Inconsciente não é omnisciente. Nem sempre acerta. Ele obedece aos critérios que tem programados que eu nem sempre sei quais são. Tenho de analisar com cuidado as indicações que dele recebo.
Mas sei que a minha «Inteligência» vem do Inconsciente e não do consciente; e que o papel deste é sobretudo questionar as respostas do inconsciente, ou seja, da Intuição do Bergson.
(continua)
(continuação)
Quanto à ideia de que a «intuição» tem a ver com «coisas», ou «conhecimentos» e a «inteligência» com «relações»:
o cérebro tem diferentes processos de ser «inteligente», nomeadamente um baseado na associação de soluções a situações, portanto baseado na memória, que corresponderá à ideia de «coisas», ou «conhecimentos», e outro baseado na análise de relações.
O primeiro é muito mais rápido do que o segundo e não tem intervenção do consciente a não ser que ocorra um lapso de memória, daí que a ideia de «Intuição» ou «inconsciente» surja associada à de «coisas», «conhecimentos»;
o segundo, desenvolve-se normalmente por pequenos passos no consciente, daí a associação a «Inteligência» ou «consciente». Mas, como mostra o exemplo das vacas, o Inconsciente não precisa do consciente para lidar com relações.
Ou seja, no fundo, estou de acordo com o Bergson e contigo na ideia de que a Intuição é fundamental, só que não gosto da palavra «Intuição» a não ser que se esclareça que se trata de «inteligência inconsciente»; e não estou de acordo quando ao papel do consciente, embora também não saiba defini-lo com muita clareza.
Bem, estou a tentar compreender as ideias que expões à luz das minhas, o que é muito interessante e gerador de uma melhor compreensão. Esta é uma matéria onde a nossa ignorância é abissal...
Olá ALF!
Não resisti e acabei por fazer um novo post na continuação do que aqui temos comentado:
Inteligência e Intuição - Consciência e Inconsciência
Um grande abraço e muito obrigada
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